"Golfinho Azul", por Bandoleiro.
Há uma época em que até os sacerdotes mais fervorosos de Che não obtinham a sua ajuda, e ficavam entregues aos seus próprios vacilos. A ausência de respostas divinas apropriadas aos apelos de Barriga-Verde por vingança perdurou durante o estio, período este em que os devotos de toda a cidade queimavam o mato seco que encontravam dando sopa pela região, ocasionando a famosa Defumação Sagrada, que envolvia a baixada, abençoando a todos moradores com uma brisa sufocante de amor e esperança num futuro melhor.
Na mente do sacerdote Barriga-Verde não havia só espaço para ódio e peia contra a galera do AL, mas também cultivava a vontade de ser correspondido pela náiade Juliana. Achava que, se Juliana fosse uma flor, ela definitivamente seria uma flor bem gostosa, daquelas com muito bagageiro.
E para preencher o tempo de duração da greve dos deuses, decidiu que deveria tomar uma atitude de homem. Cheio de tesão, foi até ao Golfinho Azul consultar uma pitonisa de Rosa Luxemburgo, que lhe prescreveu uma mandinga-prá-furar-olho, depois de receber como pagamento um convite do Feijorock do Gets, que roubara da irmã:
"Aí peixe, durante cinco dias subirás na torre da Gazeta ao cair da tarde, e durante uma hora inteira mandarás, de cinco em cinco minutos, um toque para o celular da amada, no final do quinto dia ela serás tua. Mas cuidado! Se não fizeres o lance direito os deuses irão fazer pari gato contigo e com os teus chegados. Não sobrará nada!"
O sacerdote revoltou-se com a região em que teria de fazer o ritual:
"Porra, bruxa, tem que ser nesse lugar, mesmo? A galerinha do Consil jurou vingança na festa junina dos egípcios do Nilo Póvoas. Como é que fica?"
A profetiza não respondeu e vazou para dentro da piscina, deixando o sacerdote cabreiro em seus pensamentos negros. Frente a possibilidade de ser linchado, Barriga-Verde decidiu se disfarçar de Edimar para caminhar tranqüilamente pelo bairro proibido: Sem camiseta, de jeans e descalço, saltou da mototáxi em frente da torre maldita, que se encontrava cercada pelo grupo de mamulengos do Consil. O sacerdote chegou gritando, dando high five e emulando edimarices até subir na torre. Este procedimento, vergonhoso para o sacerdote, se manteve até o quarto dia sem levantar suspeitas.
No quinto dia, Mieli Lobo, o rei dos mamulengos do Consil, apareceu no bairro, depois de sua vitoriosa peregrinação pelo bairro Dom Bosco. Levava como pilhagem várias funketes gordinhas de doze anos, que foram seqüestradas, amordaçadas e amarradas no carrinho de entrega de garrafões de água, puxado pela sua mobilete. Mieli Lobo, ao avistar o sacerdote em suas paragens, confraternizando com seus súditos, encheu-se de ar, pois não admitia que fizessem bundalêlê sem sua permissão. Então, ele ergueu seu cajado e arrotou, com a voz rouca de indignação, aos seus conterrâneos:
"Xaí gurizada, quem deixou este infeliz da arca caída entrar em meus domínios?"
O sacerdote Barriga-Verde se borrou na presença do rei dos mamulengos e pensou que fora pego em seu disfarce, fez uma rápida prece a Bakunin, saltou na garupa da mototáxi e, para sacanear o outro oponente, bradou em voz fina, antes de desaparecer numa nuvem de pó:
"Sou da galera do filho do Mano-Brother, ô filho da puta! Tás pensando o quê!?"
À noite, ao se encontrar com Piu no bar Gritaria para uma rodada de suco de clorofila, o sacerdote foi informado que Cabelo estava reunindo forças entre os convertidos para pegar o filho de Mano Brother na saída da Z100, na festa da quinta da seda molhada, e arrancar a sua cabeça no tapa. A lembrança da maldição da mandinga não concluída causou-lhe um certo desconforto, mas decidiu que não levaria a sério as palavras de uma puta paga que vive na piscina do Golfinho Azul.

3 Comments:
Vamo coligá, oto!
Gandhidjin
e a galera uivou:
BOA CABELO!!!
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