"A Carta", por Ana Paula Sant'Ana.
Jogou os livros, as roupas, cintos, pastas e papéis, alguns escritos a mão, contos que agora se habituava escrever. Remexeu nos bolsos das calças, encontrou notas de dinheiro velho e amassado. Um perfume caído lhe dava sensação de nostalgia. O violão estava sobre a cama, e não vacilou em sentar nas coisas e brincar com ele.
Apesar de ninguém nunca ter lhe entregue aquela carta, tinha certeza que a encontraria em meio as suas coisas, mesmo que demorasse.
Já fazia alguns anos que essa idéia lhe sustentava. E a descoberta da carta mudaria o rumo de tudo o que pensou existir.
Numa ira havia revirado o quarto atrás dessa carta, para nada encontrar, quando, como se houvesse sido pego de surpresa por um surto caótico de dependência de Deus, plantou velas em livros, que ao se queimarem, chamuscaram a parede do quarto, semelhante ao desespero que fizera em seu coração, lambido pela imensa dor do fogo da espera.
E o quarto em cinzas, sugeria o poder de recomeçar.
Ele subiu na mesa e se viu lá de cima: lá estava ele acuado no canto do quarto com as mãos tampando os ouvidos, com ódio, com força, dolorido pelo barulho imenso que aquelas vozes faziam em sua cabeça. Todas aquelas vozes de seres humanos – dotados também de ódio – que apenas querem ser felizes. E por isso ganham o direito de pisar com o pesado corpo da maldade ou da tristeza. Quem mandou ser diferente? Sempre soube sobre as suas escolhas. Sempre soube que poderia escolher o que poderia ser. E mesmo assim carregou desde criança, sozinho, a loucura dentro dele. Gostava de escrever poesia embaixo da árvore do quintal de casa enquanto todos riam alto e falavam juntos sem se compreenderem? Perdia horas recortando nas revistas sóis e luas e planetas e o dia acabava, e se afundava no travesseiro, ninguém podia ouvir seu choro? Ninguém sabia de sua loucura? Doía-lhe não saber o que fazia entre eles. Por que fazia parte deles? E não encontrava aquela carta que estava em seu quarto, guardada, apesar de saber que ela nunca lhe fora entregue.
Numa manhã o pai estava chegando, ouviu seus passos de tão longe que parecia ser apenas uma lembrança, mas ele reconhecia muito bem aqueles passos de deflorador de caminhos. O grande pai vinha em sua direção, não havia palavras, e seu olhar às vezes lhe causava lágrimas, entre eles havia o silêncio, imperativo e mortal. Pensava poder odiá-lo. Mas o invejava por tantas coisas... As mãos grosseiras sempre sugerindo a sua capacidade em cuidar de todos. Ela ficaria perto dele mesmo tentando esquecer – mas não conseguia – que havia acreditado em sua força. Tentando lembrar – mas não poderia – que existe um outro lugar. E ele era o meio entre os dois, que um dia nasceu da brincadeira que eles acreditaram ser de verdade. Até tudo ser penoso, e ser forçado a equilibrar-se entre as inconstâncias das dores deles.
O grande pai entrava pela porta quando queria, não precisava bater, tudo era dele. Passou fumando um cigarro. E sem nada dizer amassou a ponta do cigarro com tanta decisão e masculinidade que mais uma vez aquele gosto de veneno salivou em sua boca.
O que era ele ali? Uma massa branca com seu olhar amarelo sentado em frente à janela que ele nem enxergava, sempre perdido em seus pensamentos, e nem parecia um homem. Não era frágil, era um esboço sem momento final.
Ah, e os amores... Momentos de descobertas, sofrimento nos olhares, encantamentos que tornavam a vida mais bela e aflitiva... Para ele momento em que se sentia mais solitário do que quando estava sozinho... Preferia a solidão, que o fazia viajar por mares densos e longínquos do seu pensamento, entorpecendo e tomando a realidade, fazendo o tempo não ser nada além do silêncio da existência do Universo, e se esquecer de que era corpo, era pele, e era pesado. Na solidão não flutuava, ocupava com seu espírito toda a realidade.
O que poderia ele contra o destino e luta contra a vontade de entregar-se passivamente? A parede branca não o ajudava a esquecer o quanto poderia ser nula a sua vontade de romper o seu próprio sentimento de derrota que invadia. Eles seguiam, instransponíveis e seguros, donos da realidade momentânea. Sem travar longos monólogos noturnos. E ele não poderia seguir sem saber para onde iria. Iria explodir, mas apenas as lágrimas caladas é que escorriam.
