"Virtuosos existencialistas globais", por Guilherme Nogueira.
O combinado era irrevogável. O boêmio – malandro da segunda geração da metrópole da praia – morava a nove quilômetros dali. Pegaria dois ônibus até o lugar que Madalena enfatizara nas mensagens enviadas à incrível velocidade da luz pelo computador. A garota magra, loira, de nariz pontiagudo, de olhos pretos, sobrancelhas claras, estava de pé, de costas ao ponto. O cyber-café onde deveriam encontrar-se ficava no outro lado da rua. Vinte minutos correram rapidamente e ela sabia que o ônibus que encostava era o do rapaz. Viu com o canto dos olhos alguém com a mesma descrição: discreto, bem vestido, despenteado. Ele entrou na porta vai-vem. Era observado a cada instante.
Madalena trajava uma roupa diferente daquela que dissera que vestiria no tal dia. Era o tal dia, abafado, úmido, quase chuvoso. Ela ficou algum tempo ao balcão olhando para o moço. Viu que suas têmporas estavam suadas. Ele estava impaciente com os olhos aflitos e frenéticos, porém resignado. Tinha olhos fundos, face magra, corpo raquítico. Não corava de forma alguma. O movimento lento, ao pedir uma cerveja para a atendente, deu risos à garota que sentou de chofre na mesa. Olharam-se e três segundos depois ele disse:
- Eu não tinha visto.
- Nem eu. Fiquei ali esperando. Já ia embora.
- Tudo bem com você?
- Tudo. O que você pediu?
- Cerveja.
- Chope?
- Não. Dois copos.
Eles alcançaram a noite facilmente. Dividiram a conta. Na rua paradisíaca, mal cheirosa, requintada pelos clarões atordoantes, com explosões de barulhos incompreensíveis, sem categoria, imunda, linda, os deuses tutelares das intempestividades empurraram-nos para um poste inclinado. O hacker, despercebido de si, colocou uma mão nos cabelos dela e a outra em sua cintura e grudou-a nele. Ela apertava sua bunda e o beijava.
- Quantos anos mesmo?
- Eu disse várias vezes.
- É.
- Vinte.
- Dezessete.
- Mora perto então?
- Não.
- Espertinha. Vamos pra minha casa?
- De ônibus?
- Claro!
Caminharam mais um pouco, contornando o litoral, com os pés descalços na praia e resolveram que era páscoa carnavalesca. O ritmo do “indie rock” a poucos quarteirões dali, despejado dum palco improvisado, fez-lhes porem-se de prontidão à vontade. Um tiro seco enganou a noite e deu um susto. Já na água quente, reluzente, ela convidou-o para um banho. Ele riu e seguiu. Mandaram bala.
Acordaram com o sol fervorosamente chutando suas caras. Ele disse que passara um dia ótimo e que ela era bem legal. Ela contou que morava ali perto, num prédio beira-mar. Ele sabia disso. Ela emprestou três pilas abraçando-o e ele tomou o rumo num ônibus seboso.

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