"Cento e oitenta graus a céu aberto"*, por Danilo Fochesatto.
Tem dia que a noite é foda. Acordei arrebentado. Dissolvido. Ressaqueado. Com gosto de cabo de guarda chuva na boca, a dor dolorida da amputação. E isso sim era verdadeiro (!), minhas buchas de seda banhadas em esterco de generais no CTI, esse sentimento: a “ressaca do mar”. Decidi, portanto, que deveria ficar mais um dia por aquele lugar. Abandonei o bote e aquela mulher. Sem pressa para zarpar. Guiei Milady a certa distância da costa, próximo aos corais, ancorei e, com dificuldade, carreguei meu divã de tafetá para a proa. Munido de filtro solar, passei o dia desfrutando de minha preciosa carga, matutando no mormaço, intercalando majestosas golfadas entre mergulhos, náuseas, enxaquecas e banhos de sol – quanto a este último, acreditava que pudesse restabelecer-me qual fosse um lendário ébrio elixir de pitonisas. Mas um cliente dos mosquitos gringos e cossacos de Victor Pelevin, eu era. Tinha de fazer algo, hã, mais emocionante, portanto, fiz o que mais gostava de fazer a bordo de Milady: passar o rodo no convés inteiro. Enquanto fazia isso e ingeria barras de cereais em alto teor alcoólico concentrado me lembrei dos livros de História e Geografia do colegial que traziam fotos de elefantes marinhos e de focas sob rochas cobertas de musgos na Geórgia do Sul, mas assim que me lembrei que talvez eu pudesse sofrer de gota, a salvação platônica veio à tona: gin com tônica. Esperei o amanhecer – o que quase fez o prurido, indefinível, atacar-me –, escanhoei-me e já me sentia ligeiramente melhor. Não tinha trejeitos nem volta: dei meia volta e me lancei no retorno para a enseada. Mandei beijos para as algas encantadas e amaldiçoei os corais assassinos. Porém, sentir-se incrivelmente bem é o prelúdio para uma estadia atormentada nalgum ermo lugar subterrâneo.
Ao chegar próximo à costa vi que algumas pessoas praticavam um esporte com uma prancha. Vai ser foda – pensei –, mas vou à luta! Quem não é professor, dá aula. Tinha de praticar meu antigo esporte, portanto. Minha prancha de wakeboard tem uma área pequena e um rocker grande. Sou leve, gosto de velocidade e instabilidade. O piloto levantou a mão, mostrou dois dedos, a mão aberta e, em seguida, três dedos. Estávamos na velocidade ideal: creio que quinze nós (aproximadamente vinte e oito quilômetros por hora). Preparei-me. Consegui equilibrar-me, um bom edge. Peguei a segunda marola, dei um bom pop e mandei um double-up redondo. Talvez graças ao piloto que também era bom, eu estava ficando ainda melhor nisso. Estava gostando um pouco disso. Poderia praticar mais vezes esse esporte enquanto não estava apto a mergulhar novamente. Gravidade é uma merda. Já conhecia o medicamento que adquirira: paliativo. A nociva narcose certamente me atacaria após uma noitada como a de ontem – ou como todas as outras noites quando eu precisava da ajuda de algo suficiente para conseguir atravessá-la – combinada com esse tipo de não-droga ineficaz, a novocaína. Levantei o dedo indicador da mão esquerda para o piloto. Sinalizei mais uma volta. Não me encurvei demais no edge, queria que a marola fosse grande. Pop com um poke suave, e, durante o tantrum emendei um slob quase no jeito. Estava bom para terminar o dia. Acenei para o piloto, o que também quis dizer “aqui ó prá você que eu não vou para um bar engolir uma tulipa”. Ele diminuiu. Eu afundei. Senti a fisgada da câimbra primeiro na batata e, em seguida, subindo para a coxa, pudera: era o fim da sessão descarrego, felizmente. Um boteco qualquer seria meu próximo destino. Aliás, esse deveria ser não só o meu, mas o sujo destino de toda a humanidade, uivando como lesmas no outono das flores desabrochando, urrando injúrias incompreensíveis e ternas, primeiro vivendo, depois filosofando. Para mim, a verdadeira grande esperança do dia, seja no início ou no intermédio. E por fim: a salvação platônica! – dessa vez a batizei assim. Segui alguns hipsters mascando pretzels gosmentos, ruminando devaneios, e entramos numa espelunca retrô chamada Sir Rectum. A chamei de Casa do Caralho, Deus sabe lá o porquê de tal associação devassa. Ao atravessar a porteira (isso mesmo, uma ruidosa porteira endiabrada e rabugenta) ouvi gritos escandalosos anunciando uma piada inédita.
– Eu não merecia estar aqui nessa desgraça!