Escancarou as janelas e sentiu o vento frio fugidio de algum ponto distante chegar. As lágrimas molharam todo o seu corpo e o vento frio lhe dava total certeza da pequena dimensão de seu corpo, muito menor que as suas incertezas e angústias.
Sem muito pensar, como em um reflexo, abaixou-se para pegar algo, que não sabia, mas sabia, o que era, embaixo da cama. Esticou a mão e esse movimento lhe pareceu tão familiar! Retirou uma mala antiga guardada embaixo de sua cama. Não foi difícil abri-la. Parece que a mala já estava a ansiar por isso mesmo como se houvesse esse carinho de tempos em tempos. Havia umas roupas que já haviam perdido a cor pela desistência em existir. Sob elas, um papel enrolado - era a carta de despedida - como um canudo, preso delicadamente por uma flor. As lágrimas secaram e sentiu o peito latejar. Aquela seria a descoberta que sempre procurou, mas ao mesmo tempo não esteve preparado para conhecer. Abriu a carta vagarosamente para que não esquecesse novamente aquele instante. Não havia vozes, não havia chão sob seus pés. Na carta dizia em poucas palavras que ele havia se aprisionado. Que não esquecia que paredes brancas da casa escondiam os sentimentos de cada um, tornando-os invisíveis. E ele era pesado e sua pele queimava em febre, queria falar sobre o amor, mas era apenas um latejar que causava ânsia, agitando no estômago, tomando suas pernas as inutilizava, e sua boca não professava. Tudo era imenso, e ele permanecia pequeno. O amor tomava-o. Paralisava-o. Mas seu amor não diminuía as dores, seu amor não fazia os remorsos de ninguém serem esquecidos, seu amor não o unia aos homens. Seu corpo também era pesado. E precisava se soltar. Foi assim que numa tarde havia juntado livros, violão e roupas e banhado-se em fogo.
Ao ler a carta não lembrava de dor alguma. Lembrou-se que não deveria mais permanecer entre as paredes brancas.
Apesar de ninguém nunca ter lhe entregue aquela carta, tinha certeza que a encontraria em meio as suas coisas, mesmo que demorasse.
Já fazia alguns anos que essa idéia lhe sustentava. E a descoberta da carta mudaria o rumo de tudo o que pensou existir.
Numa ira havia revirado o quarto atrás dessa carta, para nada encontrar, quando, como se houvesse sido pego de surpresa por um surto caótico de dependência de Deus, plantou velas em livros, que ao se queimarem, chamuscaram a parede do quarto, semelhante ao desespero que fizera em seu coração, lambido pela imensa dor do fogo da espera.
E o quarto em cinzas, sugeria o poder de recomeçar.
Ele subiu na mesa e se viu lá de cima: lá estava ele acuado no canto do quarto com as mãos tampando os ouvidos, com ódio, com força, dolorido pelo barulho imenso que aquelas vozes faziam em sua cabeça. Todas aquelas vozes de seres humanos – dotados também de ódio – que apenas querem ser felizes. E por isso ganham o direito de pisar com o pesado corpo da maldade ou da tristeza. Quem mandou ser diferente? Sempre soube sobre as suas escolhas. Sempre soube que poderia escolher o que poderia ser. E mesmo assim carregou desde criança, sozinho, a loucura dentro dele. Gostava de escrever poesia embaixo da árvore do quintal de casa enquanto todos riam alto e falavam juntos sem se compreenderem? Perdia horas recortando nas revistas sóis e luas e planetas e o dia acabava, e se afundava no travesseiro, ninguém podia ouvir seu choro? Ninguém sabia de sua loucura? Doía-lhe não saber o que fazia entre eles. Por que fazia parte deles? E não encontrava aquela carta que estava em seu quarto, guardada, apesar de saber que ela nunca lhe fora entregue.
Numa manhã o pai estava chegando, ouviu seus passos de tão longe que parecia ser apenas uma lembrança, mas ele reconhecia muito bem aqueles passos de deflorador de caminhos. O grande pai vinha em sua direção, não havia palavras, e seu olhar às vezes lhe causava lágrimas, entre eles havia o silêncio, imperativo e mortal. Pensava poder odiá-lo. Mas o invejava por tantas coisas... As mãos grosseiras sempre sugerindo a sua capacidade em cuidar de todos. Ela ficaria perto dele mesmo tentando esquecer – mas não conseguia – que havia acreditado em sua força. Tentando lembrar – mas não poderia – que existe um outro lugar. E ele era o meio entre os dois, que um dia nasceu da brincadeira que eles acreditaram ser de verdade. Até tudo ser penoso, e ser forçado a equilibrar-se entre as inconstâncias das dores deles.
