"ResponDeus", por Karen Koltrane.
::::: Primeiro Ato :::::
Uma criança morre.
Adeus.
Uma mãe chora a Deus:
- Senhor, eu não entendo e nunca entenderei a fúria do céu. Se o Senhor existe e é justo, por que tiraste um filho meu?
ResponDeus:
- O céu não tem crime nem culpa, doce filha. O que Eu faria?
- Que levasse o demônio assassino! Antes que ele matasse o meu filho!
- Que Eu tirasse o livre arbítrio do homem que matou o nosso filho? Eu, o Deus Eterno e Todo-Poderoso!
- O Senhor, meu bom Deus o faria? E o nosso filho devolveria?
- Sim, doce filha. O meu coração é infinito como os meus dias. E a minha justiça é forte como as minhas Eternas mãos!
- Meu bom Senhor. Nunca duvidei da Tua justiça.
ResponDeus:
- Nunca, minha doce filha? Não minta para o céu que tudo vê e sabe.
(Instante de silêncio.)
- Eu já não duvido da tua justiça, meu bom Senhor.
ResponDeus:
- Pois que os homens não tenham mais a graça do livre arbítrio! E se percam todos os seus sonhos e desejos! Eu o Deus Eterno e Todo-Poderoso ordeno ao vento que sopra nas almas terrenas!
(Uma tempestade se inicia.)
- Mas meu bom Senhor, eu não entendo. Por que castiga todos os homens com a Tua Eterna ira divina?
- Faço o que me pede, filha ingrata!
- Mas eu implorei a alma do assassino-ladrão! Matou a minha criança. Roubou o fruto do meu ventre, meu bom Senhor!
ResponDeus:
- O que faz teu assassino diferente dos outros, doce filha? Não é um homem de carne como todos os outros? Não é um homem de alma fraca como todos os outros?
- Sim, meu bom Senhor.
- Duvidas novamente da justiça das minhas Eternas mãos e me rejeitas?
(Instante de silêncio.)
- Não, meu bom Senhor. E que a justiça dos Homens não seja feita!
A doce mãe cantarola e segue embora:
'NÃO CULPEM OS CÉUS
PELAS TREVAS DA TERRA
O QUE FARIA A LUZ QUE DEU À LUZ AS TREVAS?'
:::: Segundo Ato :::::
Um amante chora. Cai de joelhos. Ora.
- Meu fiel Senhor, ainda vives? Deus houve?
Deus ouve.
- Meu justo Senhor, tem olhos Eternos?
ResponDeus:
- Sim, meu caro filho. Meu filho mais claro.
- Eu preciso saber, meu fiel Senhor. Alguma nuvem escura ou clara névoa te ocultam os olhos Eternos?
- Nenhuma nuvem sombria ou clara névoa Me poderiam ocultar os Eternos olhos, caro filho!
O amante brada:
- Sangrento seja o Paraíso! O meu Senhor viu a minha amada morrer!
- Nem as mais negras e úmidas nuvens ocultariam a morte dos olhos do céu, filho!
- E o meu Senhor confessa a morte de um anjo! Sem remorso ou pudor!
- Remorso ou pudor. Morte ou dor. Não existem no céu, meu caro filho.
- O meu Senhor chora? Seus Eternos olhos choram?
ResponDeus:
- O meu coração chora. Sangra pela tua dor, filho.
- O meu Senhor mente!
- Cala-te, filho tolo. Quando a dor grita, os lábios se calam. É sábio não manchar a boca com sangue.
- A sabedoria não conhece a dor, Senhor!
- E você conhece a sabedoria, filho tolo?
- Senhor, eu vivi!
- Quantos são os teus anos, filho?
- Os meus anos são gotas no oceano infinito da Tua existência, Senhor!
- Quantos são os teus anos, filho?
- Foram poucos mas foram longos, Senhor. E eu sei que o céu me conhece!
- Só o céu te conhece, meu caro filho! Só o céu conhece a tua dor, filho caro!
O amante se desespera:
- Nem o mais alto dos céus, nem o mais profundo dos abismos conhecem a minha dor! A dor da morte do meu amor! Eu tenho Eternas lágrimas nos olhos. Meus olhos negros se desbotam em azul.
(O amante revela o punhal.)
- E eu tenho sangue nas mãos, Senhor! Eu vivi!
(O amante morre.)
Mas a dúvida perdura
Há um criador?
Que conheça a criatura?

1 Comments:
Um dos melhores até agora!!
alguém, por favor, monte essa peça!
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