Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

segunda-feira, setembro 11, 2006

"Pneu - drama da vida simples (aos simples e aos que se esforçam) - Parte II", por João Faissal.

Cocalina
Seu Sabiá está sentado numa entrada de um corredor que sai na rua. Ele fuma seu cigarro mal enrolado e observa as pessoas. O tempo nublado, alerta uma chuva chegando no centro da cidade. Um ambulante pára ao seu lado com óculos escuros.
- Oia o óculos. Vai um óculos aí?
- Quanto ta?
- 10.
- 10?
- Humrum.
- Me dá um pro menino. (aponta para o garoto que está engraxando um senhor do outro lado da rua)
- Esse aqui?
- Não, aquele roxo.
- Esse?
- É.
Quando o ambulante sai andando, Seu Sabiá puxa um óculos escuro roubado, arranca a etiqueta e põe no rosto. O menino volta correndo.
- Oie. Comprei pra você.
- Oxe, precisava não.
- Agora me dê esses dois conto.
- Mai pia! Eu vou dar porque?
- Dexe de besteira, homi. Comprei o óculos pra você.
Pneu olha para o dinheiro e depois resolve dá-lo para Seu Sabiá, que sorri e se levanta.
- Pronto. Vamo que vamo. Agora com esses óculos extra-estrelares a gente ta protegido, menino.
- De que, seu Sabiá?
- Das peste da cidade grande.
- Vixe.
- Num lhe contei essa história?
Nessa hora o menino olha para Seu Sabiá sorrindo, já antecedendo o final da história. Eles vão andando por becos e mais becos.
- Tudo começou quando conheci uma baixinha chamada Cocalina. Essa foi o grande amor da minha vida. Porque baixinha e beiçuda como aquela num existia. Eita beco arretado. Se você ficasse diante daqueles beiço, Pneu, tu ia era confundir com dois pneus de trator. Daqueles grande, homi! Eu demorava quase dois minutos pra percorrer todo o diâmetro daquela coisa.
- Vixe Maria.
- Pois num fale nada, deixe que eu continuo. Cocalina era de casinho com Frederico, um alemãozinho besta que se metia a riquinho lá em Tapuraé.
- Tapu o que?
- Tapuraé, o oásis na Caatinga. A terra santa das baixinhas do Beradêro. O lugar mais divino da rodovia Limão-Perengue. Se um dia um anjo baixasse na terra, ela ia dar uma passada em Tapuraé, porque lá é lugar divino, muleque.
- Fica longe?
- Fica, mas num vou falar de longintude não. Tou aqui pra falar de Cocalina. Num me interrompa. Cocalina era a deusa virgem dos coqueiros bambos, dos caramelos grudentos, das pernas lisas, dos dentes cerrados, nas folha de juazeiro, dos blábláblá doido dos bebo, das imensas longitude de tudo nessa terra. Cocalina era luz que se cheire.
- Como é?
- Pxii. Fale nada não. E eu me apaixonei por aquela baixinha. Êta miserenta. Essa era de total entregue ao ser humano. Carinhosa e toda delicada nos serviços do amor. Só vendo pra crer. Um dia eu peguei Cocalina perto dos açude. Era um campo aberto, mas atrás das árvre, eu encostei ela num toco e pimba na cachola. Eita muleque, era coisa divina de deus.
O menino rir.
- E aí, quando a gente tava conversando com as estrelas, o pinguçu do Frederico aparece. Ele trazia uma pexeira na mão. E gritava assim, ó: “Venha aqui, seu maguinho descabelado! Venha aqui experimentar as peste da cidade, sentir couro quente na carne. Venha cá, bandidinho”.
O menino cai na risada com a interpretação de Seu Sabiá, que assusta algumas pessoas nos becos.
- E eu saí correndo. Corri como ninguém correu tanto nessa vida. E logo cheguei em outra cidade. Foi aí que eu vim parar aqui.
- Oxe, foi quando isso?
- Semana passada.
- Oxe, verdade, seu moço?
- Oxe, menino. Tu pergunta dimai. Agora me diz quem é esse Zé Vaqueiro.
- Como é?
- Eu vi no filme. Quem é Zé Vaqueiro que você falou?

Zé Vaqueiro
O menino está engraxando um sapato e Seu Sabiá está sentado ao lado do cliente, mascando um chiclete.
- Pois Zé Vaqueiro era disso mesmo. Ele falava as coisa e fazia. Tinha era orgulho de Zé Vaqueiro.
- E onde ele ta agora?
- Vixe. Acho que em Gurambá. Ele era de Gurambá.
- E tu conhece Gurambá, menino?
- Conheço não senhor.
