"Brinco", por Hélio Flanders.
Após um recesso médico de trinta dias, retornei aos cerrados. Logo ao chegar, pude ver o sol que brilhava intensamente, como na época de Dioi. Era como se uma cauda bege escorresse das nuvens e eu respirava o ar dos velhos guerreiros. Tudo parecia um pouco mudado. O Cassady estava fechado e apenas Valentino refletia sentado em sua velha cadeira, dormindo. Sentei-me no acento ao lado, e comecei a pensar sobre uma réplica, um resfolegar que pudesse trazer até mim a resposta para o céu que nos dobrava; este era diferente, com uma nuvem de uma cor que se misturava entre o azul e o rosa. Valentino abriu os olhos e disse:
- Nos levaram tudo! - Valentino falava de uma maneira peculiar, sempre levantando a calça quando terminava uma frase. Não resisti e ri.
- O que levaram? Muito dinheiro?
- Claro que não. Não deixamos dinheiro aqui. Levaram a adega inteira!
- A adega!? - Sim! Levaram desde Chateau até o Velho. O pior de tudo é saber quem foi o ladrão.
- Vocês o conhecem?
- Mais ou menos. É um tal de Brinco, trabalha na Cumbre e veio do Sul. Na verdade nós suspeitamos dele. É um bêbado, porém tenho um certo carinho pelo desgraçado. Ele sempre vem beber aqui e tem um sotaque incrível. Outro dia ele carregava dois revólveres, um em cada perna. Quando lhe perguntei o porque daquela ultra-proteção, ele disse que os Cerrados eram o lugar mais demente que ele já havia visitado e que sentia necessidade de andar armado. Se denominou Mad Max.
Todas as palavras de Valentino entraram como moscas em meus ouvidos. Tinha ganas de saber quem era o forasteiro, porém mais ganas ainda de beber algo. Pedi para que ele abrisse o Cassady e me servisse uma bebida. Valentino recusou, dizendo que precisava descansar. - Tenho um baseado - lhe disse calmamente. Então ele me olhou, riu, e disse: - Vamos pela porta de trás.
Entramos no Cassady, que descansava vazio. Era triste ver o palco, à noite consagrando nomes junkies do underground dos cerrados, caído e perdido no vazio imenso que a tarde escura proporcionava ao ambiente. Valentino serviu-me uma bebida. Whisky vagabundo, como sempre o fazia. Comecei a enrolar o baseado enquanto ele me contava histórias de contrabando. - Uma vez eu trouxe dois quilos de cânhamo desde Buena Vista e quase fui pego! Revistaram toda a caminhonete, e eu tinha duas pedras verdes em cada paralama. Não sei como não acharam. Goga, que estava comigo na ocasião, disse que foi uma intervenção divina. Não havia como não achar. Eram duas grandes lajotas de cannabis sativa. Eu ainda penso que eles viram, mas por preguiça de nos autuar, levar até a delegacia e todas essas chatices burocráticas, nos liberaram. Quando vimos as duas viaturas dos porcos se afastando, pulei no pescoço do Goga, como um menino, e beijei seu rosto. Logo ao entrarmos de volta no veículo, fechei uma vela enorme e fumamos enquanto ríamos como as hienas mais felizes de Vallegrand. Aquilo sim foi um acontecimento. Hoje em dia isso não existe mais em minha vida. - Acendi o baseado. Valentino era um dos caras mais respeitáveis dos cerrados. As histórias que ele nos contava carregavam verdade. Verdade e dor. Por inúmeras vezes ficamos conversando até às 5, quando o Cassady abria e ele se entretia servindo seus nobres fregueses. Uma vez ele, bêbado, discursou sobre despedidas. Abusou de exageros e imagens de flagelo. Disse que deveríamos nos acostumar à elas, pois estas seriam as únicas a nos tirar pedaços durante nossa vida e elas viriam em doses cavalares. Enquanto fumamos, o silêncio de Valentino foi duro para mim. Ele me remetia muita coisa que eu, racionalmente, não gostaria de lembrar. Por outro lado, essas lembranças tocavam tão fundo que isso trazia sussurros à meu coração, deixando-me como um garoto de sete anos. A melhor parte de dividir um baseado com Valentino era que, após alguns pegas, ele levantava e dizia: - Tenho uma boa bebida para