Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

terça-feira, agosto 15, 2006

"O circo", por Leda Pinheiro.

"Atenção! Atenção! Essa vida contém cenas explícitas de tédio entre os intervalos de emoção! E aqui... Não tem segunda sessão! Entrem, entrem, ocupem seus lugares!"
Ele berrava a plenos pulmões, com o rosto pintado e os balões coloridos, vestido naquela calça xadrez que já costurei tantas vezes.
Como se a vida fosse um espetáculo, onde não podemos escolher as melhores cenas, onde não podemos controlar todos os atores; onde coordenamos apenas os nossos momentos, onde somos responsáveis apenas pela nossa parte no texto.
Ele berrava e olhava para mim, enquanto as pessoas entravam, enquanto as crianças corriam, enquanto os velhos ocupavam a arquibancada com perdidas ilusões e os adultos compravam maçãs-do-amor fingindo que as crianças é que as comeriam.
Como se a vida fosse um espetáculo que não termina quando a sessão acaba, que não nos permite dublês, que não respeita clichês, que não pára para que possamos retocar a maquiagem ou mudar o figurino.
Ele berrava e eu sabia o que ele ia pensando enquanto me olhava, enquanto berrava ainda mais, enquanto olhava a minha sombrinha cor-de-rosa, enquanto as últimas pessoas passavam pela lona.
A vida não se importa se a gente desanda o enredo, se perde a hora, se perde o tom; ela passa, simplesmente, passa. E quando a gente menos espera, num piscar de olhos, o espetáculo vai chegando ao final...
Acabou a palhaçada, e, num surto de lucidez, assim que as cortinas fecharam, ele me falou:
"Com que tipo de história a gente vai gastar o tempo que resta pra gente?"