"Pet Sounds - Parte I", por Hélio Flanders.
Perdi-me no primeiro instante em que ela deu um trago no fumo ilegal. Uma mistura de erva boa com o cheiro natural e forte era apenas mais um dos encantos que a campesina Caroline tinha. Entre as primeiras palavras e os primeiros beijos, passaram-se longos dias que oscilavam entre silêncio e rojões, olhos molhados e almas secas, meus gatos e seus cães. Depois disso, pude finalmente desfrutar de algo que nunca achei que fosse acontecer: um amor correspondido. Meus amigos diziam eu estar louco, havia parado de freqüentar os bares e deixado até o violão de lado. Desde meu nascimento não havia um motivo tão grande em minha vida, e eu devia aproveitar. A pouca idade que tínhamos não permitia que nos víssemos fora dos horários em que adolescentes podem namorar, então eu pegava o carro do vizinho na madrugada e roubava Caroline de sua casa, em seus trajes de dormir. Percorríamos toda a cidade, bebendo vinho e falando sobre tolices. Imaginávamos a vida de casados, com nossos filhos e nossa casa, com muita grama e animais. Ela tinha problemas às vezes na volta para casa, quando o cachorro de seu irmão, raça chinesa, assustava-se e latia alto. Eu ainda rodava a cidade com ela nos lábios, no corpo e na mente, impregnado em mim o nosso suor ingênuo e doce de jovens que ainda estão por descobrir algo. O carro eu estacionava com cuidado enquanto minhas pestanas deixavam suas últimas gotas de suor sob o estofado. Éramos muitos jovens. Um dia, casualmente, encontrei Caroline chorando nua na vizinhança na madrugada. Não acreditei. Era surreal. Ela tinha as mãos com tinta, os pés sujos e uma bolsa de lágrimas. Também carregava um caderno nos braços e não conseguia dizer uma só palavra. Eu muito preocupado a levei para casa e toquei-lhe as bochechas e os braços. Ela corou, vestiu-se com algumas roupas que estavam no chão e disse: - Boa noite, eu estou bem.
Eu não entendia. Eu nunca entendi. Ela parecia carregar dentro de si um peso diante da vida que eu jamais havia sentido. Era seca, extrema e pesada. Tempos depois fui saber que eram as primeiras sessões de Caroline com a lisergia que a deixaram tão amena a ponto de despir-se no bairro. Naquela época, nossos pensamentos ainda ousavam ser claros, ingênuos e verdadeiros. Lembro-me das primeiras contravenções. Nós saíamos às vezes para beber algo proibido e encontrávamos os chineses, portugueses, todo tipo de gente. Certa vez seu pai nos encontrou transtornados e fora de si em cima do telhado, de mãos dadas e numa compulsão de choro e riso. Foi a primeira vez que vimos Deus além das paredes sagradas.

2 Comments:
também disponível, na íntegra, no site www.mojobooks.com.br, néan caco?
Flanders. Flanco armado de palavras que mostram até onde os muros delimitam a vida.
Franco. Fragrância sibilina que não entendo e não quero pertencer, ainda.
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