Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

segunda-feira, junho 12, 2006

"La stanza del figlio", por Tiago Muzulon.

Nicodemos acordou cedo com a campanhinha instalada por seus pais ao lado da cabeceira de sua cama. Quando eles acordavam, bastava apertar um botão ao pé da escada, ao invés de ter de ir ao quarto do filho. Esconjurou todos os deuses como fazia de costume, por se tratar de seis e meia da manhã.

Desceu as escadas para ter seu desjejum com os pais. Era filho único, por isso o barulho era restrito, as conversas também, o diálogo, a relação entre os três. Nicodemos embora tivesse apenas dezesseis anos, compreendia bastante da vida; sabia que seus pais não mais se amavam, que não mais o suportavam com a sua apatia e indiferença, que na verdade herdara do pai.

Tomou o seu caminho à escola. Estudou as mesmas besteiras de todos os dias, e voltou para casa determinado a ouvir as músicas que lhe insulflavam vida. Era a música que o acompanhava durante todas as tardes, lhe causando pânico e dor, transtorno e revolta, paz e ternura, ou todas as emoções naturais da vida que se-lhe ausentavam devido a atmosfera nula de acontecimentos ao seu redor; tinha uma vida gerada pela música.

Era uma pequena vila opulenta. Os carros eram bonitos, as casas e os jardins também; as pessoas se apresentavam respeitosamente em trajes simples, porém caros, e o mundinho se fechava.

Após ouvir o concerto número cinco de Bach, decidiu que deveria partir. Desceu as escadas da casa vazia, até a cozinha, encontrou uma faca de cortar presunto na gaveta e abriu os pulsos. O cão começou a latir, o que nunca latira. Deitou no chão gelado e branco da cozinha e assistiu ao próprio sangue escorrer. Pensou em todos os fracassos, em todas as meninas bonitas que não lhe davam atenção na escola, nem na rua. Pensou na falsidade do mundo todo que o rodeava. Pensou na pressão que os pais em breve o imporiam, para sair da vila para estudar e trabalhar e fazer suas as coisas devidas. Pensou no casamento frustrado forçosamente sustentado por seu nascimento. E não teve dúvidas, por mais fútil que fosse, por mais que seus problemas fossem comuns a muitas pessoas. Eram os seus problemas e faria o que quisesse com eles. Tinha consciência do quão mimado e irredutível estava sendo, equivocado talvez, pois poderia haver solução. Poderia fugir, simplesmente. Mas preferia o suicídio, se tratava de uma escolha, não de uma saída.

A mãe chegou do consultório por volta das seis da tarde. O pai havia saído de seu trabalho as quatro e estava em seu bar, com os amigos, servindo-lhes e se distraíndo. O chão da cozinha era completamente tomado pelo sangue já frio e apático do filho. Telefonou ao marido, perguntou o que fazer, soube que deveria estancar o sangue, mas já era tarde. O filho sangrara por mais de quatro horas ao som dos latidos incessantes do cão. A mãe apenas fez nada.

Quando o pai chegou, o levaram ao hospital. O médico apenas envolveu seus pulsos com faixas, e começaram a preparar o funeral.

O casal se viu a sós, e a mãe disse: “Deveríamos ter abortado e evitado todos esses anos de falso casamento e falsa vida para o nosso filho, melhor seria se tivesse nascido morto, ao invés de levar uma vida de morto por dezesseis anos e acabar assim, sangrado como um porco no chão da cozinha”.

O pai olhou para baixo e, indiferente, deixou a mulher no hospital, foi até a sua casa, embalou todas as suas coisas e partiu, abandonando algo que nunca deveria ter sido construído.

4 Comments:

At seg. jun. 12, 05:41:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Espero que ele tenha levado ao menos o disco do Pixinguinha...

 
At seg. jun. 12, 09:01:00 PM, Blogger Guilherme N. M. Muzulon said...

Que merda, de tudo que já li, esse é o pior de todos! Caralho!

 
At qua. jun. 21, 11:26:00 AM, Anonymous Anônimo said...

a mãe é a melhor personagem. o paternalismo vence a hipertrofia! todos covardes!

achei foda!!

 
At qua. jun. 21, 12:46:00 PM, Anonymous Anônimo said...

poderíamos fazer a indecência de solicitar ao tinomag em que diabos ele pensava quando escreveu o texto...

 

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