"A mudança", por Hélio Dantas.
“if i were a good man i would understand the spaces between friends”
ela não queria viajar mas teve que ouvir estupefata a notícia de que partiriam no fim de semana. precisava logo arrumar as malas decidir o pouco que iria levar o muito que seria considerado inútil e deixado para trás. chegado o dia da partida qual não foi a surpresa misturada com indignação ao saber que não iam mais se mudar. haviam sérios motivos que cancelavam a viagem por tempo indeterminado.
depois veio o alívio já que não iria deixar o lugar que tanto gostava. irritação somente pelo vão trabalho de arrumar as coisas. devolveu tudo de volta ao quarto com certo prazer até.
passados uns meses chegou em casa cansada como sempre mas disposta a ter uma noite relaxante. porém encontrou já a pilha de malas e caixas na sala e teriam que sair naquela noite mesmo.
a cidade onde foi morar era feia monótona cheia de pessoas de cabeça pequena e costumes retrógrados. sentia-se como exilada podada prisioneira e não foi com dificuldade que dessa vez uma semana depois se mudava novamente.
para onde dessa vez?
seguiram-se dois anos e o inesperado já era de se esperar. sempre havia uma explicação plausível para tudo mas quase que podia sentir quando estava próxima uma mudança.
sempre se perguntava se um dia aquilo ia acabar. pensava que não tinha amigos não tinha suas coisas aqueles objetos de estimação nem sequer um cão o prazer de adquirir algo uma roupa um livro um móvel se esvaía com a vertiginosa fugacidade daquele estilo de vida.
chegou um momento em que independente do que era dito ou decidido precisava se mudar. tinha uma necessidade enorme de se mover de estar aqui e ali. como se todas essas mudanças tivessem gerado uma obsessão do movimento: não sabia aonde queria ir mas tinha que chegar em algum lugar.
tornou-se uma perambulante. vagava pela cidade durante dia e noite não parava nem pra comer e somente quando o cansaço vencia tombava em qualquer lugar até ter forças para continuar.
essa situação era tão peculiar porém ganhou um ar de inverossímil quando o seu próprio corpo já não se decidia pra onde queria seguir. as pernas seguiam ao sul enquanto que os braços direcionavam ao leste e a cabeça insistentemente vergava para o norte. sem poderem entrar num consenso, um braço se desmembrou do corpo e seguiu o caminho que queria. uma perna fez o mesmo rumando ao sul. a cabeça vendo isso acontecer ficou pasma parou com a implicância e se aquietou.
o que podia esperar depois disso?

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home