Escritores degenerados & Ilustradores prostituídos, num tein?

segunda-feira, maio 29, 2006

"Cento e oitenta graus a céu aberto"*, por Danilo Fochesatto.

De súbito, acordei. Subi ao convéns principal e trepei no tope do mastro: a gávea. Uma cena deplorável – risível, no mínimo, se daquele modo me vissem (e não me refiro à paisagem gratuita que observava pelas lentes do binóculo, ao redor de Milady). Senti a brisa, a maresia, no caso, roçar meu rosto. O meu eu dissimulado tomou a unhadas seu espaço representativo, anteriormente subjetivo: apaguei o cigarro na ponta dos dedos e foi como se um dia nenhum fumante tivesse de ser “convidado” a largá-lo. Merda!, bufei. Não sabia onde estava. Mais uma vez na vida havia me perdido, só que desta vez por puro vacilo. Como fui capaz de apagar desta maneira... Demorei exatas duas horas a mais que da outra vez para me colocar na rota novamente. Mais uma vez, salvo pelo GPS. Ó, GPS, meu amor! Meu salvador! Porém, começava a odiá-lo, mesmo às escondidas, esse bastardo sabichão! Neguei-lhe os gracejos da celebração da ocasião anterior.
Atraquei num píer do Porto de Paranaguá. Fui até um bar. Precisava beber um pouco, como de costume. Estava decido desde quando descobri que meu pequeno estoque acabara – na verdade, estava quase acabando. Sentei, pensei em tonéis abarrotados de aguardente escondidos em meus bolsos e pedi minha bebida. Pensamentos admiráveis me invadiram. E não demorei em calcular que fora enganado por aquela mulher do supermercado. Ela disse que eram bons... Muito bom! Hmmm... Que bela abordagem, cruzada de pernas estupenda, dentes manualmente dispostos, alinhados e brancos, sem pêlos pubianos presos, cabelos sedosos exalando um cheiro mais provocante que seu vestido de camponesa virgem das vinícolas ou dos vales vazios das oliveiras. Sondei loucamente seu corpo liso, liso feito garrafa de uísque doze anos. Alguém merecia meu agradecimento.
Ave Maria, cheia de graça, bendito sois essa linda criatura que faz levantar-me o...
– Oi.
– Hm – resmunguei e gesticulei com a cabeça no velho “ôpa” introspectivo.
Já estávamos sentados, como todo mundo. O barulho encobria tudo, mesmo as belas imagens em minha cabeça: idéias para um bom fim de noite, exatamente: preparativos para o harém de quengas. E mesmo não havendo o que ser quebrado, ela tentou.
– Tenho vivido e nunca tentei suicídio... – pois eu a trucidaria.
– Pessoas que aumentam a idiotice para parecerem tristes. Incapazes de perceber seus rabos vazios e medíocres. Assim, fiquem alinhados para levar meus dribles.
– O quê é isso, Yachtsman?
– Adeus, pré-pecíolo, pré-terebintina...
É como digo, sempre: “Jamais desenterrar documentos! Jamais amontoar exemplos!” Que não revelam nem provam coisa alguma. O mais distinto: escol, de escória. Foi preciso aprender a não me preocupar com o que ainda não viera, mas evitá-lo-ia, acima de tudo. Afinal, é preciso evitar as despedidas, assim, conseqüentemente, não existirão problemas – perdas de tempo – com apresentações (tendo em mãos os meios profiláticos para escapar da propedêutica afoita e imprecisa), mesmo que as aparências sejam amistosas ao extremo. E elas quase sempre serão. Essa é uma tática, a outra, você inventa, pois, no meu caso, já tinha seqüelas, espalhadas pelo corpo na forma de deficiências nas funções cognitivas, suficientes para me colocar de joelhos todas as noites.