nós! - E então ele tirava de esconderijos inimagináveis garrafas premiadas, chateau e vodkas da melhor qualidade. Bebíamos até os primeiros clientes chegarem e ele ir conversar com eles, jogar sua lábia até seus copos e seus olhos doentes. Eu continuei bebendo, ainda chapado pelo cânhamo. Pessoas estranhas frequentavam o Cassady. Eu havia ficado ausente por trinta dias e à certa altura, tudo parecia mudado. O teto parecia mais verde, as garrafas mais marrons e as pessoas mais lunáticas. Duas mulheres que estavam sentadas perto de mim me chamaram a atenção. Deviam beirar os trinta anos e tinham corpos atléticos. Uma fumava compulsivamente. Maxwell, o garçom marinheiro de Valentino, chegou até mim: - Está vendo essas vagabundas? Se levá-las para casa, podes comer ambas. Elas vem de Rincon, e são ingênuas moças do campo. - O olhar das mulheres era perdido, cansado. Preferi continuar com minha bebida. Às vezes Valentino vinha até mim, dava um gole no néctar e dizia: - Estou louco! Erva boa! Quando eram sete horas, eu já tinha os olhos em chamas. A bebida fazia um efeito estranho, deixando minhas mãos trêmulas. Ouvi um barulho logo na entrada, e era um sujeito que adentrava o bar caminhando de maneira áspera. Valentino chegou e disse em voz baixa: - É este o filho da puta que roubou a adega! - O homem era peculiar em tudo: falava com um sotaque sulista, olhava para todos de maneira infantil e doente, sorria inocentemente. Ao ver Valentino, lhe abraçou e sorriu, perguntando sobre o dia-a-dia. Vieram até mim, o forasteiro mostrou os dentes vividos e finalmente cuspiu-me um pouco de sua voz:
- Acho que te conheço! Você não é Maion, o animal?
- O Animal? Acho que não.
Comecei a gargalhar. A sua maneira de falar era única, algo que eu nunca havia visto antes em toda minha vida. Valentino nos apresentou. Este era então Brinco, que havia sido mostrado como um larápio antes, e se mostrava um camarada diante de mim. Conversamos um pouco. Neste momento, a garrafa de aguardente que Valentino havia nos trazido já deslizava vazia pela mesa. Pedi a ele uma nova garrafa, mas ele disse que não havia mais. Sugeriu cervejas, porém antes mesmo de que eu pudesse responder afirmativamente, Brinco retrucou: - Cervejas não!! Traz o Velho! - Eu não podia acreditar. Ele havia pedido o Velho. Logo Valentino trouxe uma garrafa incendiária. Brinco discursava: - Eu e minha primeira mulher, Vera, tomávamos o Velho praticamente todos os dias quando morávamos em El Balneario. Chegamos a tomar doze litros por semana. Ao fim de trezentos e sessenta e cinco dias, contei as garrafas empilhadas atrás da casa, e somaram-se cento e trinta e oito. Centro e trinta e nove, com a última que joguei na pilha, quando terminei de secá-la. Era reveillon e a lua estava cinza. A Vera gritava comigo e me cobrava alguma atitude diante da chuva, mas eu só conseguia rir.
Meses mais tarde eu olharia com olhos de loucura para esta tarde suicida, quando o encontrei pela primeira vez. Todas as imagens virgens, criadas pela lábia mágica de Brinco, se mostravam angelicais. Quando ele dizia sobre viagens e partidas de futebol, eu conseguia enxergar as pombas de Cristo. Brinco era cético, era jovem. A vida era a única culpada pelo estágio melancólico e indeciso que sondava meu ser, e por um instante as figuras gritadas por este novo homem, que tanto acrescentava ao meu seio, triplicavam a paz exposta na cruz, com o velho sonhador. Jeová, ao lado de Brinco, não era nada. Talvez um prego, na cruz pútrefa. Quando Pablito o conheceu, disse ter vontade de chorar. Eu não pude dizer o contrário. O meu primeiro dia com Brinco foi uma comoção coletiva. Tenho inúmeras outras lembranças dentro de mim quando sou tomado pela mesma alvorada que nos perseguia. Às vezes escondo em demasia, às vezes entrego estrago. Antes que eu pudesse ir para casa descansar após tamanha mudança em minha vida, vi as andorinhas marcharem.
