Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

quinta-feira, outubro 05, 2006

"Cento e oitenta graus a céu aberto"*, por Danilo Fochesatto.

Após secar todos os drinks possíveis, fui abordado por um homem fugaz. Acreditava que fosse o meu homem: Dantas. Quando atinei, ele, A Voz do dial, já estava de costas para mim: o alado Dantas, alisando as asas enferrujadas. Uma multidão energética o cercava. Prendiam suas asas com presilhas de açúcar lactado. E, admitindo veemência, acreditava que era meu homem, aquele veloz ser transitório. Fui impedido de me aproximar. Afastei-me um pouco do tumulto para ir colher frutas verdolengas das raízes dos edifícios. Estiquei o bordejo até àquele lavabo, sozinho. Um anúncio na entrada dizia que o "desconfortável pernoite" ficava em "um dinheiro", ali dentro. Tinha o pênis entre os dedos, jazido em minha castigada palma de velejador, quando um jovem negro entrou e atirou uma long neck vazia no cesto do lixo. O pedaço de vidro moldado rodopiou em volta de toda a extensão do aro do cesto, para espatifar-se no piso. Acendi um fósforo para eliminar o odor acre de merda.
– Ops! Acho que errei, jogador. E você, joga na onde, jogador? Em que time? Já vestiu a amarelinha? Qual é? – cuspiu o atrevido dente-de-leite em tom de intimidação futebolística e peito estufado e pernas forçadamente cambetas: características básicas e marcantes dos chamados boleros empertigados – Viste M. Stipe desfilando seu par de asas recauchutadas? Cá entre nós. Há algo de podre no reino da Dinamarca.
O que mais poderia o Yachtsman aqui fazer além de prazerosamente apertar a próprias bolas de pêlo e gritar até os tímpanos do cara ao lado estourar?
[...]
Descaradamente, ao voltar para a festa, furtei o par de asas melindrosas de M. Stipe – o bunda-mole da arca caída atacado de tremedeiras com mãos erguidas à altura um pouco acima da cabeça sem cabelos. O falso Dantas esbugalhou os olhos além das órbitas, abrindo a boca até o sininho da goela repicar um jingle gutural. Assim saí, batendo asas, adestrando a vertigem. Atravessei, vacilando, toda a cidade litorânea subindo e descendo rapidamente como um foguete espacial de brinquedo quebrado e sem aerodinâmica. E parei quando encontrei uma bela moça sensual não-inflável em seu vestido translúcido, montada – dominante! – em sua doce motocicleta-bebê. Engolíamos um ao outro, de dentro para fora. Lambendo meus dedos das mãos engraxadas e deslizando seus dedos das mãos suaves pela estrutura metálica corrosiva das asas, disse-me ela, saliente, ao cruzarmos um objeto estacionado na beira da estrada, que "aquele transatlântico conversível lotado planejava algo engenhoso e notável": um assalto – no termo mais farmacêutico possível. Sentindo-me no dever de exercer minhas funções heróicas (?) recém adquiridas, a beijei em despedida, e aguardei que eles fugissem a toda velocidade do recinto atacado para que pudesse abordá-los. Saltei, de um impulso só, da moto em movimento e com desengonçados bater de asas estava em cima deles. Aconchegantemente minha sombra os cobria, e isso eu bem entendia... Porque ali estava um dos infinitos multiversos existentes dentro de cada carro desgovernado manipulado por camaradas lunáticos.