O grande pai entrava pela porta quando queria, não precisava bater, tudo era dele. Passou fumando um cigarro. E sem nada dizer amassou a ponta do cigarro com tanta decisão e masculinidade que mais uma vez aquele gosto de veneno salivou em sua boca.
O que era ele ali? Uma massa branca com seu olhar amarelo sentado em frente à janela que ele nem enxergava, sempre perdido em seus pensamentos, e nem parecia um homem. Não era frágil, era um esboço sem momento final.
Ah, e os amores... Momentos de descobertas, sofrimento nos olhares, encantamentos que tornavam a vida mais bela e aflitiva... Para ele momento em que se sentia mais solitário do que quando estava sozinho... Preferia a solidão, que o fazia viajar por mares densos e longínquos do seu pensamento, entorpecendo e tomando a realidade, fazendo o tempo não ser nada além do silêncio da existência do Universo, e se esquecer de que era corpo, era pele, e era pesado. Na solidão não flutuava, ocupava com seu espírito toda a realidade.
O que poderia ele contra o destino e luta contra a vontade de entregar-se passivamente? A parede branca não o ajudava a esquecer o quanto poderia ser nula a sua vontade de romper o seu próprio sentimento de derrota que invadia. Eles seguiam, instransponíveis e seguros, donos da realidade momentânea. Sem travar longos monólogos noturnos. E ele não poderia seguir sem saber para onde iria. Iria explodir, mas apenas as lágrimas caladas é que escorriam.
Escancarou as janelas e sentiu o vento frio fugidio de algum ponto distante chegar. As lágrimas molharam todo o seu corpo e o vento frio lhe dava total certeza da pequena dimensão de seu corpo, muito menor que as suas incertezas e angústias.
Sem muito pensar, como em um reflexo, abaixou-se para pegar algo, que não sabia, mas sabia, o que era, embaixo da cama. Esticou a mão e esse movimento lhe pareceu tão familiar! Retirou uma mala antiga guardada embaixo de sua cama. Não foi difícil abri-la. Parece que a mala já estava a ansiar por isso mesmo como se houvesse esse carinho de tempos em tempos. Havia umas roupas que já haviam perdido a cor pela desistência em existir. Sob elas, um papel enrolado - era a carta de despedida - como um canudo, preso delicadamente por uma flor. As lágrimas secaram e sentiu o peito latejar. Aquela seria a descoberta que sempre procurou, mas ao mesmo tempo não esteve preparado para conhecer. Abriu a carta vagarosamente para que não esquecesse novamente aquele instante. Não havia vozes, não havia chão sob seus pés. Na carta dizia em poucas palavras que ele havia se aprisionado. Que não esquecia que paredes brancas da casa escondiam os sentimentos de cada um, tornando-os invisíveis. E ele era pesado e sua pele queimava em febre, queria falar sobre o amor, mas era apenas um latejar que causava ânsia, agitando no estômago, tomando suas pernas as inutilizava, e sua boca não professava. Tudo era imenso, e ele permanecia pequeno. O amor tomava-o. Paralisava-o. Mas seu amor não diminuía as dores, seu amor não fazia os remorsos de ninguém serem esquecidos, seu amor não o unia aos homens. Seu corpo também era pesado. E precisava se soltar. Foi assim que numa tarde havia juntado livros, violão e roupas e banhado-se em fogo.
Ao ler a carta não lembrava de dor alguma. Lembrou-se que não deveria mais permanecer entre as paredes brancas.

5 Comments:
Ana, gostei da sua estória.
Gostei da linguagem não forçosa e bem adequada.
Infelizmente, ainda não tomei coragem para escrever e por isso não tenho blog algum. Sou amigo do Tiago Muzulon. Gostaria de conversar contigo sobre este texto.
Meu msn é grohlbiel@hotmail.com
Se quiser, estarei disposto a travar conversas amigáveis contigo.
Parabéns.
beira o celestial, muito bom.
talvez o texto. talvez eu. no final me perdi nos meus já densos pensamentos e me dispersei.
profundamente raso.
beatiful
muito bom!!!
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