Com estoque renovado, ao contrário do humor, embarquei e zarpei. Uma hora mar adentro e notei uma lufada de borrasca sacudir o casco de Milady. Cocei a barba porque ela me incomodava. Teria de escanhoar-me e passar algodão no rosto para detectar pêlos indesejados – até parecia que tinha de apresentar-me a um sargento rabugento ou que teria um primeiro encontro, nervoso, porém, me encontrava. O tempo fechou. Pela primeira vez senti aquela brusca e repentina contração no reto (agradeço o esfíncter anal) durante minha circunavegação. Sim, claro, devo tudo aos filmes americanos, aos incontáveis filmes americanos que abordam o trágico tema pomposo.
Peguei uma puta duma tempestade! Chovia a cântaros. Caiam tesouras com pontas abertas, sanguinárias lâminas de barbear, canivetes suíços, ferraduras rústicas... Relampejava copiosamente – cabrum, cabrum-brum –, e as descargas elétricas lampejantes cortavam-me a visão por segundos que pareciam minutos. Recordei-me do Genuíno mês em que não me penteava ou barbeava diante do espelho (fazia-se breu!), as coisas eram feitas nas coxas, no rumo ou na ausência dele; do Famigerado mês em que passei tomando banho sem luz alguma no toalete. Cutuquei as luminárias e seus bocais com um rodo, depois com um cabide, e nada. Que coisa! Pifaram-se as lâmpadas, meus castelos de lego ao molho madeira, peças sobressalentes de quebra-cabeças, e praguejei, pois, nisso acreditava. Eis que no 32° dia (isso porque os meses com menos de trinta e um dias são cuencas, mancos, aleijadinhos, meses defeituosos, desafinados e desarticulados, portanto: raivosos – dignos de inexistência por aniquilação), bem, neste dia, meus carrosséis desativados, vim a descobrir que a explicação para o soturno breu era o interruptor! E dessa mesma maneira inoperante me senti impotente naquele momento de minha circunavegação. Recordei-me também de séculos antes, quando em terra, na casa dos marinheiros, eles me deram conselhos... Um deles foi o de escolher bons ângulos para deixar o vento, ondeante, me levar – nas graças do destino – para descer as ondas em caso de tormenta: como é que se faz isso, seus viados? Onde diabos fica o porquete e a carlinga? Como saberia que o barômetro me alertaria sobre tais declinações climáticas? Pré-cauções de navegação? Anúncio de tempestades que seguramente me colocariam em maus lençóis? Enquanto retornava consternado dessas divagações, Milady adernava parcialmente e eu choramingava – boo-hoo, boo-hoo, hoo-hoo – em nítida proporção inferior a da tormenta. Os cabos passavam rasgando pelos cunhos, pareciam cavalos correndo um GP estático: cachorros raivosos atrás das presas. A biruta não indicava porra alguma, estava desorientada pelo fugaz Minuano sujo, que trouxera consigo uma frente-fria dos leitos lúgubres do SUS (de todas as Santas Casas de Misericórdia!) e, em menor quantidade, do Sul – cito a ínfima região de raspas de grilo e galetos gordos e “vazios” vazios da fronteira do alegrete –, da Argentina, especificamente dos jardins da Casa Rosada. O bastardo sabichão estava fora do ar. Volta, volta, meu amoréco – eu lhe murmurava. Algumas defensas e tubulões caíram no mar, outros, ligeiramente firmes, como eu, não. O convés ficou inundado e com pedaços do meu gerador eólico e minhas antenas remendadas. Milady arfava nervosa em seu balouçar. Pobre doçura, surfando e lutando para não desaparecer como uma casca de pistache num balde de esterco salinizado. Aquela luz branca contínua, a luz de mastro, parecia um para-raio, pois, atraia todos os relâmpagos. Diabos! Tinha de fazer algo, mas não conseguia: encontrava-me (sic) tonto. Da tempestade determinada, audaciosa, medida em assombrosas escalas megalomaníacas, sibilou o vento: emaranhando meus cabelos católicos e produzindo, por conseguinte, um zunido contínuo muito do incomodo. No indeterminado instante que