(Batendo nas paredes neuróticas de meu crânio, estava outro conjunto de palavras ditas pela sanguessuga chupa-chupa motoqueira: "Ainda havia pássaros construindo e moldando estranhos ninhos de palha por entre as brechas das telhas de cerâmica cor-de-barro queimado, ao ponto. Suas sombras assustavam até mesmo os pintinhos genocidas copulando com zangões de adesivos de chicletes. Fugíamos das galinhas que bicavam nossas canelas cabeludas e as machucavam, formando gangrenas, depois de estouradas as bolhas de inchaço de humor humano. Abríamos a boca para engolir o mel azedo dos zangões em saboroso coito contido.")
Mas para assustá-los, aqueles bandidos suculentos, meus caros urubus medrosos, já tinha minhas outras armas, ah sim isso eu lá bem tinha. Empunhei duas pistolas de borrachas e atirei-lhes água suficiente para inundar aquela banheira de quatro rodas. Pararam. Desci-lhes o braço e as asas, portanto. Não do número de rodas, mas um dos quatro era demasiado forte até para um tipo parrudo como o experiente marujo aqui. Entre socos e pontapés nós nos conhecíamos muito bem. Éramos companheiros de outras viagens pendurados nas traseiras de ônibus e beirões em caminhões de gás de jabuticaba. Assim rodávamos a cidade naquela época em que não tínhamos asas e quatro rodas motorizadas e acreditávamos que o fliperama era a única barulhenta salvação. De tal maneira que surgiu um falso acordo embusteiro entre nós. O mísero lucro seria divido para ele e para mim, excluindo, assim, os outros três maluquinhos safadões que jaziam embaixo de seu astuto pé de chumbo e minha escamosa barbatana de peixe alado. Não confiávamos um no outro e ele correu para detrás de um prédio onde eu o aguardava de cabeça para baixo, morcegando. Voltou e montou em cima de mim com os braços em roda de meu pescoço, assemelhando-se a um colar de aço vulgarmente usado em cárceres. Alertei-lhe que nunca fizera um vôo a dois, e disse-me ele, no estremecer dos lábios rachados pelas substâncias delinqüentes, que queria apanhar uma ou duas estrelas e seis ou até dez pedaçinhos da lua, ou tudo que coubesse na boca de caçapa interestelar naquele momento. Mantínhamos nossa altura, a altura das mãos de M. Stipe – o vocês sabem quem. Um fiasco! Seja no céu ou no chão ou transpondo o céu por debaixo da terra a sete plácidos palmos: um fiasco! Neste vôo inaugural perdemos o produto do delito dos três delinqüentes traídos. Em nosso último rasante – quando pairávamos por sobre um jardim macedônico repleto de estátuas e esculturas brancas de grandiosos detalhes nas veias e cabelos, de arbustos de um verde ranhoso desconhecido até então, de gardênias e gardenais exalando cores e odores jamais imagináveis ou filmados em películas 8mg ou, quem sabe, receitados em prescrições indígenas: chegamos ao periódico pit-stop, casualmente.
Nossas barrigas roncavam uma cantável sinfonia clássica em D# menor. Aguda e grave. "Ao mesmo tempo", como bem me fora revelado por ele. Rolávamos ainda brigando, nos rodapés das páginas que continham essas notas amusicais sangrentas, enquanto ele metia uma mão larapia em meu bolso e resmungava que havia escondido toda a grana do delito não sei onde antes de voarmos para cá e que estava fudidamente duro e que tinha fome prá caralho e que sua mãe era síndica de um edifício caindo aos pedaços numa cidadezinha sem comércio (a principio-) ativo e seu pai como um madeireiro falido não lhe dava atenção e ele era só um pobre trombadinha de esquina que furtava toca-cds dos vizinhos... E isso lá! E aquilo também! "Mas não teria você, Yachtsman, um pedaço de goiaba vermelha ou maça verde ou uva passa roxa no bolso para matar-me o inebriante e contido desejo bandido de comer?" Não, companheiros. Não! Eu tinha coisa melhor embaixo das mangas do mês de novembro e reservada na classe executiva para estezinho aí.