- Oxe, precisa ir lá um dia.
- Pra mói de que?
- Pra encontrar Zé Vaqueiro, ué.
- Oxe, Seu Sabiá, Zé Vaqueiro num existe mermo não.
- Como assim?
- Era um homi lá que vestia uma roupa e ficava fazendo aboio.
- No sertão que eu vim o povo fazia aboio assim: “êta-boiada-dá-um-boi-pra-rio-de-p’ranha-cumê-dá-um-boi-pra-boi-poder-vivê”.
O menino cai no riso. O cliente olha com olhar simpático para Seu Sabiá. Seu Sabiá continua:
- E tinha outro que era: “ê-boi-zin-boi-só-zin-ê-boiada-preta-boa-boiada-iê-boi-sozin”
O menino e o cliente riem juntos.
- Oxe, Seu Sabiá, essa tu criasse!
- Criei nada, rapaz. Sou da terra vermelha.
- Mai que coisa.
O menino sai de dentro de um bar contando o dinheiro. Seu Sabiá se aproxima sentado num cavalo branco, ele está sentado num sela preta e um lenço vermelho ao redo do pescoço. Parece uma cena mágica de ilusão. Um chapéu de pirata improvisado e um pequeno pedaço de cipó serve como chicote. O menino fica embasbacado. Ele põe o dinheiro no bolso e não se segura:
- Oxe! Zé Vaqueiro, homi!
- Vamo, Pirineu. Vamo que vamo. Suba aqui em Tiroflexo.
O menino sobe no cavalo com ajuda de uma pessoa que ta passando. Ele não consegue falar nada. Seu Sabiá começa a correr com o cavalo pelas ruas do centro, passa por vielas, becos, praças e pára perto de uma igreja.
- Agora desça, Pirineu. Precio voltar para Gurambá.
- Mai é longe, homi. Fica.
- Não, num posso.
- Não, fica. Por favor, seu Zé Vaqueiro.
- Não, preciso ir.
O menino começa a chorar desesperadamente, como se a felicidade e toda sua liberdade estivessem ali, em cima daquela cela. Ele olha para o cavalo como quem abandona sua própria esperança. Seu Sabiá, completamente atordoado com a reação, sai correndo com o cavalo e dá meia volta na igreja. Prende o cavalo numa árvore e tira logo a roupa de vaqueiro. Corre em direção ao menino, que ainda parado no mesmo canto, chora para ninguém, olhando pros próprios pés.
- Oxe, Pneu. Que foi homi?
- Seu Sabiá!
O menino corre e abraça Seu Sabiá.
- Que foi homi? Que choro é esse? Vixe Maria. Que aconteceu?
O menino só chora quietinho, num abraço forte de Seu Sabiá.
- Calma, muleque. Ta tudo bem agora. Fica calmo, rapaz. Olhe só. Olhe para mim. Olhe aqui. Olha no meu olho, menino. Presta atenção. Você precisa saber que tudo ta na sua mão. Você num pode abaixar a cabeça e chorar não, muleque. Você é homem grande. Num fuma ainda, mas é gente grande. Olhe pra mim. Você tem que meter a cara nesse mundo, viu? Porque esse mundo ta metendo a cara em você. E aí tu vai escolher: vai ficar chorando e num fazer nada ou vai correr atrás e conseguir as coisa. Tome.
Seu Sabiá tira a estrela que estava no peito do colete de Zé Vaqueiro e entrega ao menino.
- Guarde aí. Você é rico, menino. Você é rico.

Febre dos Lagartos
Seu Sabiá está num banheiro público, lavando seu rosto. Ele começa a tossir muito. Tosse durante quase um minuto sem parar. Acaba cuspindo sangue na pia. Ele lava o rosto novamente. O menino entra no banheiro. Seu Sabiá liga a torneira e limpa a pia. Mas o menino não percebe.
- Tai tossindo?
- Nada. Besteira.
- Oie. O que é raparigueira, hein?
- Eita, bicho arrochado. Já tais querendo é, muleque?
- Oxe, sei nem o que é, seu moço.
- Oie, sabe o que a mulher tem entre as perna, né?
- Sei.
- Pois tu põe sua pica lá.
- E depois?
- Ai tu tais perguntando demais.
- Oxe, homi. Fala ai.
- Nem. Quem vai te falar isso é Neuza.
- Quem é Neuza?
- Já fosse num cabaré, menino? Já visse as rapariga tudo feliz? Aquilo ali num tem outro nome não. Feliz é quem goza nessa vida, rapaz. Neuza é quem vai te ensinar essas coisas.
- Mas eu num quero não.
- Num quer o quê?
- Isso aí.
