"Cento e oitenta graus a céu aberto"*, por Danilo Fochesatto.
– Se eu ainda estou me esvaindo em merda, quer dizer, se ainda tenho disenteria? Se quiser tanto saber: por que não abre a boca e limpa meu reto com teu nariz monumental para comprovar o jato de dejetos? Ah! Faça-o com a mesma expressão de desprezo que ostentou quando perguntou, por duas vezes, sobre meu estado de putrefação, seu esnobe. Sorria como antes. Aposto que não há bosta alguma nesse seu rabo. Aposto mesmo. Vou cagar tudo de novo, para você, então. Por você, já que não és capaz. Não se comova por tão pouca merda. Entregar-te-ei um poço dela! E suplico-lhe, ó santo dos braços platinados, monstro dos dentes lapidados pelos antibióticos que os deixaram deteriorados (os antibióticos do ambulatório precário e ainda assim corrompido pelos cargos comissionados), que vossa santidade arraste a língua pelos ladrilhos do saguão de sua igreja pagã, seguindo meu negro rastro fecal. Veja como ele divide bem as coisas que tu tanto prezas. Coma meus montes de esterco, pois, caprichosos os fiz como fazem os cabritos: em bolinhas, para acreditardes tratar-se de vistosas contas achocolatadas! Estes aí, quais fossem canonizados no recente dia vindouro da epifania. Mas deguste-as apreciando o sabor indescritível, se é que você sente alguma coisa por esse buraco aí no meio da fuça, de migalhas de pão puro (sem fermento e pisoteado), da bendita hóstia! Farei que tu comas ostras duras e lacradas. E te doutrinarei com rigor a expelir via ânus pérolas preciosas e fedorentas. Aí de ti se não o fizerdes. Cinqüenta chibatadas no lombo! Em seguida, chore. Chore o quanto quiser, chame a quem puder. Derrame de seus olhos o vinho tinto, meu carismático devoto do silêncio por servidão, e canalize e engarrafe e filtre por três vezes suas lágrimas para dividi-las com seus filhos barrigas d’água: ficaram felizes os capetinhas chupando geladinho de alto teor cambaleante e peidando delicados crucifixos apaixonantes...
No que me diz respeito, fui excomungado da sacristia. Rezei demais, com as mãos coladas e os joelhos afastados, queimei velas e incensos e depositei flores, proferi rezas aos horrores: e não deu em nada. Daí me disseram algo sobre fé. Revidei que esta habilidade mascarava o Instinto. A extrema-unção: concederam-me, os perseguidores de filisteus de outrora. Picotaram minha batina. Acusaram-me: Sovina! – e isso achei inconcebível, que o bom Deus dançarino me tenha entre Teus dedos graves e permita que por ali eu tente bailar ao som de Seu assovio límpido (Ele dá atenção as conchas do mar e aos grãos de areia, por que não?) Picotaram-na utilizando o cinzel, retinindo os címbalos, entoando o latim das missas e urgindo os alcalóides que me injuriavam as chagas, abertas, normalmente, latejantes como papo de sapo e pacientes como bois arriados na baia. Circense, pretendendo atingir meu ponto neutro de descanso pelas adjacências magistrais, num tal afã lufa-lufa: almejei, no fim das contas, as marcas corrosivas de batom Veruskiano no imponente colarinho duro da camisa xadrez. Certa vez, a chave de minha castidade fora engolida por uma linda bélouga.1 De qualquer maneira, padres e bispos, cavalos e torres e verônicas e carolas, selaram nossa agradável união. Presentearam-nos com uma cama que voava e um despertador em forma de virgem a segurar firmemente seu tridente. Desejaram-nos filhos, filhas e vermes, moscas varejeiras e aves columbídeas elétricas, fetos deformados e anjos abortados, para habitarem as cidades em ruínas, os planetas em rota de colisão; para divertirem-se (e a nós mesmos) nos tabuleiros chamuscados da procissão desordenada ao centro do planeta acólito; para trincarem o encéfalo no muro das lamentações depois de atravessarem engatinhando (complacentemente pagando penitências sagradas) o clérigo e místico caminho de Santiago de Compostela.
* - Fragmento extraído da Viagem Hum deste texto.

2 Comments:
Eu até pensei: aspasLimparei o cu da princesa com meu nariz de batata...aspas Mas fiquei no superficial.
Cutucaste a merda com vara curta, rapaz!
paulo coelho é coprófilo.
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