Aquela parecia uma mafiosa tristonha (emprestando o termo recorrente nos recônditos bares sombrios do vasto império negro) tendo um colapso – mental – fictício, porém, se soltasse aquele copo certamente se espatifaria nos rochedos recortados permeando aquele estabelecimento diurno.
– Teu sustento – alertei, apontando a ponta do nariz para o copo que mais parecia uma tupperware desgastada.
– Pois é, eu sei, otário...
Ajustei a gola de minha camisa pólo, envergonhado.
– Bye bye bonitão...
Ela soltou o copo e, em insípido fade away, caiu no chão antes mesmo dele. Sumiu. Pisquei. Desapareceu! Dissipou-se numa fumaça ninja pré-fabricada. Foi pro além, um caracol d’aquém... Truquezinho razoável para uma desgraçada como ela, conclui. Limpei os lábios na manga da camisa pólo e continuei a decidida descida para o fundo da vida.
– Aí, garçonete, me dê uma dose reforçada do mesmo que ela bebia – depois espirrei, e quando espirrava sentia um peculiar gosto de mel e limão no nariz.
A atendente o fez sem hesitar, trazendo um sorriso ambíguo na cara em companhia daquele bodoque de deitar o guarda e os patrocinadores da guarda costeira. De brinde trouxe-me também um cigarrinho mentolado. Uma box contendo uma unidade. Novidade para mim. Com esmero retirei essa unidade da box, batendo-a na palma da mão até o cigarro se destacar do papel laminado e expor-se, apetitoso. O apanhei com os lábios sobressaltados de ternura fatigada. A atendente rapidamente pôs fogo na bombinha venenosa. Nem percebi quando ela aparecera com o isqueiro. Satisfeito, traguei profundamente. Despejei a fumaça pelo canto da boca que já quis mais coisas do que a uma dose de pinga fermentada triplamente filtrada armazenada em tonéis de carvalho artificialmente envelhecido e uma feroz noite insone carregada de perfume vil e delírios festivos.
Sucede que o prurido, de assalto, estuprou-me como quem mastiga tiras de seda a milanesa e mantêm o prejuízo em haver simplesmente por não conhecer o desconhecido pregoeiro e todo esse papo furado que se desenrola a partir disso e continua a lhe açoitar, por fetiche, por cinismo, a esmo.
– Estou sem juízo – avisei o indivíduo.
– Quá... – refutando-me num quê de burro a lá gíria do morro, o transeunte vagando ao acaso, quer dizer: eu precisava reforçar a mensagem de alerta.
– Pô, bicho! Hoje estou sem juízo.
Ou:
– Estou desajuizado, com a gota – retroativamente insinuando-me.
[Cabe aqui uma curta pausa meditativa para o autor]
E não me contrariaram em nada, não sei. Não sei se me contrariaram ou não. O que disse, perdi. Perdi as estribeiras. Esqueci. Esqueci tais detalhes sórdidos da farra que compartilharia com vós. Sendo assim, indiferente aos pormenores, darei continuidade a esse relato guiando-me por resquícios remanescentes. Algum alerta concebi. Reconheço que verti cálices e mais cálices verti, álcool por quilo vindo de balde. Vertigem. Enjôo. E mais cálices desconcertantes para o povo. Lábios movendo-se sem esforço, involuntários. Lábios leporinos mordendo-se. Pedaços de palavras cavando um fosso entre duas coisas, fosso entre até cento e oitenta bolas dentro do escroto a céu aberto e as pessoas vendidas abaixo das nuvens de nitrogênio. Pegadas, pisadas em falso. Sensação de queda, frio na espinha. Pegada, pisada consistente. Braços soltos, omoplata dilatado. Retiram-se os cabelos dos olhos que coçam, que distorcem, que maquiam as paredes escoradas em tuas costas.
Da mesma forma que a mafiosa desdentada, adentrei o mundo copal. Encontrei Dantas perambulando por lá, caçando árvores de pão integral seguido por uma manada de zebras de pele xadrez. Ele usava roupas de ir ao médico e cara de quem vai ao dentista fazer exame oftálmico em 07 de setembro. As vielas pelas quais trafegávamos retorciam de desdém. Intuí que nossos pés as denegriam. As paredes derretiam. Aquele era um sujeito que emanava naturalmente uma enxurrada explosiva de conjecturas, observações, postulados e corolários vulgarmente conhecidos como Leis de Murphy. Entretanto, o conteúdo profano que proferia era totalmente de sua autoria e, para compreensão dos demais ignaros, eram ditados como adágios suntuosos para um guia prático de auto-estrada que intuía o desenvolvimento das boas maneiras no manuseio da auto-ajuda inaplicável. Pressenti tudo isso e muito mais que não consigo descrever apenas observando-o. Não dizíamos nada. Ficamos parados balançando as cabeças para cima e para baixo, sorrindo maliciosamente. Eu era acostumado com o macabro falatório pentecostal, com o inconveniente de conversas convulsivas. Aquele explicação silenciosa perturbadora estava me saindo uma dispendiosa “bad trip”. Quando Dantas levou a mão ao maxilar, aquiesci reclamando que também precisava de um tratamento doloroso.
