"Aniversário", por Lorenzo Falcão.
No máximo duas e trinta ou três da madruga algum relógio devia marcar quando ele se deu conta da situação embebedada em que se encontrava naquela festinha de aniversário de um ano do filho da sua grande amiga em Copacabana e ele começou a pensar que o retorno para Niterói àquela altura dos acontecimentos seria complexo e desconfortável quando então percebeu a moça bonita e suculenta que o olhava interessadamente do outro canto da sala enquanto o violão rufava acordes trôpegos acompanhando alguma velha canção de Chico Buarque e a cantoria era geral e ele como que fechou duramente os olhos abrindo-os em seguida tentando recuperar algum resquício de lucidez para corresponder ao olhar promissor da moça e quem sabe entabular relação mas ao reabrir os olhos cadê que ela ainda estava ali e ele então se lembrou do coroa que ficava nas festas até amanhecer sempre bebendo água e depois lhe era dado o sortilégio de acompanhar as moças entregando-as em casa e normalmente se ajambrando com uma delas porque ainda tinha lucidez suficiente para tal mas aquilo podia bem que podia ser apenas uma conversa longe da verdade que os homens gostam de incrementar a gabar-se da condição de macho e descrever com riqueza de detalhes as aventuras amorosas e seus pensamentos iam nessa direção quando praticamente empacotou-se na rede onde havia se acomodado sabe lá há quanto tempo depois de tantas cervejas e caipirinhas que já lhe doíam a cabeça também enfumaçada de minister longo e o destempero havia se selado com um baseadinho na área de serviço duas ou talvez três horas antes daquele acometimento súbito que passara a reinar em seu corpo/cabeça jazente e curvado em rede cuiabana e a cantoria que se perpetuava num Chico Buarque de olhar esverdeado e belas letras que lhe fizeram sonhar com a moça do outro lado encantada na sala apesar de sua cabeça girar e girar sem parar foi quando ele acordou no silêncio da pós algazarra e envergonhado por ter adormecido fora de controle decidiu se levantar rápido e sair a francesa no silêncio do apartamento de Copacabana desviando-se na sala de copos e cinzeiros e garrafas triste porque aquela poderia ter sido a noite das cigarrinhas se não estivera tão bêbado a ponto de não conseguir corresponder ao flerte da moça que tinha longos cabelos e olhos negros e boca grande de marfim soberbo mas que teria que ficar para uma outra ocasião porque daquela vez pelo menos a certeza de ter perdido o bonde já assenhorava sua imaginação fértil de escritor por desabrochar e saiu de fininho do apartamento sem bater a porta ganhando a rua e chegando a poucas quadras no ponto de ônibus com sol a pino na face para pegar o coletivo que o levaria de volta para Niterói numa longa viagem e provavelmente incômoda por causa da maldita ressaca naquele trânsito infernal do Rio de Janeiro de morros e praias e visual maravilhoso e gente brincalhona enquanto sua cabeça já ia doendo cada vez mais que parecia que a tampa dela queria sair e começou a sentir enjôo assim que se sentou num banco duro do coletivo e o enjôo era acompanhado por uma leve dor de barriga mas o caminho era longo e ele tinha que se virar agüentando firme o trajeto porque sabia que quando chegasse em casa e se deitasse mas antes tomando uns dois ou três analgésicos logo depois dormiria e acordaria após algumas horas quase pronto para outra mas outra arghh era coisa que não lhe deveria passar pela cabeça que já doía infernalmente e o estômago se embrulhava e o enjôo se acentuava entre freadas curvas e solavancos e a raiva do motorista e do cobrador surgiam com toda a raiva mal estar do mundo e se sentiu aliviado quando o coletivo galgou o acesso à ponte Rio-Niterói mas foi um alívio passageiro porque o enjôo o martirizava e sentia que sua face amarelava e rosava alternadamente diante daquele infortúnio figadal intestinal num verdadeiro transtorno físico-químico que exigia expelir o exagero etílico para que tudo melhorasse pelo menos um pouco e o ônibus vazava pela longa ponte sobre as águas podriqueiras da baía de Guanabara que era feia parecendo uma boca desdentada como queria Levis Strauss e cantava Caetano e o trânsito não era mucho e ele percebeu que o cobrador como que o vigiava e o olhava com insistência quando veio aquela força interna e incontrolável de suas entranhas impossível de se controlar e ele teve que colocar a cabeça pra fora na estreita janela do ônibus para vomitar estrepitosamente seus resíduos estomacais que por causa da alta velocidade do coletivo esvoaçaram para trás e para longe sem atingir vítimas indefesas resultando numa operação vitoriosa que lhe propiciou uma ligeira porém falsa melhoria do mal estar porque uma só vomitada todos sabemos que é pouco insuficiente mesmo para alívio geral e então logo em seguida veio outra colossal vomitada seguida de mais uma ou duas enriquecidas pela bílis que também marcava presença e a dor de cabeça não se mandou mas atenuava-se para sua felicidade de pobre coitado que achava que o pior tinha passado e o ônibus agora deixava para trás os treze quilômetros de concreto armado da ponte gigante adeus baía de Guanabara sendo que agora em mais uns minutos estaria chegando em casa já quase são mas não foi bem assim porque a revolução intestinal agora se acentuava vorazmente e ele precisava de qualquer maneira escafeder sua merda que insistia em sair brava e sorrateiramente deixando-o em total desespero enquanto o coletivo dobrava e avançava pelas ruas da pacata Niterói e a vontade tresloucada de fazer merda ia e vinha com intervalos regulares foi quando chegou ao seu bairro e percebeu que estaria em apenas alguns minutinhos em casa onde tudo se resolveria e chegou a pedir a Deus que lhe ajudasse nessa reta final e levantou-se e deu o sinal solicitando a parada que não tardou e ele ganhou a rua a cem ou menos metros do prédio onde morava descendo destrambelhado e muito incomodado com uma crise cíclica que rocamboleava seu intestino e chegou entrando velozmente sem cumprimentar sequer o porteiro que parecia um jogador de futebol do Fluminense e já no elevador procurou por uma chave que não existia deparando-se em seguida com o hall que lhe assegurava haver chegado em casa intacto e pregou o dedo na campainha com o seu sonho de sentar-se no trono mais íntimo que existe no mundo quase completado só que houve demora para que lhe abrissem a porta e então a merda começou a irromper pelo seu ânus cujo tempo de fechamento se esgotara o que deixou bem claro que estava diante de uma das mais imprevistas cagadas que jamais haviam acontecido e premiado a sua vida de escritor desabrochado justamente naquele momento quando se faz necessário um ponto final.

2 Comments:
leitura silenciosa!
falcão arcou a lira e sonatou.
virou a mão e elogiou a jovem arcada
longe de ser uma arcadia
mas sempre com um espelho nos aureos tempos
idos.
evoé
e tentar, mirar um toque
alea jacta est
oxalá
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