- Nos levaram tudo! - Valentino falava de uma maneira peculiar, sempre levantando a calça quando terminava uma frase. Não resisti e ri.
- O que levaram? Muito dinheiro?
- Claro que não. Não deixamos dinheiro aqui. Levaram a adega inteira!
- A adega!? - Sim! Levaram desde Chateau até o Velho. O pior de tudo é saber quem foi o ladrão.
- Vocês o conhecem?
- Mais ou menos. É um tal de Brinco, trabalha na Cumbre e veio do Sul. Na verdade nós suspeitamos dele. É um bêbado, porém tenho um certo carinho pelo desgraçado. Ele sempre vem beber aqui e tem um sotaque incrível. Outro dia ele carregava dois revólveres, um em cada perna. Quando lhe perguntei o porque daquela ultra-proteção, ele disse que os Cerrados eram o lugar mais demente que ele já havia visitado e que sentia necessidade de andar armado. Se denominou Mad Max.
Todas as palavras de Valentino entraram como moscas em meus ouvidos. Tinha ganas de saber quem era o forasteiro, porém mais ganas ainda de beber algo. Pedi para que ele abrisse o Cassady e me servisse uma bebida. Valentino recusou, dizendo que precisava descansar. - Tenho um baseado - lhe disse calmamente. Então ele me olhou, riu, e disse: - Vamos pela porta de trás.
Entramos no Cassady, que descansava vazio. Era triste ver o palco, à noite consagrando nomes junkies do underground dos cerrados, caído e perdido no vazio imenso que a tarde escura proporcionava ao ambiente. Valentino serviu-me uma bebida. Whisky vagabundo, como sempre o fazia. Comecei a enrolar o baseado enquanto ele me contava histórias de contrabando. - Uma vez eu trouxe dois quilos de cânhamo desde Buena Vista e quase fui pego! Revistaram toda a caminhonete, e eu tinha duas pedras verdes em cada paralama. Não sei como não acharam. Goga, que estava comigo na ocasião, disse que foi uma intervenção divina. Não havia como não achar. Eram duas grandes lajotas de cannabis sativa. Eu ainda penso que eles viram, mas por preguiça de nos autuar, levar até a delegacia e todas essas chatices burocráticas, nos liberaram. Quando vimos as duas viaturas dos porcos se afastando, pulei no pescoço do Goga, como um menino, e beijei seu rosto. Logo ao entrarmos de volta no veículo, fechei uma vela enorme e fumamos enquanto ríamos como as hienas mais felizes de Vallegrand. Aquilo sim foi um acontecimento. Hoje em dia isso não existe mais em minha vida. - Acendi o baseado. Valentino era um dos caras mais respeitáveis dos cerrados. As histórias que ele nos contava carregavam verdade. Verdade e dor. Por inúmeras vezes ficamos conversando até às 5, quando o Cassady abria e ele se entretia servindo seus nobres fregueses. Uma vez ele, bêbado, discursou sobre despedidas. Abusou de exageros e imagens de flagelo. Disse que deveríamos nos acostumar à elas, pois estas seriam as únicas a nos tirar pedaços durante nossa vida e elas viriam em doses cavalares. Enquanto fumamos, o silêncio de Valentino foi duro para mim. Ele me remetia muita coisa que eu, racionalmente, não gostaria de lembrar. Por outro lado, essas lembranças tocavam tão fundo que isso trazia sussurros à meu coração, deixando-me como um garoto de sete anos. A melhor parte de dividir um baseado com Valentino era que, após alguns pegas, ele levantava e dizia: - Tenho uma boa bebida para nós! - E então ele tirava de esconderijos inimagináveis garrafas premiadas, chateau e vodkas da melhor qualidade. Bebíamos até os primeiros clientes chegarem e ele ir conversar com eles, jogar sua lábia até seus copos e seus olhos doentes. Eu continuei bebendo, ainda chapado pelo cânhamo. Pessoas estranhas frequentavam o Cassady. Eu havia ficado ausente por trinta dias e à certa altura, tudo parecia mudado. O teto parecia mais verde, as