– Reah! – retrucou-me.
Konec.
Divaguei demais. Ao restabelecer-me havia esquecido as intempéries sobre as quais divaguei demais. E isso é uma porcaria quando acontece.
O exterior não rodopiava, no entanto. Comentavam, os leigos doutorandos, sobre uma realidade que girava. Insisto que o exterior não rodopiava. Firme, permaneci. Desfragmentado, recompus-me. O copo jazia em minha mão: seu líquido esquentara. Mantive a cabeça baixa e as entranhas reviradas, gozando da destituição total mediante contentamento irreal. Incursão a extrema vacuidade do...
– Oi, Yacht! – chamou-me num gemido em voz alta sem precedentes, mas especial.
Ela tinha cara de quem não sabia distinguir a diferença de preços entre um pacote de pilhas e uma lata de óleo vegetal. Não que eu saiba detalhes logísticos sobre esses valores ou que isso faça alguma secreta diferença para mim, mas dane-se ela.
– Não tenho nada para recitar-lhe, madame – revolvia-se em minhas retinas dobradiças um céu de brigadeiro camuflado – Cai fora!
Arremessou uma bagana na minha cabeça. Debaixo das pálpebras, aquele pedaço de filtro parecia um pássaro oblíquo cruzando, indiferente, no mesmo camuflado céu de brigadeiro de antes. Virei-me para o outro lado, encontrando ali, nas alturas sagradas, um subterfúgio endossado por uma longa saia arrastada no chão (adereço qual não me fizera atinar para o ridículo que seguramente me exporia e, em contrapartida, não expondo suas pernas peludas) e um pedaço de calcinha jeans aparecendo. Essa outra figura tinha os cabelos mais melancólicos do que os de Veruska, do que os de uma santa ascética. Assim sendo, rezei o Credo uma única vez e emendei com três fervorosas Salve Rainha. Improvisei à vontade, a partir daí.
Pai nosso, que estais nos céus, levantai a saia dessa virgem moça assim como o...
– Oi.
– Hm – pronunciei-me, animoso ao meu estilo, meu gin com tônica não tardaria a chegar – Como você se chama? – e ainda quis ser normal, ao invés de lacônico como de costume: afinal, uma palavra que nunca teve espaço em meu vocabulário é convencional.
– Sino.
– Sino... Sei... – sabia é que não havia como ser normal com uma pessoa que tem uma merda de nome quando se está esperando loucamente com a boca seca por um drink ornamental flamejante e têm-se os pés latejando e as unhas dos dedos carcomidas pela ansiedade.
– Sabe sim, tudo bem-bem-bem! Eu sou sensível, toco teclado. Em dia de sol, tomo sorvete e chá gelado. Mas quando chove, ouço música e meu pai sente-se ababelado – e parou para roer a unha.
– Eu nunca bebo chá, nunca fico doente, por isso nunca bebo... E eu nunca rimo. – ela também não merecia saber a verdade, ao menos a minha pseudoverdade.
– Mas chá é bom, Yachtsman, mesmo sem estar doente... Experimente chá de morango – sugeriu-me, transparecendo assim seu quê expansivo – Só que agora bebo esse iogurte aqui.
– Sei... – desgraça! Iogurte? Com quem e onde diabos eu fora me meter – Bons olhos a vejam, Sino. O que é feito de Vossa Senhoria Delícia? Mesmo em dia de missa você não toca, Sino? – retomando o foco principal.
– Eu vou pra missa e depois toco teclado, tomo sorvete e...
– E por que você nunca toca, Sino? É sua sina, Sino?
– Não! Eu não toco, porque não toco!
– Sua sina, Sino, soa sinistra, sim senhora!
– Pare com isso, da agonia! Unft! Você é pretensioso.
– Bom, mas vago... Mas eu nunca rimo.
– O quê?
– Dizer que alguém é pretensioso é o mesmo que dizer: você é uma bola.
– O quê?
– Você é uma bola! Bom, mas também é vago. Oras, bola do quê? Bola de boliche, bola de sinuca, bola de boleta, bola de haxixe, bola de gude...
– O quê é bola de gude?
– Burquinha.
– Nhã?
– Puta! – nem sinal de meu drink – Deixe de timidez.
– O quê?
– Olha, vou ser franco contigo. Vamos pro meu barco, deitar debaixo das cobertas cheirosas e fazer um sexo brutal noite adentro? Quero encostar meu membro em tua língua e desejo que você não raspe os dentes nele. Será que...
– Seu nome está nos jornais, moço?
