Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

segunda-feira, julho 31, 2006

"A rua", por Júlio Custódio.

O velho de idéias e cabelos moderninhos não esperava se topar com aquela menina nova só na idade. Enquanto ele pedia ervas batidas com gelo, ela, toda tradicional, terminava seu segundo café com açúcar. Pelo menos era assim que ele a sentiu. Seus olhos se encontraram em direção ao garçom. Ele pediu chiclete e quibe para viagem, enquanto a moça já recebia o troco dela e levantava.
Para a moça, vendo o velho com seus óculos grossos em lentes e armaduras, pensou que ele se parecia com Vinícius de Moraes. E para esse quase Vinícius, a menina se pareceu com tudo da vida de muito bom e mais bonito. Era nova, mas já tinha idade e jeito, e graça.
- A menina bonita onde vai?
A moça não respondeu, mas sabia sim que era com ela. Não que seja mal educada, muito menos por não se achar bonita. Nem a espicaçava tanto esses tradicionalismos velhos já de ontem. A moça nada disse, só. O quase Vinícius que não gostou do que ele próprio falou. Sua abordagem, antes de falada, lá na sua inocência de velho, soou muito delicada e gentil. Mas quando feita ficou rude. Direta demais. Sabia que moça assim se irrita fácil e sai rápido. Sabia também que deveria consertar e falar menos em modos antigos. Ficou levemente apreensivo.
- Me desculpe, sou velho já...
Cortou os olhos para o chão, se engolindo. Talvez piorou de vez. Quis não falar mais e enfim desistir dela. Mas grudara os olhos na moça novamente.
O garçom voltou com o quibe e uns chicletes.
- Assim, quer chiclete? Ou quibe? Garçom, traz a conta rápido!
A moça sorriu de lado. E como moça que é, não demonstrou nada de um nervosismo seu que era maior que o dele. Encantador aquele velho sorrindo. Só aí que ela resolveu parar de andar e olhar mesmo para ele. Até respondeu, meio atravessada.
- Chiclete aqui não paga. É dado mesmo. Tem de monte variado na caxinha aberta ali na mesa.
- Ah, tem, é!
Ele recapitulou. Pode ter sido bem rápido tudo. Mas quando viu essa moça há meio minuto atrás se apaixonou logo com força de experiência. Amor mesmo. Dos eternos. E segundos depois já havia desistido por ser velho demais na modernidade e ela moça no tradicional. Paradoxo de contradição dupla. Impossível. Desistiu dela ainda em nível mais profundo quando a abordou errado e desastrado. Ela agora riria dele com suas intenções casamenteiras brotando em velocidade assustadoramente. Já havia arruinado um futuro calmo com a moça, tinha certeza. Se piorasse ainda mais, talvez pediria apenas para ela o ajudar atravessar a rua.
O garçom e a conta vieram. O velho continuava com os olhos cansados na moça.
- Espera eu pagar a conta? É rápido, com trocado mesmo. Aqui, tá vendo? Qual o seu nome?
- Terezinha...
O nome caiu em seus ouvidos como cachoeira fria em dia de sol. Sentiu refrescar as pernas até. O boteco ficou feio e escuro contra a sua euforia. Mas se controlou. Pelo menos a experiência está nos velhos. Que nome lindo!
- Vamos sair daqui, Terezinha?
- Vamos, eu já estava andando mesmo.
Ele sorria por manter o diálogo sereno com Terezinha. E por ela ser bonita e sorrir jovialmente como nunca vira alguém antes. Terezinha pisou na rua olhando para os lados, andava de saia e boina preta. Ela parecia tímida, um pouco esperançosa e até envergonhada. Não deixava de buscar os lados com a cabeça, talvez se esquivando. Mas sempre voltando olhos atenciosos para o velho. Ele acreditou então que nada havia estragado suas intenções ainda. Terezinha estava feliz e até nervosa em sua frente. O velho pincelava em silêncio e cuidado cada letra do que iria dizer. Pensava veloz. Ele era moderno, ela tradicional. Ele velho, ela nova. O paradoxo já o estava irritando por atrapalhar assunto comum em que começar conversa. Tinha que conseguir achar algo. Horrível que fosse.
Então ele a viu sorrindo com a boca, nariz e olhos e corpo todo. Virou a cabeça buscando o olhar dela onde estava. Outra moça vinha vindo chegando. Um pouco mais feia porém tão alegre quanto Terezinha, e a olhava tão saudosamente quanto. As duas iam rápido uma para outra e se abraçaram com muita ternura demais.
- Ai, ai, eu não me cabia de tanta saudade!
- Eu também. Você tá linda assim!
Elas beijaram na boca uma vez demorada e outra bem rápida. Terezinha quis se despedir e agradecer a conversa amigável que teve com o velho. Voltou a cabeça para ele que demorou um pouco pasmo, olhando para elas, mas logo buscou o chiclete no bolso. Ele achou o chiclete e o pôs na boca falando.
- Nem é tão tradicional assim sabia?
- Como?
- Você, Terezinha. Não é. Se eu soubesse eu conseguiria.
- Como?
O velho pulmão dele começou a doer por motivos de idade e situação. Teve que respirar de verdade para falar de novo.
- E fique sabendo que vou sim sem ajuda.
- O quê você está falando?
- A rua. Ficou fácil hoje em dia aqui, tem semáforo, olhe!
Atravessou a rua com passos lentos pensando que eram velozes. Nem chegou na outra calçada, já botando a mão na sacolinha retirou o quibe meio frio. Foi sozinho e comendo.

2 Comments:

At ter. ago. 01, 09:11:00 AM, Anonymous Anônimo said...

que romântico, o júlio.

 
At seg. ago. 07, 10:55:00 AM, Anonymous Anônimo said...

te amo julio. gostei muito por agora.

 

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