"Cabeças ocas, cabeças chatas", por Guilherme Nogueira.
Tomavam chá, mãe e filha, e o sol se punha lentamente ao horizonte. Era horário de verão e de acordo com o relógio o homem já deveria ter chegado, embora ninguém houvesse tomado conta do atraso. Dois pipocos. Um encontrão e quase nada a ser dito. Baldo encostou a barba de uma semana no peito de Lila. Sorveu-a numa frenética, brilhante, molhada, gostosa, fantástica lambida. O espelho ecoava com sincronia frouxos gemidos que a amante escapava. A lua Já se apresentava quase viva no céu ainda claro, num entardecer bem mais suave de quando antes apenas o sol reinava. A filha do pai dava sintomas púberes e a mãe, risonha e irônica por dentro, acalentava os dedinhos da prole. Baldo esparramava gozo pelas quatro paredes e Lila venerava o momento o idolatrando como a um touro supremo naquele quarto vermelho. Alguns pedaços do papel de parede estavam corroídos. Provavelmente ratos. De certa forma, os mesmos ratos que carcomiam os postigos e descascavam aqueles cantos das paredes de alguns cômodos da casa dele, sujando com terra por onde fossem que tivessem passado. O dinheiro ele tinha na carteira. O dinheiro não passaria do portão e aquilo seria apenas a metade de tudo, sobra do quinhão que a moça sorrateira levaria.
A mãe, Jânia, se levanta pra receber avó materna da filha, Câncera. Com desdém desgostoso a filha, morena alta de cabelos compridos e lisos, negros, duas bolas de gude na cara e um sorriso promíscuo lançado ao vento. Com desdém e pouca flexibilidade ela fez o mesmo ao ver sua avó e então as três tomaram cada uma sua cadeira predileta. Mãe de Clara, a jovem morena de nádegas recheadas, enche uma xícara para Câncera.
Filho de Jacó, o mais depravado conhecido rodado pelas bandas da cidade quente, cidade dos molambos vivos, se deleita mais um pouco, deveras bem acomodado entre as pernas da afamada amante na rua das donzelas roxas. Lila mal espera pelo pagamento que sugere tão meiga ao ouvido do velho para que seja, no mínimo, generoso. Espera a ponto de lembranças abomináveis da época de inexperiência profissional e futilidades vergonhosas quase simplesmente a dominarem. Mas Lila suporta e doa-se outra vez àquela cabeça que revive numa sensível alteração de cheiro feminino jogado pro ar. Ela pinta aquele verme que mais parecia um verme morto e o faz de tal forma para ganhar tempo. Sim, esse verme morrerá em seguida para depois não conseguir levantar-se, de vez! “Lila, Lila, minha doce, querida fragrância de meninice, linda. Queira-me doar sua alegria, Lila, La i a la i a, Lila, Lila!”, articulava Baldo homem velho doente do coração e com herança definida para o marido inexistente da filha, ao futuro marido que ela deveria ter.
Qual barulho grotesco de sola dura, emborrachada, chutando o chão fez o gato saltar a cadeira a cortina. Jânia se encontrava livre da filha, sua rosa negra de tantas outras vermelhas que a cidade cultivava, a querida menina dos olhos de gude. A avó, coitada, ah!, a avó, desmaiara logo em seguida da primeira frase que a fez pensar um bocado, fez também fundir-lhe a cachopa. Clara, a filha, saiu sem deixar vestígios esperançosos de volta. Ela, morena alta, mulher formada agora, soube de tantos privilégios que logo quis aproveitá-los, experimentá-los, consumir seus poderes carnais. Tinha ela boa educação e prezava manter sua característica inteligente de curiosa aluna da vida sobretudo. A mãe, Jânia, estava sendo engolida dentro de seu próprio quarto por um rapaz boca fraca, magricela, que tinha meia parcela de sua idade. Tudo isso no próprio quarto em que, provavelmente, deitaria e esperaria o marido chegar para, enfim, enrolarem-se sob o mesmo edredom macio e darem-se as bundas moles um para o outro.

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