"Pet Sounds - Parte III", por Hélio Flanders.
No dia catorze de agosto o médico me disse sem rodeios: - Você está muito doente. Precisa se tratar em algum lugar melhor, talvez na capital ou no exterior – E então ouvi meu pai chorar no outro cômodo da casa. Algo estava acontecendo e eu não sabia exatamente o que era. Eu queria uivar como um lobo para provar que estava sadio. Sem coragem de perguntar mais sobre a enfermidade, contentei-me com a informação que era um “problema na minha cabeça”. Eu já era um homem e os adultos costumam mentir. Quando saí para encontrar Caroline, já com fistulas pelas seguidas injeções, pensei dizer-lhe que a viagem seria para o campeonato de xadrez. Ao chegar e olhar para seus belos seios nus em sua sala de estar, desandei a chorar. Fui acolhido por seus olhos que sem dizer uma palavra me abraçaram. Não precisei dizer nada também. Ela logo viu meus pulsos doentes, minhas olheiras e meu desespero, quase um afogamento. Disse-me, no auge de sua maioridade, que aquilo era uma provação divina e que não havia nada que eu pudesse fazer. – Mas estarei do seu lado. – e então talvez ouvi essa frase pela primeira e última vez. Ela jamais precisou repetir novamente. Parti numa sexta-feira e ouvi pássaros cantarem até as nove da noite. Havia dois filhotes magros e barulhentos em algum ninho próximo. Eles não poderiam significar nada além da vida que eu necessitava. A cada hospital que eu entrava, o cheiro me apertava o pescoço até quase estrangular. Passei três anos perambulando entre exames e enfermeiras. Nenhum beijo na boca. Vi crianças chorando de dor, médicos negligenciando idosos por conta de secretárias promíscuas, anestesistas cheirando cocaína em cima dos pacientes mortos. Se me abalei algum dia, foi pela ausência de Caroline. Foi um pedido meu não receber visitas, porém durante todas as manhãs e durante todas as noites, entre quartos frios e cobertores quentes, entre torradas e vodka comprada escondida pelo neurologista, eu só pensava no dia em que ela entraria pela porta do quarto e diria: - Vamos embora, hoje é seu aniversário – Mas ao invés dela, contentei-me com a solidão de uma metrópole e uma garrafa barata.

1 Comments:
Voce constrói bem uma história.
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