Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

quinta-feira, maio 18, 2006

"O abominável fenômeno dos pequenos ídolos", por Júlio Custódio.

A coisa toda se apresentava grandiosa. Talvez fosse o Ricardo Wagner ao fundo, mesmo num volume agradável. Sala fria, semelhante à espera. Telas a óleo, cortinas densas, revistas européias, sofás e paredes cobertos por algo parecido com veludo, escuro e marrom. Um tanto sem propósito, dramático até. O ar também, escuro e marrom. Parecia-me ver cinzeiros por toda parte. Via-os apenas assim, mas não encontrava nenhum em particular, quando tentava. Digo, os cinzeiros. Não asseguro se havia alguma fumaça ali para reforçar essa lembrança, mas também não a descarto com veemência pois, de fato, parecia sim haver fumaça.
Era até confortável sentar ali, no sofá, mas lembrava-me muito os séculos antigos, nos livros com gravuras. Talvez o notebook sobre a escrivaninha, grande e vermelha, pontuasse melhor a dissonância com o resto. Era um bem usado, já barulhento e desbotado. Não sei se gostei mesmo da sala, se teria eu algum dia uma assim, mas me senti bastante leve, sem raízes. Leve e aromatizado. Sim, é verdade, havia fumaça. O incenso logo acima da impressora, mas não reconheci o aroma. Me confundia com o perfume da atendente.
Pela maneira como ela gesticulou, presumi que estava ressentida comigo, cansada até, pois só então percebi que tentava atrair minha atenção, talvez já há algum tempo.
- Senhor, posso ajudá-lo antes?
- Antes?
- Está me ouvindo agora? Ouvindo bem?
- Ei, antes do quê?
Me pegou meio assustado essa primeira parte da conversa. A garota não se encontrava num dia muito bom, não compartilhava comigo a calmaria daquele ambiente, ou, ao menos, parecia mais receosa que eu. Me olhava meio cabisbaixa, com cuidado e benevolência. Não distingui se lia em minha testa um alerta de perigo ou piedade. Na verdade, certamente não havia nada disso. Eu não estava muito cronológico naquele dia, tampouco disposto a falar, talvez até meio febril, ou então teria me enroscado ali mesmo, naquela réplica européia, tão destoada num inverno em Cuiabá, e me fartaria por algum tempo nos juízos da atendente. Eu nem me lembrava o que tinha ido fazer ali, então não sentia a obrigação de me compartilhar por mais tempo com aquele incenso e a secretária. Se fosse algo excessivamente importante, de alguma forma, acredito que me chamariam novamente.
- Tente não me colocar em tanta espera, na próxima...?
Por algum motivo, ela pareceu se apavorar ainda mais com minhas palavras. Observei-a enquanto respirava fundo, estufando seu uniforme. Olhando-a mais atentamente, eu poderia jurar que dedicava tempo igual ao meu para cuidar dos seus cabelos, se não menos. Mas era ainda agradável de se olhar. Assim, no conjunto, como dizem. Até aquele momento, para mim, ela havia compreendido facilmente que eu já estava de saída, no entanto, me disse seriamente numa voz comercial.
- Senhor, se não deseja beber água ou café, ou usar o banheiro, a doutora está lhe esperando ansiosa.
Lembro que aceitei o café forte, ou sem doce talvez, e depois água gelada. Quando joguei os copos no lixo decidi não mais ir embora. A música no momento era um cravo estranho, ou piano elétrico, sob um assobio ou flauta. Tudo ainda antigo. Não encontrei as caixas de som, a música vinha das paredes e teto. Mas não me lembro bem. Sentei-me de novo no sofá de veludo marrom, livremente, de maneira que pude desfrutar com todo meu corpo de seu conforto exagerado.
- Você diz, a doutora Jorgina?
- Sim, senhor, ela mesma...
Coisa importante não devia ser. Não que eu me lembrasse algo dela. Apenas vagas referências, dificilmente recordáveis, nada mesmo que sustente uma sensação de respeito ou de duração. Aponta-se vagamente que com ela sempre me vinha à mente meus dias de Universidade, sobre como é difícil ser apreciado quando não se tem impulso e exoesqueleto. Isso me trouxe outra lembrança, a qual me irritou um pouco ali na pré-sala de uma doutora, sobre anos antes, quando adquiri uma ojeriza colérica, porém sensivelmente original, contra todos os conceitos expressados pelo termo funil e, obviamente, contra todos os efeitos irradiados dele, os doutores, os ídolos, os funcionários... e tudo o mais então que me parecia conceber o limite como uma benção.
