Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

terça-feira, julho 11, 2006

"Cadeia alimentar", por Luana Cinderela.

Na tábua fria, o peixe. Comecei a fitá-lo seriamente. Ele estava morto – fora sucumbido pela fora de um anzol traiçoeiro que, numa laçada, cortou-lhe a garganta. Os olhos do pobre coitado, arregalados, empedrados, como se medusa com seus cabelos de serpente tivessem-no pego de surpresa.
Eu tinha de cortá-lo e recheá-lo com batatas; rodearia de tomates suculentos jogando molho rosé em cima. Mas por um momento súbito, deixei a faca de lado para tornar a observá-lo; ele pálido – eu, curiosa. E pensei na vida que levara a priori no seu próprio mundo, livre e translúcido, deixando-se levar pelas bolhas do oceano turvo rumo as margens desconhecidas.
Ele tinha uma identidade. Era peixe, num ecossistema de imensidão incalculável – solto, sem amarras. Isso, até ser pego por uma teia faminta. E virar presa. E se transformar no meu jantar... E quanto a mim? Bem, eu seria nada mais do que o carrasco final daquele animal: estripar, temperar, assar e comer era a minha função. Também de meus convidados, que apreciariam comigo do sabor.
E lá estava ele... esperando, deitado, com os olhos frios na tábua fria... nem tinha sequer o direito de gritar "piedade!" Se eu pedisse por ele, adiantaria? "Piedade, seu peixe, eu não queria que tivessem matado você e seus outros amigos a sangue frio. Certamente comerei-o porque deste crime não sou o executor, apenas o mandante." Oh, Deus, o mandante? Sim, EU era a responsável pela morte dessa vil criatura, afinal, haveria razão para exterminá-lo se não existisse ninguém para comê-lo? Então ficava eu no topo da hierarquia animal? Seria isso uma virtude daquelas que nós nos vangloriamos silenciosamente no fundo de nossos egos? Sim... competidora voraz até dos tubarões...
Sim, estava explicado. Era eu o chefe-mor, similar ao da máfia italiana: mandava, e o crime se sucedia.
Olhei novamente o peixe. Gélido, de carne macia, quase pronto para ser devorado. Não tinha sujas, as minhas mãos, com seu vermelho sangue aquático. Não precisei sentir o suspiro último, e também não fui a primeira a contemplar sua retina congelar-se para sempre: a tarefa bruta já estava feita; apenas comeria, o que era devidamente simples.
Tornei a segurar a faca. Imaginei-o em batatas, a saliva emergia de minha boca, ia começar a cortá-lo quando... acabei por notar uma semelhança entre eu e o infeliz peixe, fazendo-me para o ato: ambos éramos vítimas de nós mesmos.
Por quê? Bem, ele o era por ser indefeso. E eu, era vítima de meu ser por inúmeros motivos... Da minha condição de devorador, por exemplo. Eu TINHA de fazer dele minha refeição. Não poderia hesitar justamente agora para optar por um acidental vegetarianismo, jogá-lo no lixo e cancelar o jantar a que todos estimavam. Agia como uma vítima do meu desejo, da minha fome, que não doía a barriga e que eu podia chamar gula. Do hipnotismo que o olhar fúnebre do peixe me causava. E vítima de minha ferocidade, da minha alucinação e dos olhos congelados.
Estava banida de viver tanto quanto o peixe. Os dois – estáticos, ele morto e eu semimorta, ambos movidos por um automatismo inconsciente. Senti raiva e pena do bicho. De repente, como se eu, na tábua fria, esperasse pelo estreito golpe que terminaria em satisfação culinária. Com a faca na mão eu podia ver, transportando-me através destas barbatanas vazias e brilhantes, ao invés de peixe, a minha carne se rasgando... o meu olhar mole... as tripas melando o azulejo branco da cozinha... o tórax friamente aberto e recheado com batatas. "Lucinda ao forno, bon apetit." Minha carne emparedada a 40 graus, o sol particular de um condenado; aos poucos a carcaça ia se esquentando, querendo rebentar enquanto tomava forma, cor e cheiro; vinte, trinta, quarenta e cinco minutos... só não chorava de dor porque não havia dor. Eu agora morta, olhar seco e trincado, igual vidraça velha. Até dourar, feito ouro, mas não o dos mouros: dos tolos.
Tocava a campainha. Mãe, avó e irmão entraram. Conservamos palavras previsíveis enquanto esperávamos os minutos finais. Comentaram do aroma apetitoso que recendia até a sala de estar. Coloquei a mesa, sobre ela, farofa, arroz e o prato principal.
Esperei-os experimentarem. Observava atentamente suas expressões. Acharam o peixe ao molho delicioso. Coloquei minha fatia no prato, de canto com a farofa. E numa covarde garfada, levei-o até os dentes, triturando-o em insensíveis e frias mordidas... "É, acho que está faltando um pouco de sal."

5 Comments:

At qua. jul. 12, 03:03:00 PM, Anonymous Anônimo said...

é um bom texto, o da luana.

 
At sex. jul. 14, 10:24:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Ela lembrou um pouco o Santiago e suas divagações sobre o peixe - O peixe...

 
At seg. jul. 17, 10:46:00 AM, Anonymous Anônimo said...

Santiago? de compostela?

 
At ter. jul. 25, 01:28:00 PM, Blogger Guilherme N. M. Muzulon said...

Nazarian?

 
At qui. jul. 27, 11:23:00 AM, Anonymous Anônimo said...

É Lua tá evoluindo... seu texto ficou mto bom! Beijos....

 

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