- Oxe, tem querer não, menino. Uma hora tu vai pra guerra.
- Nem.
Seu Sabiá, sai do banheiro ainda tossindo um pouco. O menino fica olhando desconfiado.
- Vamo. Vamo que já já anoitece.
- Bora. Vamo pra onde?
- Vamo conhecer uma baixinha.
- Eita! É outra história é?
- É. Mas essa é de verdade. Essa é a febre dos lagartos, a turbina do foguete, o calor do sertãozinho, a atmosfera do sol. Jesuína, filha de Jesus mas com rabo do capeta.
- Vixe Maria.
- Pois num tem pra dois não, visse? Tu lá se arruma com quem tiver.
- Como assim?
- Jesuína. Eita baixinha arrochada. Aqueles cambito me deixa doidin.
Seu Sabiá entra num cabaré. Lá dentro, algumas meninas sentadas no balcão se exibem para os dois. O menino fica rindo envergonhado. Eles dois sentam numa mesa.
- Psiiu. Me traz duas cana aí, arretada.
Uma magrela vem com dois copos de cana para os cavalheiros.
- Eita, que tu ta linda como a noite, Jesuína.
- Deixa de coisa, homi. Sou sempre isso aqui.
- Venha cá, sente no colo.
- Hum.
Seu Sabiá faz carinhos no rosto de Jesuína que sorri delicadamente.
- Se você me levar lá pro lençol, posso te mostrar as coisas que num te mostrei da última vez.
- E que são o quê?
- Oxe, e eu vou falar assim?
- Assim como?
- Assim. Na frente do menino.
O menino tampa os ouvidos. Jesuína rir.
- Pronto, pode falar agora.
- Eita menino atrapalhador. Vamo, minha baixinha, que você é a mulher mais linda de todo o litoral das Américas e das Áfricas.
- E é?
Jesuína começa a rir envergonhada. O menino sorrir de leve, acompanhando a menina. Jesuína se levanta e carrega Seu Sabiá com ela. O menino tira as mãos do ouvido e tenta acompanhar as batidas da música na caixa de sapateiro. Uma puta magrela e bem alta se aproxima dele.
- Oi menino.
- Oi.
- Como é seu nome?
- Pneu.
- Oxe, que diabo de nome é esse?
- É meu nome.
- O meu é Elizângela.
- Oi.
- Aquele é seu pai é?
- Nem. Pai mora em Cuité.
- Hum. E você vai ficar aí só esperando aquele homem?
- É.
- Você veio aqui só pra isso?
- É.
- Num ta curioso pra saber o que eles tão fazendo?
- Eu não. Seu Sabiá disse que mete a pica e pronto.
A mulher cai na risada.
- Que coisa mais linda, você.
- Oxe, eu não.
- Venha cá, vou lhe mostrar uma coisa.
- Mostrar o quê?
- Venha cá, rapaz. Deixe de medo.
- Oxe, tem medo não. Mai é o quê?
- Venha, menino. Donde já se viu uma mulher fazer mal a um menino?
As meninas do balcão riem.
- Ai meu deus. Seu Sabiá é fogo mesmo.
- Vamo. Deixe de frescura. Vai ficar aí com essa cara de choro?
O menino olha pra ela com uma certa raiva no olhar. Deixa a caixa no chão e acompanha a mulher pelo corredor.

Metáfora
Seu Sabiá e Pneu fumam cigarros de rolo numa calçada. Já é noite. Um pipoqueiro pára perto dos dois. Pneu olha pra Seu Sabiá que logo entende a artimanha do menino. Seu Sabiá se levanta e vai até o pipoqueiro.
- Ei rapaz, quanto ta essa pipoca aí?
- Tá por 3.
- 3 conto?
- É.
- Aí ta caro demais.
- Se num quer, num leva.
- Oxe, deixe de ser grosso rapaz.
- Saia daqui, meu amigo.
- Tu é um grande de um asno, sabia?
O cara xinga algo e Seu Sabiá sai andando. Mais na frente, Pneu aparece com dois sacos de pipoca. Ele dá um pra Seu Sabiá e come do outro.
- Oie, Seu Sabiá, preciso contar uma coisa.
- Diga.
- Oie, tu num sabe que eu vim de Cuité, né?
- Humrum.
- Lá em Cuité eu fiz uma coisa.
- O que foi, menino?
- Tinha Tonho. Tonho era fio de Dona Jussara. Mas Tonho era chato dimai, dimai. Eu odiava Tonho e Tonho me odiava. A gente era feito cão e gato, num sabe?
- Eita, bicho brabo.
