Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

quinta-feira, junho 01, 2006

"Sob o mesmo teto", por Leda Pinheiro.

Os fantasmas ficavam no quarto ao lado, bastava manter a porta trancada. Às vezes até esquecia que ele existia e pensava estar sozinha. Era uma casa assombrada por um fantasma com o qual me acostumei. Um fantasma que arrastava sandálias no corredor e deixava bater uma porta vez por outra.
Não fosse o fato de ver as louças se multiplicando sobre a pia, a sujeira no fogão ou a fumaça que as tragadas matinais produzia e que eu sorvia displicentemente por tabela, lembraria ainda menos de sua existência. Não fosse a transferência on-line, de metade das contas do mês, menos ainda!
Um fantasma sem reflexos ou com medo de espelhos, medo da camada adiposa que proliferava e se acumulava cada vez mais sobre os músculos e um rosto que aumentava como numa progressão geométrica, em séculos, a idade que realmente tinha. Cheirava a livro, a biscoito com café. Um ser de outra dimensão, distante demais da minha.
E, quando numa rara e fortuita graça ou lapso de tempo nos deparávamos uma diante da outra, ela me lançava aquele olhar gélido e seco, de eras distantes, de quem não vivia e não comungava com esses tempos novos. Com aquela seriedade e silêncio sepulcrais, por instantes parecia solidificar-se, mas, voltava a ser fantasma outra vez, sumia, deixando lençóis no varal ou algum livro sobre a mesa.
Achei que seria assim para sempre, enquanto eu digeria o mundo. Mas, não foi.
Certa vez, o barulho na porta da frente quebrou a concentração do filme francês e da madrugada solitária de sexta-feira, madrugada de acontecimentos raros.
Assustei-me ao ver a porta abrir, ao perceber que havia, de fato, estado sozinha, que, não sei por quanto tempo, o fantasma não esteve ali. Foi então que virei fantasma. Uma vez que ela não me imaginava presente ou, se o fez, foi como se eu não estivesse. Grandessíssima e louca inversão de papéis! Estava acompanhada.
Sei que ingeriram doses cavalares de álcool, quebraram taças, ouviram música e conversaram trivialidades, assuntos bobos e filosofia... Tanto faz! Parecia uma madrugada sem fim. Dançaram em palavras lascivas e foram para o quarto, transformar em concreto o abstrato, sob o efeito volátil do entorpecente. Foderam à exaustão, multiplicaram os sons no vácuo, como se no prédio, na rua, no mundo não houvesse mais ninguém, como fossem todos eles fantasmas, como só os dois fossem reais.
Era isso o que ela era na manhã seguinte, era real. Foi real. Até ele virar fantasma de cataclisma, parecer ter sido alucinação. Até ela voltar para o quarto, mais amarga que fora outrora e chorar lágrimas sem fim de fantasma triste.

1 Comments:

At qua. jun. 07, 12:31:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Lindo...

 

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