Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

terça-feira, março 13, 2007

"Mais tarde outro galo grita", por Eskobar C. B.

Eu sabia rezar, por deus, como sabia! Foram nove anos participando dos grupos da igreja perto de casa, dos encontros, dos acampamentos religiosos e até dos chás das beatas amigas de minha mãe. Depois segui mais cinco anos até eu me crismar. Os padres já não gostavam muito da minha cara porque eu sabia que se quisesse fugir, nem que fosse um pouco, daquilo tudo, eu tinha que fingir ser burro, e eles, as beatas e as freiras safadas sabiam disso. Com quatorze me vi numa tentativa absurda de suicídio. Ora, eu era obrigado, ao lado do meu pai, meu avô, meu bisavô, os irmãos deles todos e um frei, que sempre ia nas sextas e domingos jogar dominó e beber vinho lá em casa, a assistir na televisão tudo o que acontecia no mundo. Tornei-me um vislumbrado pelos noticiários, das seis da manhã até a meia-noite. Certamente eu odiava aquilo tudo. Via os maconheiros de esquina e me perguntava por que faziam aquilo, deveria ser bom, ao menos, praquelas pessoas, mas se elas são pessoas, deveria ser bom pra todas as pessoas. Comentava com meu pinto sobre a sutileza do sexo, aliás, da foda, eu adoro essa palavra, não pude dizê-la nunca e só aos dezesseis consegui pronunciá-la com certa vertigem baforando-se garganta a fora.

Num dia chato, pesado, quente, quando eu tinha quinze anos, encontrava-me sentado ao lado de mais outros nove coroinhas da igreja. Todos rezavam pacientemente seus rosários de pedra sabão. Na ponta oposta, Júnior, que tinha um sorriso bonito e encantava todas as mulheres de pêlo no sovaco, e os padres pederastas, me chamou ao ver que eu não passava os dedos nas pedrinhas e nem estava de olhos fechados. Ele queria saber se eu conhecia o que era pó. Claro, amigo, eu disse. Conheço o pó da minha estante, porque mamãe só permite limpeza nas coisas materiais uma vez por semana e olhe lá, isso é, se eu não estiver de castigo por ter entrado de sapato em casa ou ter olhado a mini-saia da vizinha. Ele riu com tremenda ênfase da minha cara. Aquele porco maldito. Hoje ta na mesma cama de hospital, ao meu lado, com mais álcool do que suas veias dilatadas suportam. Mostrou-me um saco fechado com um pó branco dentro.

Quando completei dezessete anos fugi de casa pela primeira vez. Não apareci pra festa de aniversário, mas antes de partir, dei uma checada pela janela nos engomadinhos que ficavam lá, em pé, sorrindo diligentemente, abanando com folha de palmeira, lambendo os dedos com unhas vermelhas de minha mãe, lambendo o cu dela por dentro, se assim ela quisesse, naquele momento, açoitando seus corações que nunca nasceram. Tinha oitocentos reais que roubara do dízimo. À puta com esse tal dízimo. Nessa época eu tinha começado a estudar, há um ano mais ou menos, tudo sobre o rock’n roll e por incrível que pareça, eu lia muito, sabia muito, quero dizer, sobre a ‘revolução beat’ e tudo o que acontecia na época. Sabia muito mais do que mostrava nos jornais, porque quando não tinha noticiário na televisão, eu andava, aproveitando meu tempo livre, pra ir à banca do Sebastião procurar revistas, desde edições pornográficas até de cozinha. Em outros casos eu ia até a biblioteca municipal, que era enorme na época, antes de fecharem – mas não importa, porque eu tenho quase todos os livros dela lá em casa mesmo – e lia desde filosofia, religiões pagãs até autobiografias de escritores frustrados, músicos decadentes, mas talentosos, afinal de contas – pois eu juntava dinheiro do lanche da escola e comprava os discos dos tais – e li muito Miller, Kerouac, Burroughs, muita coisa. Adorei Rimbaud desde sempre. Adorei a luta pelo próprio engrandecimento do Bandini e me espelhei nele mesmo pra estufar o peito e poder cuspir na cara da minha mãe, chutar o saco do meu pai, lamber o cu deles todos e cair fora o mais rápido o possível. Tinha oitocentão. Por segurança eu dividi trezentos em cada algibeira da calça, deixei cem na cueca e cem na carteira. Apenas Júnior sabia da minha fuga e ele não contaria nunca pra ninguém, a não ser pra freira Soraya, a qual nós dois comíamos. Eu sempre deixava as terças e quartas pra ele e me sobravam todos os dias que eu quisesse, mas só tinha mesmo era o sábado livre, à noite, pra ir até o quarto da mulher sem ter que ser correndo e correndo embora.

