Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

segunda-feira, maio 21, 2007

"A arte é inofensiva?", por Júlio Nhanhá.

Nada talvez seja tão presente em aspectos tão distintos como a arte em nossos dias. Grande parte da discussão parece surgir de um princípio comum; aconteceu alguma coisa de proporções alarmantes com a arte no último século. Uns afirmam que isso apenas alterou o seu conceito, como sempre aconteceu. Outros acreditam que dessa vez a mudança é diferente. De qualquer modo, concordando com Adorno, a única evidência sobre a arte em nossos dias é que, sobre ela, nada mais é evidente. O linguajar comum denomina 'arte' desde brincadeiras infantis até as descobertas científicas. Assim, tudo é arte. Soma-se a isso uma democracia agonizante e temos a consequência absurda de que tudo deve ser respeitado como produtos autenticamente artísticos, inclusive as obras de arte! Não há melhores delimitações do conceito nem entre os especialistas. O esteta hoje se encontra em posição parecida com o antropólogo de alguns séculos atrás. Quando surgiu a antropologia disposta a compreender o homem selvagem e não europeu, percebeu-se que não existia mais em parte alguma esse homem. Compreender o fenômeno artístico hoje em meio a um turbilhão de contradições, entre conceitos e obras, se torna quase sempre uma questão de saber o que foi a arte em outros tempos. Não é possível captá-la unicamente sobre o aspecto contemporâneo. Há muita confusão. Hoje, quando a opinião comum considera com bons olhos, a arte é tida como divertimento ou talvez auto-ajuda. Há também muito difundida a idéia de que entre a arte e o artista, somente o artista é o agente social, só ele é ou não transformador, e nunca a sua obra. Assim, uma das principais questões sobre a arte hoje é compreender ao menos se ela é mesmo algo tão inofensivo a ponto de, mesmo estando tão presente em nossos dias, poder tranquilamente viver submersa em tamanha confusão e negligência. Um simples olhar sobre o passado, breve como será aqui, poderá nos fornecer algumas informações úteis sobre essa questão.
Já no início da civilização grega apareceram a Ilíada e a Odisséia. A força moral com que essas obras influenciaram toda a população da Grécia é constantemente reafirmada pelas pesquisas históricas. Os personagens, deuses, semi-deuses ou homens, foram aos poucos se transformando em ídolos. As olimpíadas surgiram na tentativa de deixar os vitoriosos tão eternos quanto os guerreiros nos poemas. A mitologia, que era praticamente a única coisa unânime entre os gregos, foi fortemente endossada e popularizada através dos dois poemas. O efeito moral e político disso é incontestável. A Grécia sempre viveu imersa em sua mitologia. Talvez mesmo nenhum grego antigo tenha duvidado seriamente dos deuses, e Homero tem uma importância fundamental nisso. Platão, já no fim dessa Grécia, havia percebido o efeito moral que as artes exerciam nos cidadãos. Quando idealizou sua cidade perfeita, baniu sem meias palavras toda a arte livre. Se há alguma arte benéfica para uma sociedade, acreditava Platão, é aquela controlada pelo Estado. A arte pode criar ilusões, desviar o cidadão de seu lugar apropriado para bom andamento da sociedade. Em outras palavras, a arte pode instigar revoluções.
Esse pequeno exemplo já bastaria sobre o perigo de negligenciar a arte. Poderíamos ainda falar sobre a arte cristã, sobre como o conteúdo cristão modificou a arte e como esta impressionava o cristão medieval e, por isso mesmo, o ajudava a se manter cristão. Porém, um exemplo um tanto recente pode esclarecer esse problema ainda de maneira mais vasta e atual.
Estamos há meio século distante da segunda guerra mundial. Pelo prisma da história humana, tal guerra acabou de acontecer. Ainda não estão totalmente esclarecidos os seus motivos e meios. O nazismo será ainda por longo tempo um ponto de interrogação dolorido na cultura ocidental. Peter Cohen, em seu Arquitetura da Destruição, faz uma análise do nascimento à queda do nazismo e chega a uma conclusão interessante à primeira vista, porém avassaladora se nos detemos nela. Sua conclusão é de que todo o nazismo só se explica como sendo um movimento estético, e não político. Hitler não dispunha de outros meios. O controle estético do nazismo não foi acidental, mas sim necessário. Não é difícil muito para provar essa tese. A 'higienização' do mundo, a purificação da humanidade, a extinção da raça suja e impura judaica, o preconceito e o escárnio em relação às obras de vanguardas que retratavam aspectos da existência alheios a esses ideais. Sem falar na total destruição de incontáveis cidades e, contudo, a total preservação de Atenas e Paris, por nenhum outro motivo senão a beleza. As passeatas nazistas eram verdadeiros espetáculos. Grandiosos e buscando a perfeição. Da insígnia nazista ao seu uniforme, da sua arquitetura à sua medicina, de seu conceito de homem à suas ações políticas, tudo girava em torno de seus ideais estéticos. O massacre judaico e a tentativa de dominação política européia foram determinados por esses ideais, e não causa deles.
