Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

terça-feira, julho 11, 2006

"Os nossos bebês estão corrompidos", por Karen Koltrane.

Entra em cena a noiva. A noiva está assentada sobre um tapete branco encarando um jumento. A noiva diz:
- Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado tonto dos prazeres.
O jumento responde:
- Quanta castidade obscura em perpétuos turbilhões de chamas.
A noiva replica:
- Cruel e demoníaca serpente. Os traços são bonitos, escuros são os dentes.
O jumento toma coragem e pede a noiva em casamento. Os dois se casam, numa manhã escura. Mas ela continuaria sendo noiva.
Em pouco tempo a noiva engravida. O jumento fica furioso e aprisiona a noiva em um tapete vermelho. Ambos não sabem que forma terá o filho.
Quando o filho nasce, uma grande surpresa. Tem a cabeça de jumento e corpo de mulher. A noiva diz ao filho:
- Corpo frágil e langue.
De toda a geração, todos os sangues.
O filho responde:
- Longos véus de viúvas.
Errando aos vendavais e chuvas.
E o filho vai embora com a expressão de quem se vai sorrindo, com as mãos e os pés bem juntos.
Mas antes de deixar a sala de parto, volta-se ao pai e lhe diz:
- Das flamejantes atrações do gozo,
Os ópios de um luar tuberculoso.
E o som sombrio é feito de sarcasmos.
O jumento se despede do filho cantando:
- O sonho agita-lhe a imortal cabeça.
Há no teu riso amargo um certo encanto.
Um dia o filho com cabeça de jumento e corpo de mulher encontra um sapo-fêmea em seu caminho.
O filho da noiva diz ao sapo-fêmea:
- A igreja soberana em que eu mendigo e onde murmuro a solitária prece.
O sapo-fêmea se encanta com a cabeça de jumento do filho da noiva:
- Os teus traços deixam da luz nos ouros e nos aços, outra luz de que os céus ficam cobertos.
O filho da noiva argumenta:
- Entra e vidraça levo a vida adiante
E vejo no teu vidro diamante.
O sapo-fêmea responde:
- Num fundo ideal de fogo e rosas,
Surges entre as águas puras, luminosas.
O filho da noiva:
- Tua voz mais langue e fina do que as pratas
Na sensação narcótica e felina,
Brancas sonoridades de cascata.
O sapo-fêmea:
- E nesses ossos cheios de intrigas
Paixões que foram já dóceis amigas.
Das almas que morreram para a luta.
O filho da noiva:
Sonho-te a deusa dos venenosos sucos.
O sapo-fêmea:
- Que o tinha nesse corpo de inefável
Cristalizou-se na tuberculose.
Os dois se casam.
Do claro-escuro dos azuis intensos, a noiva queixa-se ao jumento:
- O teu beijo de pedra, das brancuras da seda sem desmaios,
O vinho é a luz do teu amor
Jumento:
Ó carnes que eu amei sangrentamente
Ó carnes que me enroscam em serpente.
Um dia o filho da noiva reencontra a noiva e diz:
- Os noivados em flor da mocidade
O paraíso e o abismo em unidade.

2 Comments:

At qua. jul. 12, 03:04:00 PM, Anonymous Anônimo said...

definitivamente, essa aí já era.

 
At qui. jul. 13, 11:09:00 AM, Anonymous Anônimo said...

ninguém passará incólume.

 

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