Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

quinta-feira, setembro 13, 2007

"O carão", por Guilherme Nogueira.

Eu tenho um amigo. Meu amigo, N., tem um pai. Nós nos conhecemos enquanto estudávamos o último ano da escola. Ficamos bons amigos e ele é um dos melhores que alguém possa ter. Ele já me mandou cartas, envia sempre e-mails e telefonou outras tantas. Está morando noutra cidade, uma vez que a mãe faleceu e o pai quis se mudar. Foram a setecentos quilômetros daqui do campo. Vou falar do pai dele. É um cara absolutamente positivo.
Eu fui à casa de N. pela primeira vez quando voltamos da casa de uma mulher nova na cidade. Tínhamos conhecido ela na festa na casa do veado do Vox. Na casa dela, já que era a nova professora de história da nossa escola, fumamos um brau loucamente apaixonante e eu fiz a minha melhor suruba e a única também até hoje. Ela se ria toda do pau torto de N. Quando voltamos lá, estava o pai do meu amigo, seu Delfino, com a pança quase nua, não fosse os pêlos ursulares que lhe recobriam completamente. Seu Delfino estava sentadão, todo gordo, na poltrona do rei, mamando um cachimbo fortíssimo que eu sentia no ar. Ele tinha bebido naquela noite também e chegara há pouco. Passamos pela sala, o velho nos cumprimentou. Idem. Foi boa a noite e pra ele também, então ta e foi aquilo. “Até amanhã no almoço.” “Boa noite.” “Boa noite.” Fomos dormir. Arranjamos um colchonete finíssimo, aliás, duríssimo, tão duro quanto o chão debaixo dele.
Senhor Delfino mudou de cidade levando o filho na carrinha e um amigo, o sócio, Javier, de ônibus. Acho que Javier é boliviano ou alguma peste assim. Javier tinha os contatos e apesar de seu Delfino ser um homem velho e falido, ter trabalhado na roça, num banco privado, sido caminhoneiro e dono de dois bares e depois de um restaurante e em seguida ter falido e se endividado e conseguido quitar as tais dívidas com juros, ter virado vendedor e endividado outra vez, ele sabia como agir, era bom cozinheiro e tinha uma saúde incrível. Nunca lhe faltou as cervejas na geladeira, apesar de qualquer coisa. A idéia era alugar um apartamento na capital de outro estado, que é pra onde foram, e que é maior e bem mais desenvolvida que aqui, para fazerem marmitas e usar a carrinha de seu Delfino para entregá-las. Eles fariam entregas os homens miseráveis das obras. Para os pedreiros, os pintores de parede, os garis, os lixeiros que podiam pagar. Isso lhes deixava vender de quinze a vinte marmitas por dia. Depois Javier explicou sua idéia que melhorou a vida deles todos.
Era uma tarde fresca de domingo. Javier expôs sua idéia ruminada ao sócio. Ele havia expandido seus contatos de tantas entregas que fez e pessoas que conheceu. Cancelaram o trabalho com os pobretões e iniciaram o que eles chamavam de “vida sofrida”, pois todo negócio incipiente não deve ter horário de começo, nem de fim e muito menos dia que não se possa improvisar de boa-vontade, para dar tudo certo e fazer a carroça andar – trabalhando de madrugada e às vezes dois dias seguidos. A clientela dali em diante seriam as putas estrangeiras da cidade, que espalhas em demasia, não podiam comer porcamente pelas ruas e não estavam habituadas a comer nossa comida. Começou, depois de dois meses, a sair de cinqüenta a oitenta marmitas por dia e eles alugaram uma cozinha para isso e contrataram um ajudante. Javier dava conta de todas as entregas. Ás vezes ligavam para um motoboy.
As coisas não são uma maravilha dourada, mas N. mora num apartamento perto da universidade que o pai banca. Disse ter comido uma das de vida fácil que conheceu e ta trabalhando meio-período numa vídeo-locadora para não ficar parado e ter uns trocos a mais. O malandro tá na faculdade de Física. Me chamou pra ir viver com ele e a namorada. Fiquei de pensar. Resolvi partir para o exterior com um amigo. Além do oceano. Ele entra praticamente com suas economias e eu basicamente com meu braço forte. Vamos abrir um bordel lá com salas pra drogados e ambientes regionais de vários lugares do mundo. Tenho parentes que vivem por lá e ele também, na mesma cidade, ainda que não se conheçam, vão nos ajudar muito, principalmente com os documentos de legalização.

2 Comments:

At ter. set. 18, 08:50:00 AM, Anonymous Anônimo said...

o original desse veio direto de portugal para o digitador do arcada, govinda.

 
At sex. set. 28, 07:29:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Mui bueno, cabron!

 

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