- E um dia eu pendurei uma peda na árvre. Era uma árvre alta. Eu subi bem devagar, prendi uma peda grande e desci. Eu nem fiz isso por nada, fiz por nada mesmo, seu moço. Fiz e depois, eu já tava aqui, eu soube que Tonho tinha morrido.
- E foi?
- Morte matada, Seu Sabiá.
- Oxe. E quem matou, menino?
- Fui eu.
Seu Sabiá olha assustado pra Pneu. Depois continua a comer naturalmente.
- A peda se soltou, homi.
- Oxe, então num foi tu, menino.
- Mai foi! Claro que foi!
- E purquê? Só porque tu prendeu a pedra? Como tu sabia que ela ia cair ali, menino?
- Mas foi logo Tonho.
- Sim! Poderia ser qualquer um, besta. Até tu mesmo!
- Mai...
- Mai, mai, mai nada. Cala esse bico. Num foi tu, besta. Pára de pensar isso.
Seu Sabiá começa a tossir muito forte. Ele acaba cuspindo sangue. Pneu se levanta assustado.
- Ixi, Seu Sabiá, o sinhô ta morrendo é?
- Tou não... (tosse). Cala a boca. (tosse)
- Nam. Oie, lá em Cuité, Nhó Caroço morreu assim.
- Quem?
- Nhó Caroço.
- Nem, menino. Isso aqui (tosse) é só um (tosse) resfriado besta (tosse).
Seu Sabiá cospe mais sangue. O menino começa a ficar desesperado.
- Eu me (tosse) engasguei com a pipoca.
- Mai, mai.. bora imbora, seu moço.
Seu Sabiá fica meio perdido e cai no chão. Ele sangra um pouco pela boca. O garoto se lavanta e sai correndo. Começa a chover. Seu Sabiá fica deitado com a chuva caindo no seu rosto. Ele mexe os dedos de leve e de vez em quando solta uma tossida. Pneu sai correndo descendo as ladeiras na chuva. Ele escorrega numa calçada e acaba quebrando a caixa de sapateiro. Abandona a caixa na rua. Ele continua a correr. Seu Sabiá, ainda deitado, começa a falar algo, resmungando ainda:
- ...e fugiu. Maldito. Maldito. Bandidinho. Eu cuido, eu cuido. Mas num dá trégua. (tosse) Pirineu!!! (grita) Pirineu, porra! Cadê tu, seu safado!! Pneu!!! (tosse) Pneu!!! Vai ficar chorando aí? Vai ficar nesse seu cantinho seco aí? Venha cá, (tosse) seu bandido. Vigarista! Venha cá. Você acha que (tosse) eu num sei que você ta ai.
Pneu corre por entre umas ruas, passa por perto do porto. Ele corre como se estivesse desesperadamente só.
- Fui eu!!! Fui eu, seu traidor! (tosse) Ai. Judas! Bandido! Fui eu que fui vaqueiro! Eu te enganei, seu besta! (tosse) É um pirralho mesmo! Ainda nem tirou o cheiro do mijo, muleque! E é por isso que você não pode fumar. (tosse) Você é uma criança! Pivete safado. (tosse) Volte aqui.
Pneu entra num beco escuro, que acaba saindo onde o mar arrebenta nuns corais.
- Essa tosse num é de nada, rapaz. (tosse) Eu num tenho medo do sangue não, diabo! Quem é que vai me levar hein? Quem? (tosse) É o diabo, é? Esse calor dos inferno numa chuva quer dizer muita (tosse) coisa, viu? Pois venha, belzebu! Venha sete pele! Maldito (tosse) dos inferno. Pegue essa alma de quem (tosse) sempre lhe serviu!
Pneu segura a estrela do Zé Vaqueiro e olha para o mar nervoso.
- Zé Vaqueiro! Zé Vaqueiro, me ajuda! Salva Seu Sabiá!
Pneu joga a estrela no mar e fica pulando diante do mar.
- Vai! Isso! Vai!
Enquanto isso, Seu Sabiá briga contra os sete ventos pela sua alma.
- E você criador? (tosse) Abandonastes teu filho e num vai abandonar (tosse) uma ovelha desgarrada? Hiprócrita! Falsário! Tu mentisse, bandido! (tosse) Cadê você Pneu? Maldito!
Seu Sabiá entra em mais uma crise de tosses. No final, põe uma grande quantidade de sangue pra fora. Pára de se mexer e fica lá, completamente imóvel, diante da chuva.
Pneu olha para as luzes dos barcos no fundo do mar. Ele fica sentindo a chuva e ouvindo as ondas. De repente, fala como se estivesse ensaiando uma fala programada.
- Oxe, eu já falei da história de Zé Vaqueiro? Não? Apoi num fale nada não, deixe que eu continuo.