"Romantismo de cu é rôla - Parte II"*, por Protásios Terrificus.
No dia seguinte...
Depois de uma noite inteira em claro, o Lobo resolve voltar ao "humanológico" para se encontrar com o homem enjaulado que chamara sua atenção há algumas horas.
Antes que os primeiros raios de sol transpassassem as nuvens e antes mesmo que os outros de sua espécie pudessem abrir os olhos, o Lobo saiu de sua toca aflito e bem ofegante, talvez tivesse realmente entendido o que aquele insignificante homem enjaulado, na sua fedorenta existência tentava exprimir com tanta segurança para quem se encontra atrás das grades sujas e enferrujadas de uma jaula.
Àquela hora da manhã, não havia uma única alma viva dentro do parque que abrigava os humanos distribuídos por etnias em celas. A não ser os próprios homens, que pareciam não ter almas.
O Lobo ficava mais aflito à medida que se aproximava da jaula onde o homem que o abordou – no dia anterior quando estava junto à alcatéia -, estava trancafiado. Ainda escuro, ao passar correndo em frente à jaula dos homens asiáticos, o Lobo perde o controle e se choca contra a placa que dizia: "não jogue amendoim para os homens".
Um pouco desnorteado, o Lobo se levanta, sacode um pouco a poeira e as folhas entranhadas em seu pêlo e segue ao encontro do homem. Passa rápido pelas jaulas frias onde antes ficavam os ursos polares e que agora abrigam os povos nórdicos da antiga Escandinávia, até que finalmente chega à ala do parque destinada aos povos africanos onde se encontrava o tal homem.
Ao se aproximar com cautela da jaula, percebeu que o homem estava deitado de costas para as grades e as mãos a lhes servir de travesseiro.
- Ei homem, acorde... Preciso falar-te - sussurrou o Lobo.
Como se já esperasse a visita do Lobo, o homem mais que subitamente, levanta a cabeça e ainda de costas indaga:
- O que queres? - diz o homem com um ar de indignação.
- Não consigo dormi. Tenho pensado no que disseste a respeito da lógica e da dedução e principalmente a respeito da solução para sair deste engradado fedorento. Creio eu que tenha entendido quando me falastes do desenho amigo e sobre rabiscar sua própria chave para um dia sair daí. Entendo que o ser humano é o mais criativo e inteligente dos seres. Sua palavra é a própria chave e o poder de sua fala rabiscado no ouvido de quem interpreta suas metáforas é o que lhe libertará deste confinamento. Você me fez entender a lógica natural da vida e da existência, da evolução e do progresso, não posso mais conceber essa República Federativa das Feras, o governo dos leões ou a administração dos macacos. Toda essa "sociedade Irracional" é insignificante diante de um ser tão capacitado quanto o ser humano.
- Sim, mas me diga o que realmente tu vieste fazer aqui? - falou o homem com uma voz agressiva e ainda de costas.
- Sei que seria um fato isolado a principio, mas logo todas as feras dessa República Federativa também entenderiam que o lugar dos homens é aqui fora, constituindo prósperas famílias, visando o progresso e a evolução do mundo com seus feitos e sua história. Proponho-te trocar de lugar comigo! Tu sairias da jaula e eu me trancafiaria, pois aqui é que é o teu lugar e não o meu.
- Pobre tolo!! Não sabes que o verdadeiro progresso da existência está com vós.
- Não entendo. E quanto a rabiscar a saída, a força da palavra e a criatividade? – pergunta o Lobo, fazendo referência ao que o homem falou no dia anterior.
- Quanto a isso, estás coberto de razão. Somos sim superiores a qualquer espécie animal. Mais inteligentes, mais sábios, criativos (e arrogantes). Detemos como nem uma outra espécie o dom da palavra e da persuasão e foi justamente isso que quis dizer com pintar a própria saída, estúpido animal.
-E então, não achas que deverias estar aqui fora, tu e toda a tua espécie, administrando a evolução, visando o progresso da tua humanidade e de todos os seres vivos?
O homem, numa quebra brusca de semblante, olha para o pobre animal que se sustentava em quatro patas e defecava naturalmente á frente da jaula e diz com uma voz desiludida e cansada:
- Não percebes que mesmo com toda a limitação da tua espécie animal, nós, seres vivos, ainda sobrevivemos ao tempo!? E que atrás das jaulas, humanos, somos todos iguais, independente de raça ou crença. Que as guerras por território, jogos de vaidades, poder, petróleo, ou qualquer outra em sua insignificância já não existem mais! Que a fome não atinge mais os povos, que o ar está mais puro e que vós, principalmente vós, sois os principais beneficiados com tudo isso! Nós, seres humanos, no decorrer da história destruímos uns aos outros, ao planeta e a vós também. Não sabemos viver em sociedade, usamos a nossa arrogância acima da inteligência e não nos preocupamos com nada além do olho do nosso cu. Não percebeste ainda que até aqui no "humanológico", os homens ficam em celas distintas? Não conseguem conviver.
O jovem Lobo perplexo abaixa a cabeça e sente pena ao mesmo tempo em que sente um alívio extravagante. Como se a miséria do homem fosse a perpetuação da existência naquele momento.
O homem se vira para o fundo da jaula e numa fala abafada e cansada diz:
- Vá embora e não tenhas pena de mim, por que eu não teria de vós se estivesse em seu lugar... Animal filho de uma puta!!!
* Segunda parte de duas. Primeira parte de - na época - Caio Costa.

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