"O último espetáculo da noute", por i. bê. gomes.
As pálpebras, esses lábios finos que beijam cada olhar, estavam estáticas: ele estava no centro da tenda, no olho estrábico do furacão. Um cone branco deixava a mostra a sua figura hesitante. O resto era abismo. Levantou a mão direita para exibi-la a todos: ninguém podia duvidar daquilo. Era uma espécie de falso juramento, pois todos ali só viam possibilidade do ato em sinceridade mais violenta.
Olhou para os dedos e fez um quê de quem sabe que vai sentir dor, mas que se conforma por não ter outra saída. E pronto: abriu uma clarabóia no peito com o indicador. Um movimento rápido, cirúrgico como corte de açougueiro. Aos poucos se via um pedaço de carne latejando, espirrando sangue venoso. aspas Tome ar. E cuidado para não se cansar aspas, gritavam as freiras. Aurora boreal, simples e pura.
As costelas formavam um telhado vazado. Proteção de plástico. Veias e seus perdigotos rubicundos, pulmões e o oxigênio que o desespero permite usufruir. E um vazio imenso sugando parte do cone branco. Tudo estava fora do controle e todos viam aquilo após pagar um preço simbólico. Simbólico.
A tristeza coagulou e manchou a brancura dos olhos: era o próprio deus acariciando no peito os pecados dos ímpios. Insistiu no riso amarelo, com o humor excessivamente temperado. Ele, a primeira pessoa do singular naquele momento, estava sambando pelo palco com uma malemolência capenga, prestes a ruir. E caiu: não estava em sua melhor forma, é verdade, mas precisava do dinheiro. aspas Competir com palhaços é muito difícil hoje em dia aspas, pensou prestes a ficar inconsciente.
O circo estava de portas abertas, era a última apresentação da noute. Mas ninguém além dos que já estavam dentro se atreviam a ver aquilo. Um ou outro pastor entrava de quando em vez para obter dicas para seus programas noturnos. E ficava nisso: curiosidade a serviço do Ibope. Ninguém prestava atenção ao seu pequeno show, ao seu pequeno escarcéu de frivolidades. Parecia, no fundo, um efeito especial de quinta, mas era o que ele tinha a oferecer.
A audiência presente estava assustada, pois ele parecia não respirar. Caíra com o corte para cima: era um chafariz lúgubre. Um miasma se espalhava pela tenda, e alguns saíam reclamando o dinheiro de volta, outros vomitavam, e outros exibiam o gozo em risos descontrolados. Um burburinho começou a ganhar ares de confusão, mas tudo parou de repente. Outro cone branco. E um sacro silêncio de lambuja.
Uma personagem bíblica se aproximou e o cutucou, como que com medo de a fedentina aumentar. E ele ali, dormindo com os beijos das varejeiras, pernas trêmulas e a baba orvalhando o chão. Pescava pensamentos. O santo de final de semana fez das mãos uma concha e pegou um pouco do sangue, deu graças aos céus e o inspirou. aspas Aqui em cima o ar é rarefeito. Preciso de sangue arterial aspas, disse em tom catedrático.
Mas ninguém queria saber se o ar era ou não rarefeito no quinto dos infernos ou na pasmaceira do céu. Queriam saber se ele iria sobreviver, só isso. Afinal, beber sangue muita gente o faz, mas exibir o fundo do cofre e suas mesquinharias, pouca gente. Ele tentou esconder o constrangimento, mas o seu riso o condenou. Aquilo era tão ofensivo quanto zombar da magreza de um faquir. Foi então que uma freira indignada se levantou e gritou:
aspas Sai daí, imbecil! Deixa o menino trabalhar em paz. Ele também é filho de Deus! aspas
E o santo se foi. Deixou no chão, estendido e quase morto, aquele milagre estranho. Aos poucos o cone foi se esvaindo e tudo virava abismo. E só um tempo depois o público entendeu que aquilo era um espetáculo único: aplausos e mais aplausos. Enfim, a glória anônima.

12 Comments:
aeeeee, ta malhando i.bê?
Estou. Músculos. E tu, oque fazes com teu esbelto corpo, Caio?
o artista da dor.
Exatamente
ai, meu deus.
ai, meu córpo? meu deus, quantas perguntas!!!!
o artista do fim. muito bom seu texto ib.
fuderoso ao extremo! com referência e tudo mais.
taverneiro
santo de final de semana?! maravilha!!!
vasculhando o impressionante umbigo de cristo encontrei uma entrevista com penca!!! divertidíssimo...
deus, ou melhor, o diabo salve i.bê... praticamente!!! e tu sabes quem é o anônimo!!! hehehe
Lembrei-me de kafka e seu artista da fome. Muito massa.
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