Resta-nos a dúvida falaciosa se tal dominação das massas seria possível numa sociedade esclarecida nas discussões sobre estética e arte. Falaciosa, pois é forçoso concluir que o Nazismo, sendo um movimento estético, só foi possível devido à desinformação estética. Somente uma população desinformada acataria os ideais estéticos nazistas, pois esses não possuíam fundamento sólido algum. A sociedade ocidental não trava mais guerras em nome de Deus. Hitler encontrou motivos estéticos e, através de mecanismos industriais de comunicação, submeteu suavemente toda uma população a seus ideais. A guerra começava aí, antes de qualquer ação militar. Não havia outros meios de controlar tamanha multidão numa sociedade moderna ocidental. Agora, a dúvida que realmente nos aparece é se é ainda possível tal dominação em nossos dias. Enxergar o nazismo como algo do passado é pressupor que aquilo que o possibilitou está hoje em dia definitivamente eliminado. Tal resposta será melhor delimitada se soubermos primeiramente responder a pergunta; quão firme estão hoje os nossos ideais estéticos?
Pelo turbilhão de contradições nas teorias sobre a arte, e até nas próprias obras de arte, que se procuram contrapor como solução definitiva sobre o problema, nos fica claro que, hoje em dia, poucas coisas estão tão longe de estarem firmes e esclarecidas como os nossos ideais estéticos. Embora seja um tanto absurdo pensar, hoje em dia, num nazismo naqueles moldes nazistas - pois cada vez mais as intervenções ditatorias estão sendo eliminadas -, pode-se enxergar ao menos uma possibilidade de algo inclusive mais catastrófico. Uma democracia não-esclarecida como a atual pode estar mascarando uma dominação de tal forma que se confunde, por todos os lados, alienação artística e liberdade artística. O problema trágico dessa confusão salta aos olhos através do alerta de Adorno sobre a existência de uma Indústria Cultural.
A sociedade capitalista no atual estágio em que se encontra necessita, talvez mais do que nunca, de um controle total de seus cidadãos. Obviamente, hoje não é mais um controle religioso e nem descaradamente militar. Uma democracia, mesmo agonizante, não permite isso. Porém, é uma sociedade considerada cada vez mais como uma indústria, onde nada funciona sem ordem e controle. Os movimentos trabalhistas vieram conquistando certos direitos para os trabalhadores, explorados pelos proprietários das indústrias. Uma das consequências direta desses movimentos é um aumento no tempo livre do trabalhador. Ou seja, a existência de um tempo em que o trabalhador se vê livre das formas opressivas e fatigantes do trabalho. A questão sobre o que fazer com esse tempo livre não pôde ser formulada naquele contexto em que ele surgiu primeiramente, pois logo a Indústria - ou seja, a sociedade capitalista industrial como um todo - percebeu o perigo de negligenciar esse tempo livre. Juntamente com tal perigo, foi ficando claro o benefício que a própria Indústria poderia ter ao agir dentro desse tempo livre. O benefício se dá no seguinte raciocínio. O trabalhador está cansado de um longo dia de trabalho e pressão. Deve-se oferecer a ele, nesse meio tempo fora do trabalho, algo que não o canse ainda mais. Algo que o distraia. Algo que o tranquilize. Qualquer coisa de conservador. Algo para que ele possa voltar normalmente a seu trabalho e que não impeça em nada sua produtividade. É daí que surgiu a Indústria Cultural. É daí que surgiu um dos maiores abalos que arte sofreu na história humana.
A arte, numa tentativa de definição atual, é aquilo que a indústria aponta como sendo arte. Há muito tempo que ser um artista de vanguarda é repetir a arte de vanguarda de outrora. Os ídolos são cada vez mais ídolos. Movimentos musicais já não possuem - se é que possuíram alguma vez - aquela liberdade que até hoje se acredita e se propaga. As pequenas variações de timbres e de estrutura, de um artista para outro, não são suficientes para causar algum impacto que se esperaria de obras de arte autênticas. São obras feitas para se descansar nelas. Todo espectador já sabe o que vai encontrar. Todo artista já sabe o que oferecer. As obras de arte hoje são como remédios. É quase o velho sonho do Platão se tornando realidade. Uma arte feita para manter os cidadãos presos em um ciclo que nada altera a estrutura da sociedade.
Pensar em transformação social e política sem considerar essa pedra no sapato dos dias atuais pode ser entendido de duas maneiras, ou inocência ou ironia. Só é possível uma sociedade livre de tais condições se for uma sociedade esclarecida esteticamente. Por sua vez, a Indústria Cultural só é possível em uma sociedade completamente desinformada sobre estética e arte. Ou seja, aquilo que permitiu o nazismo ontem é o mesmo que permite a Indústria Cultural hoje. As condições da dominação não estão eliminadas e sim mais firmes ainda. Pois embora o sentimento comum sobre uma ‘Era da Informação’, em termos de proporções em relação às possibilidades, estamos vivendo na mais escura época de desinformação. O atual estado da democracia, oferecendo liberdade como quem dá esmola falsa, ajuda de maneira essencial a propagação e o mantimento dessa desinformação.
Com tudo isso, podemos chegar ao menos a conclusão de que se há algo realmente comum por toda a história da arte é o fato dela não ser inofensiva. Sua origem se confunde com a origem da sociedade ocidental, com a filosofia, a ciência e a religião. Suas transformações internas se confundem com as transformações históricas sociais. Compreender a arte é compreender a sociedade. Procurar os meios sociais que permitiriam a existência de uma arte livre e autêntica em nossos dias é procurar os meios sociais que permitiriam uma sociedade mais livre e esclarecida. Pois se torna manifestamente contraditório negligenciar um meio tão poderoso de dominação de massas como a arte e, ainda assim, defender a bandeira de uma sociedade livre e democrática. É ainda mais preocupante num momento em que este meio de dominação, a arte - hoje geralmente arte industrial -, está completamente presente no dia a dia de qualquer cidadão da sociedade contemporânea e, como dizem, já quase globalizada.