"De uma revoada ele saiu malhado", por Ankh Santos.
Pássaros alvejaram-no com tanta perícia, que mesmo as partes mais recônditas de sua orelha estavam encobertas por excrementos chovidos.
– Se sorte fosse a morte, eu seria imortal.
Andando, viu as montanhas ao longe crescerem em seu campo de visão. Tão imponentes e tão inúteis ao seu paradigma medíocre.
– E pensar que a última vez que pensei em uma montanha foi em uma auto-estrada, quando meus ouvidos doeram. Ah sim: e na aula de geografia também... Mas isso foi há alguns bons anos.
Por dois dias consecutivos Alessandro caminhou. Estava tão acostumado à solidão que sua única preocupação foi como alimentar-se.
De água estava bem provido, várias nascentes corriam livres nas proximidades. E ele, desacostumado com a natureza e pureza das coisas, tossiu, pigarreou, contorceu-se em fúria pulmonar e cuspiu diversas vezes ao chão toda a raiva que o cigarro lhe impôs em sua vida.
– Preciso de uma cerveja.
Acampou debaixo de uma árvore no quarto dia. Afinal, cansado, não queria pegar tanta chuva assim.
Molhado, tanto no corpo quanto nas narinas, levantou-se e foi banhar-se enquanto suas roupas secavam no primeiro galho que encontrou disponível.
Nú, nem sequer cogitou a existência de qualquer pessoa na região.
– Uma mão lava a boca. A outra... Diverte.
Sentado e sôfrego ele se dispôs ao ato de prazer autônomo. A água escorrendo, os olhos vidrados, músculos contraídos e a espera de um clímax já há muito em desuso. E o sorriso.
Levantou-se de um salto e, junto deste, um tombo. Na água, aturdido, agarrou-se como pôde às pedras que circundavam o poço da cascata.
– Oi.
– Você me assustou!
– Não foi essa a intenção.
– O que você está fazendo aqui?
– Acho que esta pergunta quem deveria fazer sou eu.
– ahm... ehr... Passeando...
– hmm rhm... – disse ela enquanto sentava-se em um a pedra próxima, a olhar diretamente nos olhos do rapaz desprovido de proteção. Ele, apenas com a cabeça fora d’água, sentia-se mais vivo que nunca: há muito tempo nada lhe provia de tamanho sentimento, independente de qual fosse.
– É sério! – disse ele, recobrando a coragem e aproveitando ao máximo da inusitada situação. Agarrou-se melhor às pedras, aproximou-se mais um pouco, sempre preocupado em manter o corpo escondido, e recobrou a confiança em suas palavras – Há muito tempo eu não fazia nada de diferente em minha vida, e resolvi quebrar minha rotina. Tem alguns dias que estou caminhando, ainda não sei bem pra onde, e cheguei aqui.
– É, isso eu sei – sorriu – você não está com fome?
Ouvindo pela primeira vez esta palavra nos últimos três dias, ele lembrou-se do quanto estava sendo difícil manter-se alimentado apenas por folhas e flores.
– Muita.
– Vem.
– Eu... é... ahm... não... é.... – escorregou novamente, junto com sua coragem, para as partes mais fundas do pequeno lago, e ela rapidamente entendeu a mensagem.
– Já que isso te incomoda, vou te ajudar um pouco – dito isso, ela levantou-se e começou a despir-se.
Mais surpreso que excitado ele observou por alguns minutos enquanto o corpo se revelava em meio às roupas largas e velhas. Ela era realmente muito bonita.
– Vem.
E ele foi.
Andaram por cerca de quarenta minutos, após pegarem todas as roupas de ambos, em passo lento, até chegarem a uma pequena casa de alvenaria, rebocada e sem marcas de ter conhecido qualquer tipo de pintura.
Entraram, e ela foi logo preparando algo para comerem. Pão, frutas, leite e doces. Tudo muito simples, e fantasticamente bom.
Satisfeita a fome, comeram novamente.
Duas horas mais tarde ele pensava, enquanto ouvia o ressonar da moça em seu peito, com um sorriso estampado em seu rosto:
– Preciso de um cigarro.
Uma noite, duas, três. Três semanas. Sem roupas, sem falsos moralismos, sem padrões. Vida boa.
– Está na hora de você ir embora.
Sem discordar, afinal isso era algo que não faziam, ele buscou suas coisas, montou uma trouxa com alimentos e partiu seguindo as orientações que ela lhe deu de como chegar à auto-estrada.
Poucos dias depois, vestido e desorientado, ele vislumbrou o rio de piche a sua frente.
– Em frente.
Mais algumas horas de caminhada e encontrou seu carro às favas, sujo, empoeirado. O inverso do que costumava ser.
– Hora de retomar minha vida. E ninguém vai acreditar nisso.
Entrou, deu a partida após o motor resmungar xingamentos em uma língua máquinaria que ele ainda não compreendia (mas que tinha certeza de ser parte de uma inteligência alheia à vida humana), e partiu.
– Sem nomes. Voltou para casa.

2 Comments:
massa.
Texto absorvente... Muito bom!
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