Enfurecido o assoprei para longe.
Triste, senti mais fome.
Sabia tudo sobre os filhos do homem.


E ali naquele ristorante ajeitado servindo-nos um banquete à moda do dia eu me empacharia dos mais secretos sonhos alimentícios. Pois, depois de um ataque gástrico, tornei-me um glutão de marca maior, ferrenho. Esbaldar-me-ia nas especialidades agrotóxicas da fábrica Peppermint Man, subsidiária das indústrias Acme. Brandi um prato do tamanho de uma mesa de marfinite, talheres do tamanho de ferramentas alaranjadas de jardineiros e martéis de torneios de bocha em clubes de funcionários públicos falidos do tamanho de baldes de pescadores clandestinos, condenados, fugitivos, aleijados... Assumindo a reta final da fila para servir comida – e ainda sentindo falta daquilo que realmente me faltava para se empapuçar, Césio e Bário em demasia –, estava a sorridente estudante elétrica, afortunada comensal disparatada. Batucava, dançava e cantava um drum & bass despreocupadamente. Queria cinqüenta dinheiros: dei-lhe três notas de dez e uma de vinte. Espantoso, muito espantoso. Deixem cair as máscaras! Retirem as coifas! E o fizeram, num átimo coletivo, as atendentes. Que cabelos, que cu! Santa mãe de Deus! Que cuy cuy! Que culito serviçal coberto de pano-branco mais excitante! Que belo apêndice à mostra! Verminosa, ela sorria saudosamente e condizia com nada, remetendo, inevitavelmente, a todos os lugares que ela estaria indo, sozinha, sem o Yacht a desvendar-lhe os caminhos e admirar-lhe os eczemas bacterianos. E nada de fotos em anexo ou missivas escritas em noites passadas em claro, porque gastar estava fora de cogitação naqueles tempos difíceis para pessoas como eu e outros mucambos lisos, de corpo deteriorado, também.
Tragam-me adubo para que, em magnífico epigeu, irrompam de meus poros indefesos ramos e ramalhetes e cascas e brotos cósmicos de dálias, mandrágoras, margaridas, cravos, tulipas, cannabis indica, urtigas, cicutas, zínias, urzes, lilases, fúcsias, violetas, oliveiras, malvas, sálvias, orquídeas, papoulas, girassóis, alecrins, lírios, tillium, íris, altéias, jasmins, sisais, narcisos, melissas, pinheiros, jacintos, bétulas, petúnias, heras, eulálias, lótus, floxes, favas, lúpulos, centeios, zimbros, joios, camélias, ipês, azáleas, ébanos, gardênias, magnólias, camomilas, cálamos, mirras, radicis, ramis, arrudas, cravos, hortênsias, anêmonas, algas, compostas, gaillardias, valerianas, verbenáceas, gerânios, jacarandás, dicotiledôneas, crisântemos, quelidônias, hortaliças, alfazemas, kümell, liquens, cipós, jatobás, sassafrás, cerejeiras, mangueiras, goiabeiras, figueiras, copaíbas, pimenteiras, macieiras, acerolas, cenouras, oxicocos, açafrões, aveias, beterrabas, buritis, damascos, pitangas, andirobas, cupuaçus, almíscares, sândalos, essências xamânicas, lavanda, lantejoulas, gergelins, confetes, glútens, granolas, girinos, manjericos, eucaliptos, cedros, topázios ou ametistas, manteigas ou margarinas, clorofórmios ou grinaldas, cimento ou plástico, o que seja, cobertores de lã de chipanzés carnívoros, narcóticos, bálsamos, novocaína, éter, láudano, népenthès, curry, menta, feno grego, fubá, canela, cominho, cúrcuma, coentro, mucura, gengibre, salsa, especiarias da Índia, murtas rubras, cardos púrpuras, bactérias, ácaros, fungos, vermes, centopéias, conchas, cigarras, caracóis, me empreste o teu ancinho para esse serviço!, a dor que te transforma em criança infante novamente, o que te põe de volta ao passado qual ele seja, a carapuça que lhe cobre as feições contorcidas, os canos pvc e inox que levam água até você, a cura sobrevinda do teor de embevecimento da maré negra, o exagero carmim do discurso prolixo: assim poderei regar e umedecer, cobrir de pétalas murchas esta porção de roxa terra fofa, forrar de folhas ressequidas e frutos derretidos estes dois terços anis de profundos mares salinizados...
