“Cento e oitenta graus a céu aberto”*, por Danilo Fochesatto.
Assim que doquei, uma nativa portando uma cesta de morangos silvestres abordou-me e presenteou-me com um ticket que era “a passagem” – segundo ela – “para um lugar com nativas negras dançando”. Patetice lírica pura e de quinta. Visitaria o lugar de párias, de corpos lisos e lascivos, obviamente, mas antes precisava ir onde eu lhes dizia. O supermercado.
– Está disponível?
– Tem Bourbon envelhecido? – respondi, digo, perguntei, automaticamente descompromissado.
Imperou uma pausa. Aproveitei para vasculhar todo seu uniforme de expositora em busca de brechas por onde seu jovem corpo pudesse escapar. Quando de repente...
– Vamos falar sobre boceta e futebol, em linguagem coloquial, sobre o clima da cidade e não sobre o peso da idade desta cidade.
– Meu pecíolo... – completei, percebendo os olhares emanando de um rosto frágil, olhares capazes de preencher-te sem transbordar-te.
– É como digo, sempre: “Enxertos em cima de desacertos. Impugne as cicatrizes do tempo. Nenhuma alma é doce; andam a esmos” – citou-me: as grandes merdas moram nos detalhes, neste profético caso, não percebi antes de acontecer.
– Minha terebintina... – e aquilo sim era o pseudo-fator, ou seja, um charme fatal: como eu poderia suportar?
– Yachtsman...
– Como é mesmo o teu nome?
Emoliente! – é a única palavra que poderia descrevê-la. A primeira vez que a vi era um desses tipos de garotas que, querendo que você compre ou somente pare e admire sua beleza, ficam lhe oferecendo “objetos de valores” no supermercado. Cada vez mais as embalagens fantasiosas são promovidas por garotas lindas. Emoliente! – como eu lhes dizia sobre. Como não tinha pressa em zarpar, a maré só muda a cada seis horas, ficamos algum tempo juntos. Só que a pressa em zarpar aumentou gradativamente, simplesmente pelo fato de Catarina começar com assuntos demasiado sérios, delicados, fixados em compromissos engajados. Tais “objetos de valores sociais” que, momentaneamente, estavam fora de cogitação para mim. Que me importava se acaso ela estivesse prenha, prenhe como nuvens que em seguida semearam prosperidade e desacordo nas plantações? Um pacote de alimento não-perecível, no máximo, lhe cederia, por compaixão incrédula. Não via, exatamente, esse horizonte todo, desse prisma, desse ponto de vista jubiloso. Presumo que as brumas atrapalhavam a navegação nas proximidades daquele porto. Qualquer taciturno ficaria pré-ocupado. Além do mais, certos segredos não devem ser revelados. Conquanto, confesso que já imaginava que ao decidir me livrar de Veruska (a esposa) e ficar com Milady (o veleiro), meus problemas com as mulheres estariam terminados. Só não imaginava que seria tão logo e fácil, e que elas fossem cair solenemente em meu bom papo de Dom-Juanismo para ordinárias roucas. “Meus gal games!”, dizia o refrão de um hino dos marujos dissolutos. O que eu tinha em mente: nenhuma pessoa que tenha feito sexo com menos de nove pessoas na vida é digna de dizer que ama, e muito, e tanto, um outro alguém. Enfim, fiz o que havia de ser feito. Afinal, sensivelmente afastado – precisando de um aquecido receptáculo garantido, qual pudesse descansar o membro fálico: condição de minha amarga existência nublada –, a situação me tornaria propício ao mesmo tipo de atitude melodramática que Veruska tomara. Não sou benigno nem nada, e em nada.
– Também possuo isso, encera-me, Yachtsman.
– Isso significa que você foi banida? – pousando em mim seus estáticos olhos comprimidos de preocupação, antes considerados prometidos. Ela era dotada da autoridade para manter isto tudo real. Definitivamente, mulheres e alienígenas são equivalentes: tornam inevitáveis se considerarmos que planos tem inesperadas mudanças: impulso auto-destrutivo lampejante.
– Supunha, eu, em suas, nossas, sórdidas memórias de tênues lençóis contaminados com chorume, quando golpeamos os peixes, caídos no promombó, com nossas resbalosas, rês, sei lá, que já era hora de deixar as formalidades de lado, não há tempo para parcimônias.
– Adeus, ex-pecíolo, ex-terebintina...
É como digo, sempre: “Jamais desenterrar documentos! Jamais amontoar exemplos!”
[...]
Eu começara a abrir e fechar os olhos, intercalando tudo quase que com harmonia budista; começava a ver com os olhos fechados mais do que com eles abertos. As pálpebras pareciam invisíveis...
* - Fragmento extraído da Viagem Dois deste texto.

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