"Truco dos caiporas alternativos", por Eskobar C. B.
- É que não consigo parar com essa paranóia. Se me vejo lá dentro, como então me ponho fora? O que há?
- Quero saber meu senhor! Você carece de esplendor! Pretendo lhe estudar!
- Entendo amigo, se tu não és bandido, deixo-te me avaliar!
- Vou e vou, por vontade própria! Sórdida estória eu quero sentir, me conte, você está bem ou quer sair?
- Agora eu fico, pois em ti confio! Não logres minhas vestes, teço meu fio. Descobres em qual forma permeia tal razão?
- Já disse, mas repito de coração! Vou contigo e encontrarei a solução! Deite-se, por favor.
- Ilustre doutor, que belo quadro! Tua esposa, filhos, família, que louvor! Diga-me então, sonho ou real?
- Digo-lhe face a face, na moral! Mas antes afirmo: Aqueles são meus avós e meu amor, meu sal! Podemos começar meu senhor?
- Sorte a tua e sim, vamos com isso doutor. Que tempo voa aonde lá fora garoa!
- Você cresce no espelho? Você desaparece ou vira pentelho? Conte-me aquilo que acontece!
- De verdade e sério, eu repito: Não suporto, não agüento, me ajude, eu suplico!
- Francamente, meu bigode freme. Louco não é, percebo, mas por que geme? Sou do bem, não mordo, caro mancebo.
- Sinto pejo e não agüento! Estou aqui fora, mas lá dentro? O espelho é lindo, me devora!
- Agora, portanto, é você ou espelho? O reflexo ou o corpo? Diga-me, já se toca?
- A chuva parou, posso andar embora? Já quero me ir. Onde isto roça?
- Não enrole. Ou saia e tome coça ou fique e se suicide! Não dou paliativo, gosto dos meninos, mas não me critique, nem me repudie.
- Como assim? Estou louco? Nasci louco? Não quero gritar e o que há? Não me toque!
- Sua tez demonstra dor, qual é seu pudor, garoto?
- Vou gritar, ficarei rouco! Não me toque!
- Bons tempos de ancião! Já não temos perdão!
- A porta! Vou sair. És frouxo, sou faquir.
- Tenho barbas brancas. Não me fale asneira que lhe dou bronca! E volte já aqui.
- Rebelde me vê? Achas isto assim? Vou-me...
- Volta que a chave eu engoli e lhe tomo por meu guri. Fique ou lhe arranho e esgano e te amo bem aqui!
- O chão que me prende. Esse chão que me encolhe! Não entende? Sinto medo, estou exposto e sou despojo, te vejo, te rogo: Não, por favor! Beijo-te e imploro: Deixe-me ir, meu senhor! Meu senhor!
- Caem os finos grãos do céu anulado! Sozinho e trancado vou lhe consumir. Pode até berrar, que o faço, de gosto, bramir!
A secretária lia a nova edição da revista semanal que o Dr. Freitas encomendara. Ela marcando os trechos com a unha vermelha, com os olhos azuis e louras madeixas e analfabeta, lia cada letra, toda forma desenhada com certa agonia frívola. O amor pelo messenger assentiu, ela corroborou empolgada e levantou, foi à porta e abriu! Analfabeta! Êxtase! O chão encerado na madrugada por mão desconhecida e febria tramava novamente seu vitorioso aval! Amparava entre quatro paredes surdas o gozo do amante, da perversão, do escritório lacrado e já fossilizado.
O amante sorriu e abraçando-a, todo amado, com gosto e sem pudor sutil ela guardou a aliança e subiu já que em dois braços ele a cobriu afável e ela já o tinha julgado.
Contíguo, sem ouvir sequer um pio, o doutor guardou o anel que de muito ouro brilhava mesmo após o erguer do véu. Freitas balança, desnudo e avança à sombra pequena, daquela criança infeliz. Escorrem náuseas para em ambos os lados apagarem a luz.

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