O tempo é difícil quando se é taciturno e introspectivo demais, quando se é bom demais para ficar trancado a serviço de outrem, quando se tem um jardim de flores louçãs selvagens brotando e desabrochando e vicejando, desesperadamente, dentro de si, as quais são diariamente envenenadas com a alta periculosidade TNT de ácidas atividades desnecessárias as quais são sumariamente regadas com desinfetantes para não federem tanto, quando se é jovem e tem de ser obrigado a assumir responsabilidades de adultos irresponsáveis – estar-se disponível, para ansiar crescer como eles: ladrões de vidas alheias, bombeadores de felicidade dos outros, comedores de belos e generosos pedaços de energia minha: tudo transmutado vangloriosamente para seus egos vazios e bolsos cheios; para as roupas e bolsas e cirurgias plásticas de suas esposas boçais, entretanto, apetitosas até os pêlos anais; para o equipamento do carro modelo ano-que-vem de seu filho suburbano freqüentador de todos os antros mundanos – mas que precisava usar uma máscara esfoliante todos os dias antes de dormir chorando –, enfurnado em seu apart-hotel republicano; para sua filha obesa devorar todas aquelas porcarias francesas, americanas, italianas, javanesas, arábicas, mexicanas, tailandesas, para vestir-se com aquelas vagabundices de lojas luxuosas, de lúgubres butiques e penduricalhos e crendices vãs; que, tendo sua esposa e filhos perdendo tanto tempo assim com as cousas desnecessárias, precisaria ele, como próprio-otário, angariar mais e mais fundos para bancar: suas aulas de reforço insuficiente; suas faculdades particulares maçantes em níveis ridículos, mas que todos precisam freqüentá-las por ser dali que saem os que "fazem pior o que sabem melhor" (!); seus spás mutiladores, donde devoradores adestrados são reintegrados a Sociedade dos Idiotas Gordos; e, no fim das contas, permitir que eles tomem conta de seu próprio negócio asfixiante para exilar-se num fim de mundo – simples de tudo, exonerado do cargo – ingerindo periodicamente suas substâncias apaziguadoras, servidas por uma enfermeira deliciosa, no entanto, tendo o pau apenas como um maldito membro pendente descartável e avulso. Agora, por que ele e seus próximos são assim? Por terem passado pelo que passaram para chegar ali? Talvez nem bem o foram... E foi desta maneira até o festivo dia morno em que os quatro indivíduos se ataram ao pilar mais elevado de sua mansão e: o marido cortou o seu pescoço, a esposa os pulsos, a filha abriu o estômago e o filho perfurou o coração. Houve sangue. Sangue de quatro vidas inúteis jorrando por quatro segundos. E só. Nada mais conveniente que o presente fato consumado nos rigores descritos com a certeza de não terem vivido. Pronto. Casamentos desfeitos. Filhos sem respeito. Dias de desaguamento. Indesejáveis momentos. Porém, imperativos desejos!
Babando e tremendo e sentindo o estômago grunhir diante de diversos altares sagrados de subordinação cruel, regurgitei com repulsa os detritos que habitavam o jazigo mais profundo de minha experiente entranha, não sendo capaz de levar, portanto, uma porção sequer de meu revigorante manjar à boca de peixe morto: moqueca de morangos holandeses gigantes regados a nuvens de agrotóxicos sadios. Beberiquei apenas meu galão cinco litros de chá gelado de melissa e vinho tinto. Aliás, saquei rolhas atrás de rolhas com o excêntrico intuito educacional de apreciar o estampido de sacá-las forçadamente, tendo a honra única do mesmo. Interessante, muito interessante. Não havia notado tal graciosidade de gazela com chifres em espiral desde que inventaram os rótulos e batizaram o açúcar de simplesmente rúcula. Gastei um tempo nisso. Três dinheiros a unidade envasada, minhas decompostas saladas de sábado. Montei uma pilha delas, mas por exalarem