"Vizinhos", por Hélio Dantas.
um exemplo de como a vida pode ser uma monótona repetição de fatos sem importância.
nesta vizinhança que não chega a ser estranha mas não é nenhum exemplo para nossas crianças temos um senhor. seu nome é j. b. parece ser uma pessoa normal apesar das roupas da estação passada que usa e de alguns hábitos alimentares que já notei serem bastante bizarros mas não falarei deles aqui. esse homem faz coisas que poucos sabem mas registro para que um dia reconheçam que sempre soube de tudo. j. b. sobre o pretexto de fazer cultos religiosos em sua casa atrai velhinhas beatas e as afoga numa tina. esse psicopata desgraçado acredita que está batizando as velhas e as ressuscitando para uma nova vida de não sei o quê. o pior que quem vê o sujeito na rua o acha uma pessoa adorável. os vizinhos dele j. e m. sempre o convidam para almoçar embora ele nunca aceite. m. está grávida e o j. b. todo dia passa em frente da casa deles e faz elogios a m. conversa com o bebê ainda na barriga da mãe e fala que o menino terá futuro promissor. palavras vazias porque esse casal não tem nem onde cair morto e todo mundo sabe que j. é o maior corno do bairro. parece que esse filho que m. vai ter é de um bebum muito do safado da rua de cima chamado d. sei disso porque sempre o vejo embriagado e jogado na rua cantando suas proezas pra quem quiser ouvir.
não me considero melhor que ninguém. simplesmente cumpro meus deveres de bom cristão. até imagino o reverendo elogiando-me e me abençoando depois que lhe falar sobre meus vizinhos no domingo.
"judas, você é um instrumento de deus para purgar o mundo de suas pecaminosas máculas".
talvez queira até me pagar por isso mas não aceitarei. não aceitarei.

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