"Apenas um do casal", por i.bê gomes.
Saudade é a carta fechada de alguém que já se foi, mordida no mamilo com direito a mertiolate e sopro lascivo. É a foto não tirada, o filme borrado, o ósculo não roubado por medo da prisão.
Estive caindo, perdendo tatuagens na queda. Guardei algumas embaixo das unhas, com sangue, carne, pus e um pouco de dor. É claro que os anzóis em meus lábios desmentiam qualquer segurança que eu insistia em exibir. Eu era o espinho a furar os pés incautos que sangravam incúria e um pouco de zelo pelas imagens alheias. Eu desafiava a gravidade daquela situação casual. A vida a dous às vezes é complicada. Não podia eu adivinhar que nossas melodias fossem tão fora do Tom, tão Cartola e Chico com voz nasal. Fomos poesia, ninguém nega. Mas há tempos éramos páginas amarelas, cheios de comerciais e canções bregas, versos ruins em inglês detestável. Perdermos o rumo, confesso.
Eu assobiava melodias populares para instigar a tua memória antiga, para irritar o teu clichê-cult-contemporâneo que se esconde das capas das revistas. Nossos domingos eram recheados de risadas e daquela fumaça inebriante, relaxante. E eu me sentia tão bem quando caías ébria em meu colo, sempre pedindo um pouco mais, sempre com um riso malicioso para me encabular. Era bonito te ver vomitando letras, chamando nomes e criando eufemias com palavrões novos. A nossa fé crescia de tal maneira que éramos obrigados a pecar para não sermos engolidos pela santíssima trindade manca - a mesma que nos servia de encalço para os nossos medos e frustrações. Lembro que batíamos palma para todo e qualquer milagre chinfrim que nos ofereciam. Sempre exagerávamos no vinho e na vodca e no absinto. O ópio era apenas para podermos ilustrar as paredes do quarto do filho nosso que não veio.
A confluência dos meus pensamentos ultrapassou as fronteiras, as cercas que havíamos estipulado. Filho era tabu e casamento, maldição mal resolvida. As nossas raízes não deveriam ser presas, e bem sabíamos disso. Talvez por isso aceitaste tão bem as giletes enferrujadas que te dei, e dissimulaste aquela alegria pré-moldada que costumávamos usar nas festas dos amigos com filhos. Era gostoso mentir e se sentir anestesiado pela verdade que é só sua e de mais ninguém, sem aqueles maneirismos que a high society insiste em ostentar. Éramos dous drogados de cabelos soltos e com algumas tatuagens sob a roupa engomada, dous Jesus esperando por cegos e aleijados para realizar os milagres que só uma pílula ou um tiro pode fazer.
A minha queda era alimentada por esperanças baratas, confusas e mal definidas. Meus olhos estavam em chamas quando eu ouvi a resposta absurda. As drogas não mais surtiam efeito, não mais me deixavam perambular pelo deserto das alucinações verdes e anódinas. Eu só me lembrava dos teus joelhos tatuados com as feridas de quedas sentimentais, de choros abafados e de dedos no meu rosto, de unhas na minha carne gangrenada. Era sentimento demais para um quadro feito a mão, com água, guache e sal. Era tinta demais para aquela imagem antiga, em branco e preto eternizada.
Eu tateava o ar inutilmente, como se em algum momento fosse encontrar a tua mão ou teus cabelos. E tudo era em câmera lenta. Parecia que eu estava ébrio de tanta altura, ébrio por saber que a queda me quebraria os ossos, os pensamentos e as idéias. Eu tinha medo das agulhas, da dor, mas sabia que seria necessário senti-las para me purificar do teu mal, para que eu pudesse caminhar mais uma vez. Isso, porém, nem passava na minha cabeça. Ela estava ficando oca. Eu via meus sonhos saírem pelos meus ouvidos, como sussurros ao contrário: as obscenidades na hora em que me mordiam com a boca de pavor voltavam para tua garganta, e caladas esperariam outro momento para serem gemidas.