o vapor acre de uvas passadas do ponto, as desestruturei... Leste, centro-oeste, sudeste, noroeste, boreste, cisbordo, oeste mortal! Boreal, setentorial, e austral, meridional! De todos os cantos, nota-se vivido, o perigo sorrateiro – não só no campo notório de visão –, se aproximando... Uma família de densos furacões afunilados gorgolejando destroços para todos os lados! Vuuuuuuuuuuuuuuu-vu. Revolvendo tudo que encontra pela frente. Fou-fou-fou! "Ops, como saio daqui, doce estudante? Ah, se soubesse que bastasse entregar-lhe essas malditas asas pré-fabricadas, donzela, o teria feito antes mesmo de encontrá-las." Alcei vôos mais altos, então. Dessa maneira, engolindo nuvens sem gosto, derramando lágrimas involuntárias pelo rosto, eu mantinha segura, apesar de todo seu peso, a árvore genealógica de minha família dispersa. E eles diziam-me coisas de incentivo banal, assim sendo eu era um cara legal, ali sim estava um voador animal. Por dentro de minhas calças eu latejava: o efeito colateral. Minhas célebres companheiras desafortunadas corriam para longe de mim montadas em carruagens fantásticas, vazias, porém, dum arremesso pré-núpcio-conubial. Todas elas eram superdotadas da milenar capacidade teatral de entretenimento voluptuoso carnal. Sempre me convidavam para aquele festivo semanal; que eu recusava, pois, haviam rigorosamente arrancado-me a fimose do pau.
Barriga ainda vazia. Boca salivando pneumonia. Vislumbrou-me Elvira balançando as tetas como só ela o fazia. Permanecíamos (um segurando a mão do outro, suando extasiados, vertendo sais em forma de bolas de golfe) no fliperama instalado nos fundos do supracitado restaurante. Tentei resistir a sua máquina de diversão me desafiando com suas luzes pan-estroboscópicas piscando, excitadas pela marcha lenta: Não use drogas – porém, fritei com o ossos osteoporóticos pun(k)gentes. Ponha a ficha! – sinalizava-me logo em seguida. Elvira func-func em meu cangote e boing-boing com as mamas: o maior sonho do cidadão, ali, exposto, a insaciável e romanesca lasciva. Aos diabos com o Salty Dog de Jurubeba. Beba, seu Gerente, beba. Ponha ficha e não use drogas. Lapide os dentes e carimbe a testa. Respeite a sinalização. Mantenha-se vivo! Mantenha-se vivo? Saúde: olha o nível. Estamos trabalhando nisso... As longas sirenes de alerta tocaram, agudas, beeeem agudas. "Pinball!" Apitou o vulcão em erupção. Segura peão. Olé! Olê! Corcoveia bicho escroto (o rabo balançando feito pêndulo de relógio em torre), desenfreado. Vinte mil pontos. Recorde municipal! A máquina prosseguiu cuspindo aquela torrente de lava de confetes cor-de-rosa, e sentei para esperar por aquela enxurrada de chuva tóxica que dentro em breve teria início, hermanos. Para permitir a passagem dos navios, as pontes se partiriam como fios de lã de pulôveres de atendentes bancários, na melhor hidrovia do país! Parar e espancar? Por que não atropelar? Rechaçou-me com um olhar. Segurando Elvira pelos mamilos aleijados, a arrastei para fora do restaurante divertido. Atrás do agitado fliperama, um silencioso rio. Foi assim que com uma bomba de pé, enchi um bote inflável novinho. Apanhei um remo e a joguei dentro da provisória embarcação, mantendo-me vivo, não pondo fichas usadas, ignorando a sinalização e lixando a arcada dentária.
De algum lugar remoto, ainda, chegou a mim: o frescor cheiroso da chuva.
