"A máquina", por Hélio Dantas.
ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. i cor. XIII:1
i
ao contrário do que se imagina nossa província já era bastante desenvolvida quando trouxeram a máquina. por isso poucos notaram a nova coisa. muitos nem a tinham por novidade. somente pessoas como eu que levavam o tempo a observar o que acontecia nos arredores podemos ver sua chegada.
logo de início ela já me despertou certo fascínio. resolvi dedicar-me algumas horas do dia a análise do curioso objeto e conseqüente descrição em meu caderninho de papel amarelado onde anoto minhas conjeturas sobre o que vejo e penso.
a princípio eu era um observador distante e leigo não entendia muita coisa ao ver homens e mulheres operando o negócio. na verdade eu era um admirador da exuberância tanto do reluzente instrumento quanto da desenvoltura de seus operadores mexendo em manivelas botões controles vários. ficava a matutar o interior dela o que haveria lá êmbolos rolamentos cilindros um belo lubrificado potente motor vapores calores óleos força geradora de movimento e energia transformadora.
súbito despertava de meus delírios engrenais e percebia o quanto eu era um sujeito tímido e incapaz de me aproximar dos moços e moças e conversar com eles sobre seu nobre instrumento de trabalho. ficava ali eu sentado de longe ruminando enquanto todos passavam nem imaginavam o quanto eu dava valor praquela máquina o quanto ela me fazia bem mesmo sem ter tocado ela nunca mesmo tendo vivido em outros tempos em que haviam outras máquinas que comparadas a esta não tinham o mesmo brio e altivez!
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hoje notei que meu caderninho está na última página. escrevi tantas coisas sobre a máquina que terei que comprar um novo e um lápis também. poderiam pensar que isso me deixou aborrecido mas não. percebi que não era um desperdício. li e reli o que escrevi. há uma importância no que estou registrando sinto que um dia em breve será necessário trazer a público minhas observações. isso só me faz pensar em o quanto o que eu escrevia era irrelevante banal sem finalidade agora tudo mudou os escritos atuais denotam rigor e um método que embora inusitado se mostra estruturado. dedicarei também algumas horas dos dias na formalização mais acurada disto tudo. realmente minha vida está mudando e ninguém sabe disso!
quem sabe não serão os operadores os primeiros a ler minhas observações sobre ela? por isso preciso organizar bem para escrever então quem sabe um belo texto sobre como a admiro e os que a operam diariamente. acho que se sentirão lisonjeados e surpresos!
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quando vi me assustei: não houve expediente. não era feriado dia santo ou coisa parecida. logo deduzi que deveria haver algum problema com a máquina coisa que me deixou deveras aflito. o que poderia ter acontecido que nem os funcionários vieram?
então chegaram os homens da manutenção. enquanto mexiam na parte inferior eu observava atentamente tentando entender o que se passava. arrepiado eu fiquei quando ouvi aquele poderoso ronco peculiar. voltava a funcionar e logo a desligaram e partiram. acredito que precisava descansar pois trabalhara incansavelmente por longo tempo.
e dessa vez eu fico a refletir o quanto ela se tornou importante para mim. o quanto me angustiei ao imaginar que deixaria de funcionar. era como se fosse um parente meu que estivesse a sofrer numa cama de hospital.
mas aqui em meu caderno não vou negar que vi certa vez um operador esmurrando ela furiosamente até chutes desferiu sobre sua base frontal e me pergunto se não fez isso mais vezes nos poucos momentos em que tiro meus olhos da máquina e isso não gerou este problema de funcionamento. é melhor observar mais este funcionário que se mostra indigno do seu ofício.
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confesso que cheguei a cogitar a possibilidade de interpelar este sujeito e dar uma lição nele. em momentos de verdadeira fúria em noites intranqüilas rolava sobre a cama pensando em matá-lo. porém me contive mas não abandonei a idéia de que algo precisava ser feito. era necessário uma notificação direta com instâncias superiores. resolvi então procurar os donos da máquina.