Aqui retiro algumas linhas pra contar um pouco a história de Soraya. Nem sempre ela foi freira, como muitas daquela diocese não eram até completarem vinte e cinco ou trinta anos de pleno pecado, o pecado em sua forma mais cruel, quero dizer, não em sua forma mais comum e bacana. Quando eu tinha dezessete e Júnior tinha cinco meses a mais, começamos a assistir a algumas palestras de Soraya sobre educação social. Então nós dois percebemos juntos o quanto ela tinha cacoetes anti-proféticos, usava por engano, muitas vezes, gírias incompreensíveis pela maioria e fazia algumas posições que contradiziam a rigidez de todas as outras freiras e tinha um requisito muito mais importante, que era o de ela ser gostosa – diferente de todas as outras, que eram barrigudas, espinhentas, escrotas, pouco sacanas, chatas, entediadas, tediosas etc. Ela percebeu nossa atenção pra isso e sempre mirava olhadelas, diria como que olhadelas safadas. Acatamos ao seu convide prematuro de irmos a um apartamento de uma colega do antigo trabalho num bairro bem distante do nosso. Lá ela nos mandou tirar a roupa, sem cerimônia. Acho que fiquei mais nervoso que Júnior, que entendia daquilo muito menos do que eu. Mas foi só no começo. Depois me soltei e imitava os passos de Chaplin e deixava balançar meu pau duro. Ela era, além de tudo, sensual e inteligente. Graças a Soraya, que deus a tenha bem nesse mundo de baratas velhas, que Júnior e eu viramos homens de verdade. Fez de tudo conosco. Foi lindo, foi supremo. Depois de alguns dias fazendo tudo juntos, com nós três, quero dizer, ela não podia mais sair de sua cela, na igreja, e tínhamos que revezar pra não dar na cara e estragar tudo. Os padres já andavam de olho na potranca. Acho que o trabalho de se manter bem no lugar ficava cada vez mais difícil, porque aí já não era apenas a gente e havia muitos colhões envolvidos num tufo só de carne do diabo.

Mas depois ela começou a endurecer como as outras freiras e já não tinha privilégios naquele lugar. Também não trabalhava, nem em casa, nem em lugar nenhum. Mas saberia fazer muitas coisas pra me virar. Foi o que fiz quando fugi de casa. Fiquei pela cidade na primeira semana e já tinha me alojado num hotel, quando no segundo dia, fiz uns bicos como garoto de mensagem. Tirei uma bolada daquilo pelo mês corrido. Trezentos e cinqüentas níqueis, dava pra passar a semana, com um pouco de boemia e curtição regrada. Achei um hotel mais barato que o antigo, não me importava mais com o conforto supostamente necessário. Eu tinha barba, só precisava de um espelho pra me laminar. Dez reais a diária do próximo hotel, com privada no quarto, um chuveiro único, no corredor, baratas de refeição entre sono boquiaberto e espelho. Não achei má idéia. Paguei a semana. Sabia que se eu saísse dali me encontrariam. Com certeza Júnior teve de mentir um bocado pra segurar as pontas por mim. Mas eu tinha dito a ele que não contasse nada do meu sumiço, senão lhe torturariam cruelmente pra descobrirem onde eu estava e ele não saberia dizer. Mas mantive contato com ele por alguns meses. Ele também queria fugir. Disse que tava com um livro pronto e revisado em mãos. Mas que os pais nunca aprovariam. Eu lhe dei o endereço e chegaram os policiais. O maldito estava encarcerado em seu quarto. Seus pais usaram de uma carta que ele estava escrevendo pra mim e enganaram a nós dois. Três dias depois, esperando meu pai pagar a gasolina, uma mulher charmosa parou com seu conversível bem rente aos meus pés. Ali começava o perigo. Faltavam três dias pra eu completar dezoito anos. Subi exasperado naquele banco de couro e fomos até minha casa. Entrei no quarto, juntei o essencial e os documentos. “Demorei porque telefonei a um amigo que vai conosco”, disse pra Larissa, esse era o nome da loira. Ela concordou. Na verdade, Júnior a conhecera numa festa e tinha dado a idéia. Eles já tinham combinado tudo, era uma surpresa e, puta merda, que vagabunda era aquela maluca. Ele já deixara tudo pronto. Sua mãe o viu sair e correu descalça com bobs na cabeça e creme facial e com toda sua bizarrice podre.

Júnior tinha mesmo seus textos compilados numa grande e frenética passagem única. Quando estávamos a dois estados distantes do nosso, ao sul, consegui terminar de ler a coisa toda. Maravilhoso. Instalamo-nos em um hotel, um pouco melhor que o último onde estive. Arranjei emprego numa lanchonete e ele tinha boa economia. Larissa era viúva e ganhava pensão do falecido. Estávamos bem. Saíamos quase toda noite, senão juntos, pelo menos eu saia, sozinho. Acabava muitas vezes no botequim Amarelo, onde o dono e proprietário e balconista e atendente tocava violão ou teclado, dependia da vontade, e comia todas as clientes, novas ou antigas, nem os travecos ele deixava na mão. “O fanfarrão”, o alcunhalei.

Fui envelhecendo, com uma grana juntada, entre nós três, abrimos uma adega. Júnior ficava na administração, Larissa manjava o atendimento e eu fiquei com a degustação dos melhores sabores, afinal, experimentava cada um toda semana lá em casa. Hoje deu no que deu depois de uma festa em que comemorávamos a morte do passado.

3 Comments:

At sex. mar. 16, 04:33:00 PM, Blogger Guilherme N. M. Muzulon said...

Esse cara é grande.

 
At sex. mar. 16, 04:36:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

 
At sex. mar. 16, 04:39:00 PM, Anonymous Anônimo said...

te dizer, cabra, grande é o filho desse nego aí, grande é o buraco do ego louco dele, mas grande mesmo são as bolitas de haxixe que ele trás de pedro juan.

 

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