Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

terça-feira, março 13, 2007

"Acordo de seis tranças a balançar", por Guilherme Nogueira.

Reuniram-se os amigos no tugúrio abandonado. Quando chegaram estavam exaustos. A trilha fora demasiado longa. Tiveram que dar passos surdos e secos na floresta e tugir calmamente, pois se encontravam altamente embriagados. De instante em instante, já na pequena cabana, os bichos noturnos ao redor só ouviam incompreensíveis especialidades lançadas ao lixo e esmagadas pelo tempo. Roberto cingiu uma mesa velha com seus braços enervados e a trouxe para o centro do cômodo. Havia muitas baratas e lesmas escapulindo pelas brechas dum taco e outro do chão. A noite escutava ora truculentos, ora prazerosos tropos. Todos prenhes de alucinação na eterna disputa do mundo das idéias e das coisas tangíveis. “Aceitam um voltarete”, perguntou a silhueta negra de um dos camaradas. “Janete joga conosco, não é, dama da noite?”. Claro, respondeu-lhes a moça do maior decote e coxas firmes e carnudas. Prontamente os seis, cada qual a frente do parceiro, colocaram sobre o móvel as cartas de baralho. De sonoridade distante e vaga vinham murmurinhos desatentos. Julia tricotava conversa boa e fiada com o amante, Alfredo Bolonha, mais carismático do grupo daqueles saltimbancos. Ele empurrava pra lá e para acolá a mulher no balanço de criança e lhe dava atenção merecida, com entonações roucas e figuras de linguagem espaçosa.
- Pra tudo há sacrifício – afirmou a moça.
- É.
- Senta aqui no meu colo, seu chato.
- Iupí!
- Sabe o que fazemos quando estamos sozinhos detrás de uma casa abandonada?
- Deixe de truísmo, colher de sopa, vou de beiço macio e tudo.
- Uia.
Ademar cismara com os livros empoleirados das prateleiras. “Quem é tolo e tão louco assim de abandonar tais obras classudas assim?” Uma capa grossa lhe atraiu. Disse: “Amor, venha aqui me ajudar numa boa causa!”. Tinha, encantado, nas mãos um exemplar de técnicas tântricas e tudo se encontrava em movimento atrás de si enquanto analisava o colofão do impresso.