Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

terça-feira, agosto 15, 2006

"Cento e oitenta graus a céu aberto"*, por Danilo Fochesatto.

Transplantando-me para as ruas contíguas, deparei-me com um par de nádegas charmoso. Indescritivelmente magnético. Decidi segui-las. As seguiria até o fim da linha, downtown, se fosse o caso. Sou super fã de um flerte contagioso. Correspondido ou não. Fui atrás, óbvio. Demonstrando claramente as minhas intenções com um sorriso torto na cara. Depois de dobrar duas esquinas no encalço dessa desconhecida – mulher esta que me impressionava de várias formas cuja existência não havia me sido divulgada a não ser naquele presente instante, pois, só para citar e constar, ela gingava com aquele seu corpo maravilhoso que faiscava ereção e brilhava intensamente o orgasmo proporcionável ao passo que jogava as mãos para trás destilando encantos e atrações traiçoeiras cabíveis somente para uma sagaz deusa chantagista que simplesmente não dá a mínima para os maricas giras, os indolentes abstêmios, os apelidados de etilistas, os halterofilistas indefinidos ou para as lésbicas esclarecidas que se esparramam por onde ela passa contaminando o ambiente saturado com seu arco-íris de divertimento vil –, duas esquinas em forma de W, percebi que ela soube estar sendo seguida. Aconteceu que, para dar motivo a perseguição e deixá-la mais interessante, passei a imitá-la, dando ênfase à maneira como displicentemente segurava a alça da bolsa, deixando a impressão de que permitiria sua queda ao mais sutil assopro do vento, da boca dos marmanjos desbocados que queriam levantar sua saia e ver os pêlos púbicos escapando por entre a renda da calcinha, das homossexuais que almejavam colar o velcro ao dela. Ela apertou o passo, creio que assustada. Mantive o meu ritmo. Por um breve momento, algo que nem sei dizer se existia, desviou minha atenção. Olhei novamente e ela já havia dobrado outra esquina. Dei um pique. A vi precipitar-se para dentro de um ônibus. Não sem esforço a acompanhei para ver aonde aquilo chegaria. Sentada, com afinco e penetração peculiar, ela lia uma daquelas compilações do Novo Testamento que são distribuídos gratuitamente pelas paróquias por aí, quando, introduzindo-me, chegando por detrás para dar-lhe um susto idiota, eu lhe disse:
– Bú!
Sem enfeites ou ornamentos, ela meramente fechou a bibliazinha usando como marca página um bilhete de loteria e latiu.
– Vá te foder, anticristo!
Respeitosamente fiz o sinal da cruz (pensando na décima porcentagem do deleite que aquela filha da puta poderia ter me proporcionado, pensando no álcool que brindaríamos após o fato consumado, imaginado ela de quatro para mim, imaginando sua expressão de tesão e suas súplicas para que eu não parasse de penetrá-la grosseiramente), e alguns mendigos bêbados junto de outras selvagens colegiais com meias 3/4 me acompanharam tal qual eu fosse um general ordenando que seu séqüito de comandados abaixassem as calças e esfregassem as nádegas em urtigas tóxicas.
– Que boca mais suja... – comentei com o motorista.
– Qual?
– Aquela ali com a bibliazinha – parei diante dos degraus – Saca só. Vou te contar uma anedota. Rapidinho, rapidinho. Uma vez sonhei com Jesus pregado na cruz. Bacaninha o cenário onírico. Em Gólgota, que em hebraico significa o lugar do crânio, e tudo mais. Estávamos a sós. Cabisbaixo, escondendo os olhos, ele sorria para mim. Era um sorriso de cara safado, te juro. Então, fez-se ouvir sem ao menos mover os lábios leporinos: “Acreditai no Pai, pois Ele mentirá para vós.” Entendeu? Acredite em mim porque eu vou mentir. Acordei com uma dor de barriga que durou três dias e três noites. Fim.
– Eu sonhei que meu namorado era um peixe. Acordei passando a mão na barba dele achando que eram barbatanas – divagou o motorista, que logo em seguida recobrou sua postura viril – Vamos logo, rapaz. Desce do ônibus. Vai doar sangue, sei lá. Preciso ir pra caverna.
– Depois disso eu quase entrei para alguma igreja. Bem, essa foi minha estória. Agora, a dessa mulher aí foi diferente. Ela sonhou que o Cão e o Führer faziam uma dê-pê nela. Se converteu a base de trauma porque... – e fui falando isso e descendo do ônibus fazendo-me de bailarino.





* - Fragmento extraído da Viagem Quatro deste texto.

1 Comments:

At ter. ago. 15, 09:51:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Muito bom. Sim, mais um encômio clichê...

 

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