O entardecer refletia seus alaranjados raios UV dos lençóis fluviais para as lentes negras de meus óculos RB. Aves chilreavam, tocando a água cristalina do rio com seus bicos famintos e asas envergadas em penas viçosas. Peixes reluziam o dorso escamoso ao revolverem-se no infinito que consistia sua morada. A montanha meditava sobre poucas situações imóveis, como o lapso do tempo, como a implacável morte do seu não-ser inflexível, como a medida de duração dos seres e suas conjunturas, e sustentava-nos dando cobertura contra maus presságios agourentos soprados de outras regiões longínquas. Como sugeriu Fante, e no ensejo o adapto livremente: as nuvens apresentavam verossimilhança a furiosos cavalos sensatos galopando imprudentemente rumo a bola de fogo suspensa no centro do universo: o sol, poente às costas da montanha. As folhas em forma de cabaça recendiam outono, pois, acredito que fora essa a estação vivenciada naqueles tempos cevados, ziguezagueando amortecidas por uma leve corrente de ar brando antes de flutuarem em potável água doce. Havia diversos pássaros enfileirados, em seu turno de descanso, nos fios de alta tensão. As cigarras trocavam de corpo, possivelmente, em meio seu próprio coro cavo. E Elvira me envolvia com as pernas, me cobria com seus cabelos canibais de pontas duplas, afiadas e letais. Seus seios insondáveis afogavam-me. Ardiam em chamas, meus lábios porosos. Não sem júbilo, ó meus remelentos conduítes escolarizados, vos digo. Esses lábios aqui latejavam, afetados por mordiscadelas. E queria mais do que aquilo: queria derreter, queria mais delas. Enroscamo-nos, os amantes ardentes. Majestosamente cozidos no êxtase. Espetei-lhe. Acertei-lhe o valiosíssimo ás de copas. A mais pedida das cantigas! O néctar, aquilo era, o combustível, meus atalhos para marca-passos. Então ela me cavalgou... Hey-ho, Silly Billy Joe! Contra isso e, em favor disso, remei, deveras insaciável. Remava sincronicamente (?), acompanhando suas investidas sexistas. Chupei-lhe, escorneado, e se tivesse me oferecido uma generosa dose e algumas bolachas torradas para acompanhar, a teria agradecido. Ao observar a paisagem onírica, de soslaio, coberto de beijos e carícias inconclusas, encontrei uma vaga no tamanho de nosso bote, qual fosse uma garagem natural naquele braço do rio corredio. Minuciosamente manobrei, utilizando os remos. Irreversíveis ondas minúsculas batiam no bote, tornando-se imediatamente íntimas de nossa cópula. Estacionamos e gastamos um tempo ali, fitando um ao outro, desgastados, transpirando desassossego. De repente, como se a campainha de uma fábrica fosse soada, uma nuvem de pássaros nativos, em alvoroço, gorjeou as notas típicas da espécie calhorda a qual pertenciam, na direção do irrevogável morro mais ao fundo. Com efeito, prontos para sumirem na rota secular tatuada em seus genes.
– Olha os pássaros! Já viu pássaros, né Elvira?
– Tô vendo.
– Tá vendo nada – e eu prestando atenção em seu abdômen definido, enquanto as borboletas e libélulas morriam, compondo, em seu singelo movimento de queda, um arpejo dissonante circunscrito em pontilhados no pentagrama traçado no quadro-céu com fonte nuvem na cor cinza e do tamanho incalculável das estrelas.
– Já vi. Duas vezes, dois tucanos! – retrucou-me Elvira, A Peituda Valorosa: sim, pasmem, seus peitos aleijados falavam tão bem minha linguagem esquecida quanto a de vocês, meus semeados sabugos de tutti-frutti concebidos no concentrado campo do cemitério, 3º seção, aquele dialeto praticado com cansaço.
– O quê?
– Tu-ca-no! – colocando sua cabeça impaciente para fora da nave de brinquedo que balançava, feito penduricalho, acompanhando nosso frenético furor de entra-e-sai – Tu-ca-no! Oh!
– Dois tucanos?! Du-du-duas vezessss-uh?! – grunhi, pois, de fato, não a tinha compreendido, eu, o boêmio iconoclasta, e ela, a odalisca acossada.
– ... – nervosa, afastou-se de mim: começou a vestir seu vestido aveludado que ficara ligeiramente molhado (?), rapidamente, e se daquelas glândulas não se ordenhasse vinte litros de leite holandês (cada) eu chutaria o balde! – Hmmm – gemendo de prazer.
