Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

"O dia que a indecisão pode ter salvado minha vida (mais o meu cabelo)", por Tiago Muzulon.

Como fiz compras no mercado, acordei mais cedo do que de costume, tomei um belo banho quente na banheira (faz frio), preparei um café com achocolatado, um sanduíche com batatas e algumas rosquinhas de chocolate digestivo. Estava feliz por não ter saído às pressas, como quase sempre faço, e apesar de muito frio, havia um sol tímido. Peguei o número cinqüenta e dois para Victoria e desci na estação de Ladbroke Grove, da Hammersmith & City line. Comprei o The Guardian com uma foto imensa da Trafalgar Square comemorando a vitória para sediar as Olimpíadas.

Peguei indicação com o primo Wall para cortar o cabelo e fui - de ônibus, não de metrô, como usualmente faria. O lugar ainda estava fechado. Pensei: vou procurar emprego enquanto isso. Fui até um orelhão, liguei para a Chelsea School of Arts para me candidatar a modelo para os alunos pintarem e esculpirem. Pagam bem e não precisa ser modelo profissional, disseram que às vezes até preferem gordinhos ou magricelas para exercitarem os seus artistas. Prometeram me mandar um formulário pelo correio.

Depois parti à redondeza do British Museum, onde consegui ter coragem de deixar currículos em alguns antiquários, embora afirmassem não haver necessidade. O British Museum fica na Great Russel Street, por onde, passando com o pensamento de ir até Charing Cross Road ter coragem de deixar currículos nos sebos, encontrei um barbeiro aberto. O doidão que me cortou o cabelo era um espanhol tagarela que fez um estrago; arrebentou com tudo. Tornei-me outra pessoa, mas não importa, pois faço isso quase todos os dias cedendo minha alma aos deuses tutelares das intempestividades. Tivemos uma boa conversa, pelo menos.

Quando saí, estava tão atordoado com a crise de identidade causada pelo espelho, que vacilei por longos vinte minutos sentado na sarjeta da Great Russel Street com a Southampton, chorando. Foi quando definitivamente senti o peso das responsabilidades da idade adulta. Foi quando não houve recurso. Nem pai nem mãe nem avós. Tinha de me virar e sem cabelo. Por fim resolvi: devo ir à escola, dane-se deixar currículos naqueles sebos que nunca vão me contratar. Estava em um lugar onde podia escolher: pegar a Piccadilly line em Russel Square, mas ter que trocar de trem, ou caminhar um pouco mais - no sentido oposto - até Holborn para atingir a Central Line que me levaria até a escola, sem trocas. Quando cheguei e ia entrando apressado, um guarda me barrou e o outro já foi fechando a porta da estação. “Que isso, o que está acontecendo?”. “Há a suspeita de bombas no metrô”. Ah, que merda, vou perder a aula, pensei. Cinco minutos mais tarde voltei para perguntar ao mesmo guarda. “Russel Square foi bombardeada, e um ônibus em Tavstock explodiu, a cidade está parada”. Nas ruas as pessoas saíam dos prédios como fagulhas pipocando de uma churrasqueira, escorriam como que estrume vindo do ânus de um cavalo em trote e com desinteria. Falavam ao celular, gesticulavam. Um casal se abraçava ao meu lado como se fosse acabar o mundo. As pessoas tinham um patético ar solidário, sabendo não ceder a extremos e conservando uma parcela de dignidade elegante em suas expressões. Queriam parecer firmes.

Mudei de idéia, fui para Charing Cross, por onde passavam pessoas com rostos assustados. Não se mostravam desbaratadas, mantinham a pose, embora temessem muito. No meio do caminho parei no correio da Trafalgar Square e mandei uma carta que estava pronta havia dias, só faltava a mensagem final. Todos os lugares com televisão se enchiam. A todo o momento surgia uma nova explosão, uma nova suspeita, um novo ônibus se espatifando. Passeei por toda a área de Picaddilly, Soho e Charing Cross Road até chegar a Oxford Street depois de muitas voltas. Foi a ocasião que usei para conhecer realmente a geografia do centro da cidade, até então eu nunca havia caminhado e descoberto tanto. Não me importava com os eventos, estava redimido em mim mesmo e queria que tudo fosse pelos ares.

Vou ter que caminhar a pé até em casa, que merda, pensei. E essa era a minha maior preocupação. No caminho fui parando em lojas, vendo coisas, vendo os rostos das pessoas, vendo TV. Depois de atravessar a Oxford Street de ponta a ponta, parei em um café na Edgware Road, comprei um sanduíche barrela e sentei-me com o The Guardian de folhas gigantescas que mais parecem flores da Indonésia. Gastei uma hora e meia ali sentado. Um senhor pediu para compartilhar a mesa comigo, pois todas as outras estavam ocupadas. Depois pediu também para partilhar um pedaço do meu jornal. Tudo bem, sejamos gentis com os senis, pensei.

Depois alguém chegou trazendo um exemplar quente do Standard - que tinha acabado de sair, com um relatório geral das explosões. O velho comentou algo, respondi como quem não sabe de nada (o problema não é meu). E eu pensava: caralho, se não tivesse ficado vinte minutos macambuziando na sarjeta da rua por causa do cabelo, eu teria estado em um trem no momento da explosão. Teria que descer embaixo da terra, caminhar nos trilhos, sair que nem rato de esgoto, isso se o trem explodido não fosse exatamente o meu, que explodiu na linha que ia pegar. Os homens explodiram no lugar certo: onde tem mais gente circulando. Queria ter visto aquilo tudo, deve ser lindo assistir labaredas flamejando sob a terra à frente das pessoas. Pernas, rostos, cabeças e idiotices infinitas se despedaçando todas em um mesmo instante, um mesmo balé, uma mesma sangria inacreditável.
Esse dia foi estranho, choveu, fez frio, e depois abriu o sol de novo. Os idiotas tiraram todas as lixeiras dos ônibus e dos metrôs e me fazem ter de carregar uma casca de banana por muitas centenas de metros. Vejo na TV os londoners que iam engravatados a seus trabalhos; as menininhas de trinta anos - há muitas dessas múmias que não envelhecem - com seus foninhos de ouvido escutando R.E.M. ou Madeleine Peyroux e lendo algum romance enfadonho daqueles just released. A TV também diz não saber como será amanhã para as pessoas irem trabalhar, o que vai funcionar. A cidade está caótica, mas isso é redundante; portanto, não importante. E o sujeito se regozija por ver as pessoas ao seu redor se rebaixando ao mesmo nível foditivo no qual se encontra.

7 Comments:

At Sex Set 14, 08:40:00 PM, Anonymous b.m. said...

eu tenho o postal desse dia pregado na parede do meu quarto... lembro quando recebi... saudade, meu doce.

 
At Ter Set 18, 08:51:00 AM, Anonymous fochesatto said...

não tem como esquecer essa fita.
tino sobreviveu!

 
At Sex Set 21, 12:47:00 PM, Anonymous terríficus said...

a vaidade salvou sua pele... e seus pelos.

belo texto.

 
At Sex Set 28, 07:22:00 PM, Anonymous Gabriel said...

Porra Osney, lembro de quando me disse isso no MSN!
E agora, relendo, soa mais proximo...
Abraco!

 
At Ter Out 23, 06:10:00 AM, Blogger Guilherme said...

E esse que desandou mesmo?

 
At Qui Nov 15, 09:55:00 PM, Anonymous Tiririca said...

Esse blog... MORREEEAAAU

 
At Sex Nov 16, 07:21:00 AM, Anonymous fochesatto said...

whatever you want, nigga.

 

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