- Senhor, por que se sentou? A doutora ainda lhe espera.
Nem a escutei suficiente para dar atenção. Continuei um tempo vagando pelas consequências desse afunilamento subjetivo. Não é a única estrutura possível capaz de permitir o notável fenômeno dos pequenos ídolos? Talvez eu tenha demorado um pouco pensando nisso, pois vi que me cansei do sofá. Então, quase que por vez, decidi ir até Jorgina, mas me encontrei tomando outro café, com a atendente lembrando-me pelo meu braço que a doutora ainda esperava.
- Senhor, está mesmo me ouvindo?
Enfim, o quê poderia dar errado? Era só uma mulher. Resolvi, com pouca certeza, em ir até a doutora. A música e o incenso ajudaram a me expulsar da sala-de-espera, junto com a ética das ruas em dar valor a uma profissional. Então tudo me venceu com a possibilidade de sair dali mais sábio e seguro. Ou, ao menos, mais sólido que esse meu diálogo anterior.
No entanto, logo percebi que isso seria uma ilusão; o veludo, o frio e o exagero ainda continuavam na sala da doutora. Só que tudo mudo, sem clássicos nem cravos. Havia, porém, um suave ruído de um ar-condicionado. E, destacando-se disso pela iluminação da janela, uma velha senhora que, sobre uma mesa muito elegante, escrevia numa folha solta e me oferecia um sorriso de parede.
- Jorgina, a doutora. Presumo.
A velha parou de escrever e me olhou.
- Esperava outra pessoa aqui, Doutor Benigo?
- Não me chame de doutor, minha senhora. Tenho horror a especialistas de todo tipo variado. Mas meu nome está certo, com ele você pode continuar. Deve, até. Nem pela intimidade, se acaso você a aprecia, e sim pelo respeito de base sobre a verdade comum num diálogo que muitos ignoram... mas então, diga, sério, você me conhece mesmo? Pela decoração dessa sala, e da outra, posso tirar algo de interpretação sua, mas você sabe até que sou um doutor e me chama pelo sobrenome Benigo. Não sei se estou indelicado hoje com uma senhora assim, sabe? Mas eu não me lembro mesmo se é realmente você. Digo, quem eu devia lembrar ao ouvir o seu nome.
Ela me pareceu tão preocupada quanto sua secretária. Mas era visivelmente mais segura e consciente de si, se refez rápido, voltando a escrever e comentar, perdida em algum ponto que não entendi.
- Talvez sejam meus olhos, abandonei os óculos e, já que ia mesmo precisar de lente, arranjei uma verde. Não acredito que fiquei muito diferente. Mas você já esteve aqui algumas vezes, faz um tempo já, porém não há motivos de se preocupar com isso, não é mesmo? Nem devemos nos prolongar mais, você se demorou na sala de espera e há outras coisas que eu gostaria de te perguntar.
- Sim, doutora, mas... quero dizer. Trate-me diferente. Entenda, não é exagero no amor próprio. Acredito mesmo na minha raridade. É quase um fato. Além de ser um defeito. Devem ser poucos os capazes de iniciar sintomas quase diabéticos apenas por um pequeno tempo exposto à um simples funil. Não gosto mesmo de doutores, menos ainda de ser chamado assim. Nem é só não gostar. Veja, estou sério. Ainda não estou tremendo... mas é... uma coceira do...
-Doutor Benigo, desculpe-me não estar compartilhando esse seu ânimo, pois geralmente faço isso com meus pacientes. Mas, vendo agora, e sendo sincera, não sei sobre a qualidade de nossa conversa, tendo em vista o estado peculiar em que o senhor se encontra... Bem, mas é necessário continuar, realmente. Acredito, e espero, que saiba o motivo de minha preocupação.
Olhei ao redor na busca de café, ou banheiro. Senti que o sofá anterior era mais confortável. Com certeza ela não me chamara para testar o comportamento humano dentro daquela paisagem escura e estrangeira. Jorgina respirava arranhando, forte, de tempo em tempo. Parecia-me que seu nariz escorria. Só então fui perceber sua tensão. Em uma segunda leitura talvez eu a consideraria mais assustada que eu e sua secretária, e mais insólita também.
- Doutor Benigo, estou curiosa para saber o que anda fazendo com sua filha.