(Tratava-se do efeito do rum luso-castelhano, contrabandeado a bordo, ou seja, para aquela porção de terra caribenha cercada de morros intransponíveis e recoberta por Serras Peladas, de Buenos Aires, capital do Antananarivo – separada por Rios de Janeiro, decorada com Torres Eiffel e vigiada por estátuas da perdida Fraternidade –, por esfarrapados soldados paraguaios desertados da pátria amada S/A & Cia Ltda).
Quando terminou de se vestir, mordendo os lábios e beliscando desvairadamente as próprias coxas, levou as mãos à cabeça e, com beata devoção asceta, a balançou como se estivesse, de fato, deliberadamente possuída por alguma coisa maligna ou católica. Usurparam-lhe as compotas camponesas de conservas leguminosas, conclui. Do veludo emanava ânsia. Esse vapor vaginal adentrava pelas minhas virginais ventas irritadas. Jogávamos na Divisão da Perversão Paroquial. Censurado. Eclodindo em banais salvas de palmas bestiais. Bravo! Bravo! Bravíssimo! Censurado. [Palmas ensandecidas dos vulgos] O ambiente era abafado mesmo ao relento. Pecaminosa, Elvira delirava controladamente. Em minha boca a grama negra de seu morro – nem paralelo nem oposto ao cóccix – era pura queratina e sêmen de clitóris friccionado. No instante seguinte me dirigiu um olhar desconhecido (digo isso porque ela ainda não o havia executado), porém, permanecendo no status: olhar suspeito de todos os crimes ao qual fora momentânea e supostamente absolvido.
Retomávamos forças, logo após forrarmos o estômago de pavê de vodka, executando um leve folguedo bucal (meus ágeis dedos buscavam sua aquecida esponja visguenta enquanto ouvia sua respiração me alcançar), quando ventos escandalosos nos pegaram desprevenidos, permitindo que resplandecessem em nossas retinas cansadas da guerreira vivência a luminosidade de trovões. Primeiro se via, depois se ouvia. Debruçada em minhas pernas, Elvira corou. Deitei meus olhos sob seus olhos injetados, pois, estes me molestavam. Arrefeci – pela beleza curiosamente trágica do interpretável. Sua pele, alva, sedosa, ostentava pinta alguma, nenhum sinal ou cicatriz, celulite ou estria, nada, e de sua pele exalavam gazes inebriantes que neste contexto encantavam o sujeito de antemão. Entretanto, seu temperamento era indigesto, indesejável como uma diarréia, uma luxação ocular, uma enxaqueca, enfim, como uma Margaret Thatcher. Sirigaita mequetrefe! Avessa a astúcia e adepta a frívola elegância. Disso tudo eu sempre soube. Mutuamente, praticamos cunilíngua e onanismo... Desembarcamos na margem mais próxima. Uma vez mais, olhamo-nos refletidos naquele convexo espelho turvo aquoso. Faíscas brilhavam no leito do rio e sob as contíguas plantas aquáticas. Fazia-se noite, ligeiramente. Mas a lua não nos banhava com sua poesia barata de beira de estrada cinqüentista, seus versos abstratos de execráveis cavalos selvagens na vanguarda do pensamento anarco-sentimental. Iluminados por desesperançosos vaga-lumes titubeantes, trilhamos um caminho cuidadosamente constituído de pedras de granito no meio da mata. As lâminas de capim que formavam uma parede verdolenga ao nosso redor (e, portanto, transpondo nossa altura), envergavam-se todas no mesmo sentido: para onde o vento úmido soprava. Farfalhavam, as copas das árvores: ora escondiam o território lunar ora o revelavam afixado sob um quadro negro. Seguindo os vaga-lumes cicerones encontramos uma casa de banho piemontesa, aparentemente desativada, equipada com saunas e afins, e fixamos-nos no estabelecimento sem reservarmos espaço por antecedência. Sob essa luz equivalente a mil candelabros alados de velas acessas fulguravam nossos corpos impregnados de loções afrodisíacas e óleo de amêndoas. Esbaldando-me nos seios fartos, retirei do bolso uma escova ginecológica de cerdas macias e longa haste flexível, um protótipo de adereço imprescindível no correto emprego daquele relaxamento. No valor desta instância, corpos formosos em demasia se comparados a ofuscante luz do dia (uma vez que quem realmente operava ali era o truque