Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

"Rainha dos coxos", por Guilherme Nogueira.

Pus no cotovelo esquerdo. Merreca de berruga estourada. Brilho forte no capim seco de sábado. Ela queria tanto que fosse domingo, como nos últimos domingos em que ficaram juntos protelando o fim da felicidade, Juan e ela, fazendo ventania contra o trajeto que a borboleta faria embora. Rosto delicado, sutilmente enrugado pelo sorriso de alvos dentes. O vestido florido costurado por mãos de princesa entre nuances de azul e amarelo num fundo branco igualmente como as nuvens daquele céu anil.
Não tinha nome. Conheciam-na por duvidosamente Ela, a ruiva dos olhos azuis escuros. Bela, tão bela quanto vista de um jardim de girassóis no auge da primavera. Doce, tão doce quanto o néctar dos deuses sorvido por lábios de Baco. Assassina, assassina o suficiente para elidir qualquer remanescente quadro terrível daquela nédia testa que reluz maravilhosa e cintilante ao dia caridoso.
Juan, Josué, Pablo, Velázquez, Carlitos, Marcus, González. Mortos. Enterrados corpo a corpo. Assassinados com seus corações falidos. Assim a ruiva bailava garbosa ao silvo dos manchos eólicos remexendo quantos eucaliptos ali havia no campo do desassossego, sobre o matagal, nutrindo-se da carne fétida daqueles melancólicos acolhidos, embebendo-se do sangue tinto dos pobres coitados coxos. Ela, a ruiva, rainha dos tortos, valsava ao cair da noite, ao fim do dia, sob crepúsculo tardio de verão, sorrindo com sua esplendorosa fúria levada pelas marés do vendaval.

2 Comments:

At qui. mar. 01, 12:41:00 AM, Anonymous Anônimo said...

o perigo da beleza.

 
At qui. mar. 01, 08:34:00 AM, Anonymous Anônimo said...

dessa beleza estamos saturados.
mande chuva, dio cane!

 

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