"Tédio", por Sara Castillo.
tédio: contento-me com o pequeno léxico. a cada dia que passa descubro que sou mais estômago do que sexo. exemplares casualidades; pensar no próprio prazer, não tocar. só uma relação isenta de sentimentalismo, em que nenhum dos parceiros se arrogue direitos sobre a vida e a liberdade do outro, pode trazer felicidade para ambos, artigo n° 1. há muito tempo exclui o amor da minha vida, pegar na mão é abuso, é anti-erótico - dividir o mesmo banheiro então? intimidade possivelmente inaceitável - mas há pouco tempo não alcanço a sincronicidade das coisas e nessa afirmação inclua também o sexo. ontem foi o ápice, no fim da noite tudo o que eu queria era me sentir viril. não deu certo. acabei me perdendo sozinha no branco do teto. lá estava eu, ridiculamente despida, tentando satisfazer a quem? já estava seca, essa era a verdade, e mesmo sem tesão aceitei o hábito. tão seca que conseguia engolir com uma indiferença incrível, então retomamos: sou mais estômago que qualquer outra coisa, pois veja, a partir do momento em que o prazer individual é descartado nos tornamos seres assexuados, a língua e o tato são infrutíferos já que a libido é estéril.

4 Comments:
monossilábicos e assexuados...
o tédio é o fim de algum auge, de repente, não mais que de repente! - falo desmerecido do dito e com resmungos.
quero comer o seu estômago!
poxaa.. gostei disso xD..
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