ele cessou, indignado, fiz um bico retal de porcelana e, imitando-o, dei continuidade àquele longo silvo uniforme. Só para zombar. Soavam como uma salva de palmas tenebrosas – com ajuda do balançar insano de Milady – as mordidas das montanhas d’água proeminentes da torrente esfacelando-se em seu castigado casco, no pequeno calado. Calculei 5 pés de calado, algo próximo a 1,5m, desta distância vertical da quilha de Milady à linha de flutuação. E as grossas gotas doloridas e, portanto, torturantes, tamborilando na grande aba de meu felpudo chapéu mexicano que se revolvia naquele turbilhão aquático de Posêidon. O adquirira num brechó, no Beco do Pilão. Algo escorreu de meu rosto, se foi mais uma lágrima não sei informar. Não me concederia o luxo de sentir saudade, de sentir frio, medo, qualquer um desses sentimentos risíveis e insignificantes, psicológicos. Como, afinal, das nuvens escorriam tal volume líquido feito esponja, também não sei explicar. Deixo a cargo das previsões. Quatro horas, cinco horas de tempestade... Os ventos ainda zuniam e o granizo começou a cair. Coloquei outro chapéu mexicano de abas reforçadas, menores, entretanto. Eram como balas atirando em mim, os pedaços de gelo. E eu tentando manter mareadas as velas, todo esse tempo nebuloso. Consegui manter a rota até os trovões darem uma singela trégua, antes disso, mal conseguia servir-me um copo de bebida para firmar o pulso ao leme. Deu-se um intrigante ranger do eixo do leme: tinha de lubrificar as luvas, as juntas, os cotovelos, e demais conexões, mas não agora, quem sabe antes da fotossíntese, bem, naquele minuto, esforcei em lubrificar as entranhas congestionadas da garganta irritada pela incomoda água salgada, crispando os lábios enternecidos. Teria de voltar à cidade anterior para reparar Milady, minha casa, minha esposa e minha acrópole, antes de prosseguir viagem. De tanto amarrar cordas, os calos de minhas mãos começavam a incomodar. Larguei as amarras. E finalmente, consegui amainar as velas com segurança. Justo em tempo de me entregar ao inevitável: o Minuano dissipou-se e a névoa desfez-se. Agruras e azedumes vividos, pelo menos estes haviam passado batido. “Por minha sorte, salvo da morte”, como desabafaria o almirante genovês Cristóvão Colombo. A espuma branca que subia das ondas, borrifavam alívio sobre mim. Ficou gostoso, o pós. O vento enchia as velas criando junto a estas uma amizade temporária. Se brincar até apareceria uma garrafa com uma mensagem dentro... Enfim, desfilávamos vertiginosamente o Atlântico: dissipando maus presságios e foices esboçadas em nanquim e martelos russos ribombando o casco.
(Procurava por um pacato ancoradouro do tipo água de poço: um Porto Seguro, um gedogen de heroína ou ainda um lugar que fosse um fiorde minado de moringas de pinga!)
Nesta instável bonança sem precedentes fui até meu estoque e, a fim de sentir-me aliviado, sentei-me ao lado do dial com duas meias garrafas de um pastoso vinho que havia comprado, ou seja, aquilo que restava de meu mirrado estoque. Emborquei-as. Cedi um gole pro Santo, depois, as ingeri. Gargarejei – escorrendo um pouco do líquido pelos cantos da boca furada. Tal infusão, destilando seu mal-estar de ser e poder, ocasionou em minhas sórdidas entranhas ossadas um espinhoso efeito desalentador.





* - Fragmento extraído da Viagem Três deste texto.

2 Comments:

At qui. jun. 08, 12:51:00 PM, Anonymous Anônimo said...

interessante a visão caótica dos acontecimentos

 
At qui. jun. 08, 09:33:00 PM, Anonymous Anônimo said...

cê que tá pobrema, rapaz.

 

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