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não foi sem espanto que através de cuidadosa pesquisa de campo descobri serem os donos da máquina os próprios sujeitos que a operam. isso realmente é algo novo sem precedentes e que não posso negar que mudou muita coisa a respeito de minha visão da máquina. é que na verdade pra mim acabou por parecer que a máquina não tem dono e dediquei noite passada várias páginas a essa intrigante questão.
o que é certo é que essa idéia da máquina sem dono finalmente acendeu-me o desejo de me aproximar dela e vê-la bem de perto quem sabe tocá-la. mas isso de forma nenhuma é um desrespeito de minha parte. se bem que ainda não tenho coragem de pedir aos funcionários para me achegar. terei que fazer isso sorrateiramente quando não houver ninguém lá?
vi
foi mais fácil entrar no recinto onde fica a máquina do que imaginei. também ninguém percebeu minha invasão e estadia agora quase todas as noites horas depois do fim do expediente quando tudo sossega é minha hora de agir.
isso fez um bem danado a minha afetuosa pesquisa e pude de perto fazer várias correções em observações que fiz ao longe e que estavam incorretas.
não ousei tocar a máquina.
pensei em tocar apenas em sua fuselagem externa mas não o fiz.
somente catorze noites depois finalmente a toquei. não apenas por fora confesso aqui mas qualquer lugar em que pude enfiar o dedo olhar por frestas dar pequenas batidas apalpar sem ver tudo isso eu fiz. quando me dei conta que estava indo longe demais parei e abandonei ofegante o local em direção ao meu quarto e pus-me a escrever pelo resto da noite.
dessa noite em diante não voltei mais ao local. me enchi de temor pensando que a própria máquina perceberia meu despudor. também não queria ser flagrado ou que eu pudesse deixar algum rastro ou mesmo danificar alguma peça da máquina com meus dedos curiosos. entretanto nos dias seguintes qualquer nervosismo ou traço de remorso se dissipou pois a máquina funcionava normalmente e os moços pareciam tranqüilos sem notar nada. e o saldo pra mim mostrava-se positivo pois já passava para um terceiro caderninho com vários escritos bem mais acurados.
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não tenho palavras para descrever como me sinto.
isso porque hoje já fazem duas semanas que a máquina praticamente enguiçou e nada de funcionários ou gente da manutenção. estou prostrado pois do fundo de mim escuto a pesada voz da consciência dizendo-me que prevariquei com a máquina e que sou o culpado pela interrupção de suas atividades.
fui exagerado e ultrapassei todos os limites que eu mesmo me impusera e não podia violar. como pude fazer isso vitimando tudo que prezo?
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hoje acordei sobressaltado escutando ao longe um som peculiar. levantei pensando ser a máquina que voltava a funcionar. só que o som era outro mais médio e irritante. ao assumir meu posto de observação vi que haviam agora inúmeras pequenas máquinas circundando a máquina. em cada uma delas um concentrado funcionário. era como se essas pequenas novas estruturas fizessem indiretamente a máquina funcionar. mas como se ela estava paralisada? não ouvia o seu ronco nem nada. isso acabou me irritando sobremaneira ao ver a magnitude da máquina ser submetida a mecanismos medíocres. não devia ser assim!
então finalmente notei uma placa de metal com os seguintes dizeres sobre a grande máquina:
“esta máquina passou a ser muito importante para a cidade toda por desempenhar a função alimentadora de nosso notável sistema de reprodução e não pode parar nunca de funcionar”.
um amargor tomava conta de mim mas eu precisava cumprir meu dever de registrar esse novo panorama em meu caderninho. voei para dentro de casa e com desespero revirei todos os quartos e móveis mas não encontrei sequer minha borracha e meu lápis. “devem ter sido roubados enquanto eu dormia”, foi a última coisa que pensei antes de cair inconsciente no chão morno da sala..

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