Não havia passado sequer dous minutos, e a eternidade já desnudava os seios e o ventre e a vulva cabeluda e o corpo insinuante. E ao lado estava o Senhor com seus ademanes celestiais dirigindo a orquestra de cegos, de crentes burros. Mas eu não queria aquilo para mim, e no fundo do meu corpo, na beira do meu ânus intelectual, eu sabia que aquele Senhor estava acenando para mim. Ele sabia que estava caindo e que tinha medo da queda. Contudo, nada me faria aceitar a benção Dele. Eu estava decidido a cair, a me quebrar em pedaços muitos: virar um mosaico desgraçado, retalhos de uma concha de lembranças suja já.
Ignorando as palavras e os pedidos divinos, tirei do bolso o resto de lápis que usei para escrever a derradeira missiva a ti. Num movimento lento e incolor, comecei a escrever no meu antebraço esquerdo, em letras de forma, as lembranças mais bonitas que passamos juntos. Dei atenção especial aos dias drogados e aos bêbados momentos de sexo e orgias com vizinhos pedófilos. O braço sangrava para cima, como um sacrifício ao divino que me chamava. Fui espalhando as letras para o resto do corpo, rasgando a roupa branca que havias tu estendido no varal e esqueceste de apanhar. Passei por cima das tatuagens já ruças, dos restos de tinta alheia. Eu chorava em silêncio por não ter ninguém sensível o suficiente para fotografar aquele sofrimento venal, aquele choro de novela. Eu sabia fingir, confesso. Mas como deixei de ser poesia – na verdade, deixamos nós -, uma ou outra brecha surgia para denunciar o meu charlatanismo. Mas a platéia de anjos e santos me entendia bem.
Eu já ia longe do Senhor, perto do chão, quando fechei os olhos com força – temendo a dor inevitável, querendo sofrer menos por não ver o chão me beijar o corpo rubicundo de sangue e grafite. Faltando pouco para eu te esquecer, o tempo parou. Na verdade não sei te explicar se foi o tempo ou outra cousa, mas tudo parou. Assim, de repente, sem menos ou mais ou uma parte qualquer de razão. Parou e ponto. Tudo ao redor estava colorido, mas com um quê de artificialidade, de falsidade industrial. Eu podia me mexer, limpar o sangue do rosto, reforçar um outro traço mal feito pelo movimento da queda. E o fiz, pois não sabia o quanto duraria aquele incômodo momento estático. Só me preocupei ao reparar que aquela distância que me separava do chão era ínfima, e não me feria sequer borrar as letras tortas do meu corpo. Eu não estaria livre do teu sofrimento se caísse assim de tão insignificante altura.
Olhei para cima e vi que o Senhor havia desistido de mim. Ele estava de costa, meio que se justificando para alguém, coçando a barba rala. Eu também já havia adrede desistido Dele, malgrado saber que Ele poderia me ajudar a cair e a sofrer o que eu merecia. Mas não me interessava os meandros de uma fé caduca - ainda mais a minha, alimentada a santos mancos e a milagres duvidosos. Fiquei a esperar a queda, mesmo sabendo que a dor seria pequena. Com o corpo estendido e com as mãos sobre o peito - posição de defunto num caixão inexistente - esperei o momento certo de tão maldita hora. Mas nunca que caí. É certo isso: não mais consegui cair depois disso. Talvez a explicação esteja nas lembranças que insisti em guardar de ti, mescladas a drogas e a excrescências sentimentais. Não interessa, pois não caí. Flutuei na gravidade de uma vida enfadonha, esperando o abismo do teu esquecimento. Mas o que consegui foi pouco, quase nada.
Por isso a saudade lacrada num envelope assaz branco, e também por isso a mordida no mamilo direito com mertiolate e sopro lascivo. A foto não tirada - tu de olhos fechados no momento errado -, o filme maculado pelo sêmen alheio, o ósculo que o tímido hesitou de pedir e que o covarde deixou de roubar: cousas que não cabem nos encartes dos cedês. Mas entope nossa vida em comum - já aos frangalhos. Deixa-me cair, só mais uma vez. Ou me espeta antes que eu voe com uma espécie rara de sofrimento.

2 Comments:
se cuida, hein i.bê.
os homens estão atrás de você.
mas você só cai, cai, fica caiiiindo...
Pois é... Pernas e asas de merda são as que tenho.
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