– Não creio que esteja – como disse, ela não merecia a verdade, uma vez que nem eu tinha total conhecimento dela.
– Bobo! Todos lhe conhecem, você está nos jornais – apontando com o indicador para que eu me virasse. O fiz, e, então, deparei com minha figura estampada nos jornais expostos à venda: era deplorável, uma infâmia! Tudo que não queria acreditar. Veruska, aquela surucucu, realmente colocara meu rabo murcho a prêmio! – És procurado, baby. Deves ter subestimado alguém...
– Porra! Traga-me três doses! Por favor... – e, finalmente, ao ver meu rosto pálido como sombra de nuvem, o garçom canalha o fez rapidamente.
– Estás em “bocas de Matildes”, meu Capitão.
– Boatos sem fundamentos – afirmei-lhe.
– Sem fundamentos? – ó, meus cabos adormecidos, animal algum merece uma fêmea surda e/ou deficiente, e de intelecto lamentável, que repete o que você brada nos momentos de irritação torpe – Então, porque eu deveria aceitar um pedido teu? – deu outra pausa para roer a unha e prosseguiu – Venha Viver de Verdade! – dando ênfase na pronúncia dos vês.
– Cocota! – sequei o primeiro – Dobre, Sino, com fúria, com sua longa e afiada língua desagradável de puxar. Toque, repique, estronde, sufoque...
– O quê?
– Vamos, vamos logo – fiz menção em agarrá-la pelo braço, enquanto secava a segunda dose numa só talagada – Você é minha, e boi não lambe. Pois se lamber, corto o rabo.
– Toque em mim que faço um escândalo! – parei por um momento e observei o tilintar dos cubos de coco em gelo dentro dos copos de cristal adiante: dois vazios e um cheio. Tocar nela? Como assim tocar nela se era ela o Sino que toca o prelúdio?
– Cocota! É o que você é! – roguei-lhe, movimentando os cubos de gelo com o indicador, fazendo um redemoinho proporcional – Você não passa de uma Cocota! – sequei o terceiro copo e avancei, na cobiça intuitiva de habitar seu antro cavernoso de feminilidade infértil – És crente? Una pelota!
A puxei por um dos braços, e isso, acreditem, o fiz bem, pois, já acumulara, de outros tempos, em anos de exílio latifundiário, experiência suficiente para lidar com mulas mancas, não mais que xucras. Como ela gritava! Como esperneava! Fez o escândalo. Como disse: o show dela – especialmente para mim, porém. Gostei, gostei muito. Exceto da parte em que fui convidado por dois brutamontes a me retirar do recinto. Não estava em meus planos uma interação do público no show. Neguei o pedido deles, e os suínos trogloditas usaram a visível força bruta. Como eu queria ser grande. Não teria perdido minha vaga no time da escola na época do ginásio e jogaria futebol solando todo mundo.
– Não vá se perder por aí – badalou o sino hediondo, digo, condenou-me aquela puta tropicalista, dengo do ziriguidum, e seus trastes taverneiros, capazes de debocharem pelas costas somente – E tome cuidado com Fred Kruger e Odete Roitman. Eles ainda te visitarão em sonhos...
De relance, quando Sino fugia debaixo das asas de seus convivas, percebi a densa floresta (sic) existente em suas pernas. Nada se comparara a um par de pernas corredias e sem aspereza, como corcunda de arraia. Pensei em festejar o acaso.
– Sai fora pudim de cachaça! – ordenando-me algo mui mister e petulante, resmungando com vozes anasaladas outros desejos atrozes da época maternal, os antiquados capangas: jejê-nagôs evangélicos. Desisti de agradecer o acaso.
* - Fragmento extraído da Viagem Cinco deste texto.

8 Comments:
Aonde encontro todas as viagens em estado completo, sem tá fragmentada?
''Tem dia que a noite é foda'' fmsdndsjnfjksdfnjksdbfksbdf
Dias sim, dias não. Eu acho que eu já to meio fora de moda.
quando eu crescer quero escrever que nem você.
Clarissa.
artur é o temer . e o negócio das camisetas. seu celular parou. as estampas estão prontas . ligue no meu telefone.
a parada é a seguinte, temer. celular do doidão pulou e teu fone foi junto. passa o número aqui que eu repasso pro arthur. já é?
temer, aqui é o arthur. se vc ficar preocupado em passar seu telefone aqui publicamente pode mandar no meu e-mail: arthur.bruno@gmail.com
é mais seguro, você sabe como é, né? afinal, não temos pseudônimos.
Eu estou contigo pra que temer se estás cansado e te dou poder, pra caminhar pra se erguer para dizer sou vencedor, não tem barreiras que possa impedir, quando estou na frente o mal tem que sair eu sou seu deus, eu te escolhi, vem servo meu estou aqui
Postar um comentário
<< Home