de escuridão-claridade, noite e dia, momentaneamente, boceta e cacete). Elvira continha a eletricidade no ventre, o vigor de uma máquina de torno. Com o auxílio de minha visão raio-x, observei o estranho animal requebrando e uivando dentro dela: cabeça de javali, asas de pombo, corpo de ornitorrinco, pernas dianteiras de rato, patas traseiras de rã, cérebro de elefante, rosto de minhoca e coração de Eva. Então, cravei a atenção em mim mesmo: línguas no lugar de dedos, dedos no lugar do pênis e pênis no lugar da língua... Obtive a terrível sensação de trespassar-lhe o útero, navegando através das trompas de falópio: equacionando sentimentos abstratos e, sob efeito, apreensivos à exposição prematura. Neste momento, a moça tocou-me vorazmente a cloaca... Dali não se prosseguiria sem antes uma pausa meditativa. E, escancarando uma janela, imediatamente veio-nos o frescor no clima exterior, quando este casal formado pelo acaso pornográfico simultaneamente alcançou o ápice do ato: um milagre sincronizado. Confesso, com estranheza, a semelhança de tal seqüência de golpe de sorte com a de abjetos capítulos de novelas mexicanas. (Aqui, faço associação com a parábola elucidativa do truque dos Oito, mas não para soar irônica como a coerência aleatória do mundo dos sonhos ou seus trâmites, o trânsito entre os "dois" mundos, o diálogo frouxo com o onírico: "Dia 8, as oito horas e oito minutos da oitava música: bola 8 solapada na caçapa! E oito anos mais tarde, aos mesmos oitenta meliantes de oitenta e oito quilos... E por aí vai... Etc, etc.") Finalmente, dei graças assim que veio o intervalo e surgiu no canto da tela a mensagem "a seguir".
– Sonhei com um tubarão – irrequieta, abrindo-se para mim, que, a essa altura (pronto para outra felação poderosa), esperava a abertura de outras partes do seu corpo escultural: e ela insistia em falar amenidades.
– ... – coloquei os nove, os nove longos dedos no bolso, porque, sei lá, senti vontade, senti frio; um dos dedos estava ocupado demais procurando por orifícios livres e, mais para cima, um dos olhos observava uma pequena flor seca desprender-se do caule e girar no ar feito pião, qual hélice de helicóptero faz, graciosamente sofrendo em decorrência de a gravidade lhe aplicar sua newtoniana força permanente e invisível.
– Ele me fazia massagem – com efeito, intricado no assunto, masturbava-lhe o dente-de-alho de dondoca três mamilos (tomara que ela não tenha filhos, pensava): nisso, ela fazia o inverso, e conforme ela se ocupava de mim, eu tratava de esfiapar sua meia rastão.
– Foot massage? – perguntei.
– Tooth [ofego] massage – fazendo-me explicativas mímicas minimalistas.
À distância, cães enamorados com a lua uivavam.
[...]
E essa foi a primeira noite em que dormi longe de Milady durante toda minha vadiagem marítima indeterminada, uma suculenta noite em vigília carnal, pois, Elvira calou-se quando se aninhou ao meu lado.






* - Fragmento extraído da Viagem Quatro deste texto.

7 Comments:

At sáb. out. 14, 03:26:00 PM, Anonymous Anônimo said...

acho que ninguém leu isso aqui, leu?

 
At sáb. out. 14, 08:04:00 PM, Anonymous Anônimo said...

não li, nem pretendo

 
At seg. out. 16, 08:22:00 AM, Anonymous Anônimo said...

nem o autor leu.

 
At seg. out. 16, 05:07:00 PM, Anonymous Anônimo said...

saparada.

 
At qui. out. 19, 12:10:00 AM, Anonymous Anônimo said...

eu li.

 
At qui. out. 19, 11:47:00 AM, Blogger Tiago Muzulon said...

eu li! ô danilo, gostei da sua enciclopédia de plantas, e gostei também de: jingle gutural. muito bom. o fantástico mundo de anãozinho.

 
At sex. out. 20, 12:32:00 PM, Blogger Guilherme N. M. Muzulon said...

Acho que combina ler esta viagem quatro ouvindo o mesmíssimo toque de Paranoid Android com 2 minutos passados, do radiohead.

 

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