garrafas mais marrons e as pessoas mais lunáticas. Duas mulheres que estavam sentadas perto de mim me chamaram a atenção. Deviam beirar os trinta anos e tinham corpos atléticos. Uma fumava compulsivamente. Maxwell, o garçom marinheiro de Valentino, chegou até mim: - Está vendo essas vagabundas? Se levá-las para casa, podes comer ambas. Elas vem de Rincon, e são ingênuas moças do campo. - O olhar das mulheres era perdido, cansado. Preferi continuar com minha bebida. Às vezes Valentino vinha até mim, dava um gole no néctar e dizia: - Estou louco! Erva boa! Quando eram sete horas, eu já tinha os olhos em chamas. A bebida fazia um efeito estranho, deixando minhas mãos trêmulas. Ouvi um barulho logo na entrada, e era um sujeito que adentrava o bar caminhando de maneira áspera. Valentino chegou e disse em voz baixa: - É este o filho da puta que roubou a adega! - O homem era peculiar em tudo: falava com um sotaque sulista, olhava para todos de maneira infantil e doente, sorria inocentemente. Ao ver Valentino, lhe abraçou e sorriu, perguntando sobre o dia-a-dia. Vieram até mim, o forasteiro mostrou os dentes vividos e finalmente cuspiu-me um pouco de sua voz:
- Acho que te conheço! Você não é Maion, o animal?
- O Animal? Acho que não.
Comecei a gargalhar. A sua maneira de falar era única, algo que eu nunca havia visto antes em toda minha vida. Valentino nos apresentou. Este era então Brinco, que havia sido mostrado como um larápio antes, e se mostrava um camarada diante de mim. Conversamos um pouco. Neste momento, a garrafa de aguardente que Valentino havia nos trazido já deslizava vazia pela mesa. Pedi a ele uma nova garrafa, mas ele disse que não havia mais. Sugeriu cervejas, porém antes mesmo de que eu pudesse responder afirmativamente, Brinco retrucou: - Cervejas não!! Traz o Velho! - Eu não podia acreditar. Ele havia pedido o Velho. Logo Valentino trouxe uma garrafa incendiária. Brinco discursava: - Eu e minha primeira mulher, Vera, tomávamos o Velho praticamente todos os dias quando morávamos em El Balneario. Chegamos a tomar doze litros por semana. Ao fim de trezentos e sessenta e cinco dias, contei as garrafas empilhadas atrás da casa, e somaram-se cento e trinta e oito. Centro e trinta e nove, com a última que joguei na pilha, quando terminei de secá-la. Era reveillon e a lua estava cinza. A Vera gritava comigo e me cobrava alguma atitude diante da chuva, mas eu só conseguia rir.
Meses mais tarde eu olharia com olhos de loucura para esta tarde suicida, quando o encontrei pela primeira vez. Todas as imagens virgens, criadas pela lábia mágica de Brinco, se mostravam angelicais. Quando ele dizia sobre viagens e partidas de futebol, eu conseguia enxergar as pombas de Cristo. Brinco era cético, era jovem. A vida era a única culpada pelo estágio melancólico e indeciso que sondava meu ser, e por um instante as figuras gritadas por este novo homem, que tanto acrescentava ao meu seio, triplicavam a paz exposta na cruz, com o velho sonhador. Jeová, ao lado de Brinco, não era nada. Talvez um prego, na cruz pútrefa. Quando Pablito o conheceu, disse ter vontade de chorar. Eu não pude dizer o contrário. O meu primeiro dia com Brinco foi uma comoção coletiva. Tenho inúmeras outras lembranças dentro de mim quando sou tomado pela mesma alvorada que nos perseguia. Às vezes escondo em demasia, às vezes entrego estrago. Antes que eu pudesse ir para casa descansar após tamanha mudança em minha vida, vi as andorinhas marcharem.

5 Comments:
me disseram que brinco agora usa as unhas pintadas de preto.
chorei pelo brinco.
quanta inrustição!
Boa a estória, no duro.
Pessoas não são tão bem construídas
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