Incrível. Como não? Por isso estou aqui. Jorgina, chefe e conselheira da escolinha da Nastácia. Como fui me esquecer disso antes? Sim, e o bilhete era até bem claro, me intimando. Minha garotinha andara se subvertendo no bom-senso. Há tempos ela nem falava ali na escola, e até parecia doente de magra. Era um bilhete grande e detalhado, bem escrito e talvez até roteirizado. Devo estar sim num estado peculiar ultimamente, não me é raro bagunçar com coisas desse tipo. Mesmo assim, era espantoso já ter me esquecido sobre aquela intimidação. Escrita numa preocupação sincera, dividida por fatos, como capítulos. Só para citar, direi o primeiro deles, nada muito sério ou grave; foi numa tarde de brincadeiras alegres e serenas, uma amiguinha de minha filha tinha ido ao banheiro, estava apertada. Se demorou lá, de maneira intensa, com sons altos e borbulhantes, e alguns rangidos. Virou quase um evento aquilo. Disseram que incomodou muito. O bilhete confirmou que foi algo bem notável, considerando a criança, sua beleza e jovialidade. Nisso tudo, minha pequenina então desandou a rir, compreensivelmente a meu ver, e gargalhar e apontar, gerando um verdadeiro espasmo de zombaria, interminável e contagiante. O que resultou em um choro desesperado por parte de sua amiguinha, a que foi ao banheiro e foi humilhada, e que nunca mais apareceu na escola. Tal relato, como disse, era até inofensivo, a gravidade das ações aumentava à medida em que se lia. Havia por todo o bilhete esse clima agradável de romance criminoso.
- Por favor, doutora, não quero ser estúpido e violento com a senhora, mas teria como não me chamar de doutor novamente? Já não deixei explícita a minha aversão?
- Senhor, acredito que você está se atendo em pontos sem importância. Estamos falando sobre a vida de sua filha, compreende isso?
- Doutora, você está me perguntando se compreendo o assunto sobre o qual falamos, ou se compreendo a vida da minha filha?
- Senhor, me desculpe. Mas pode escolher a pergunta, ambas me satisfazem.
- Olha, acho que não. Para as duas respostas. Quero dizer, a minha pequenina eu não entendo mesmo, porém uma conversa é sempre maleável e condutível. E pode ser surpreendente. Vai que no final dizem alguma coisa, não? Já estudou retórica, doutora? Quer um bom conselho? Nunca responda sim para um retórico.
- Não sei se concordo com o conselho, mas vamos deixar isso para depois, senhor. Eu gostaria que me desse um exemplo sobre como ensina coisas à sua filha.
- Não concorda? Oras, isso sim é incrível! Não estou falando que negar sempre irá te salvar deles, pois possuem sete diabos nas línguas, não seja criança... como assim, ensinar coisas para minha filha?
- Quero dizer, o seu método. Por recompensa? Intimidação?
- Que coisas?
Acredito que deixei transparecer ali minha leve irritação. Talvez fosse consequência do incenso distante, já me embrulhando o estômago, e trazendo junto uma dor na cabeça.
- Minha senhora... isso aqui... é... mesmo sério?
- Meu Deus, doutor! O senhor está bem?
- Mas, que caralho!
- Oh, desculpe. Eu não quis dizer...
Jorgina parou com a mão para cima, como se desistisse de algo. Floreava-lhe o rosto um semblante de ofendida e envergonhada. O sorriso de parede tinha dado vez a um olhar vacilante e interno. Seu nariz realmente escorria. Ela inspirava o ar vigorosamente. Logo depois, deu uma profunda fechada nos olhos.- Me desculpe, senhor. Isso pode não ser profissional... mas acho que não estou muito bem hoje. Sinto-me meio gripada.

7 Comments:

At qui. mai. 18, 04:41:00 PM, Anonymous Anônimo said...

"ruac, ptuif! funnnnc"

saúde.

 
At sex. mai. 19, 08:50:00 AM, Anonymous Anônimo said...

E mais um capítulo da Bíblia...

 
At sex. mai. 19, 10:52:00 AM, Blogger Larissa Campos said...

Senhor Fochesatto, gostei bastante do Coletivo e gostaria de participar sim. Vou colocar meu endereço de msn aqui... assim conversamos melhor.
lara_elfica@hotmail.com

abraços.
até.

 
At ter. mai. 23, 07:56:00 AM, Anonymous Anônimo said...

..de admirar..

 
At ter. mai. 23, 02:24:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Ficou meio difícil de categorizar minha reação em relação ao presente post...

 
At sex. mai. 26, 02:06:00 PM, Anonymous Anônimo said...

a apatia foi proposital será?

 
At sex. jun. 02, 12:21:00 PM, Anonymous Anônimo said...

nao, eu tentei ser catártico. queria até tremer suas pernas.

desculpem-me minha falha...

 

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