"A bizarra", por Tiago Muzulon.
E foi assim, de supetão, a primeira vez que a vi. A personificação da grosseria, a transformação do grotesco real e absoluto em verossimilhança. E ela ali estava, diante de meus olhos, feia, horrível como nunca, uma lástima, o mais extremado ponto da degradação humana.
E ela recolhia o lixo, que depositávamos ao fundo do café. Eu trabalhava em um café que se situava em um shopping center anexado a estação de metrô. Eventualmente tinha de trocar os sacos de lixo cheios de tudo, como copos descartáveis de café, guardanapos, mexedores de pau e colheres de plástico. Sacava o saco cheio, atava-lhe um nó, repunha o cesto com um outro saco plástico, e me dirigia até o corredor externo aos fundos onde os grandes conteineres ficavam.
E assim cruzei com ela, o terror. Ela fazia a troca dos grandes conteineres. Havia puxado um até o elevador e voltava para pegar o outro, quando cruzei o fito com ela. Não reagi devido ao susto que tomara. Ela me olhou indiferente, e senti nojo, pena, repulsa, ódio por tudo e por nada.
Enquanto eu trabalhava no café, como barista, ela era uma mulher imensa que trocava os grandes conteineres de lixo. Era maior e mais forte do que eu, muito mais capaz de trabalhos físicos, como se isso fosse tudo. Deixava até de ser mulher, talvez.
Após o primeiro encontro casual, começamos a nos ver com certa regularidade. Coincidentemente ou não, trocávamos nossos lixos que variavam nas dimensões em ocasionais mesmos horários. E ela me assustava cada vez mais.
Aos poucos pude notar penugens intrépidas que nasciam em sua face desfigurada e cicatrizada por espinhas espremidas. Um piercing se protuberava em seu queixo. Seu corpo era obesamente disforme. Sentia repulsa, ódio, e compaixão por essa mulher. Tão castigada.
Em uma das vezes que cruzei com ela, arrisquei dizer oi. Ela não respondeu, mascava algo, um pedaço de bolo, um chiclete, qualquer coisa que não sei ao certo.
Em outra vez, estava para arremessar o saco de lixo em um conteiner, quando ela me interrompeu, com um grunhido gutural, gesticulando para que não o fizesse e entregasse o saco a ela, pois havia acabado de esvaziar o conteiner e não queria que fodesse seu trabalho. Entreguei-lhe complacente, pensando em pedir desculpas, porém ponderei que talvez fosse surda, considerando a vez que a disse ‘oi’ e que nem me respondeu, e também o som gutural expressando seu desespero desnecessário, involuntário.
Desde então a apelidei de a ‘tiazona do lixo’, ou de ‘o ogro da meia-noite’. E escutamos seus passos, assustados.
Ela vem, grunhe, arrasta os conteineres com desdém e vai embora, todos os dias.
Consigo até imaginá-la em sua vida privada de merda. Acorda cedo em um muquifo de três por três. Mora sozinha porque ninguém jamais suportaria seu fedor. Cozinha restos de comida putrefatos em uma panelinha de metal que não limpa há semanas. E vai trabalhar, recolher os grandes conteineres de lixo que acumulam os dejetos de um dia inteiro nos fundos do shopping center.
Suspeito que se chame Cláudia, que seja da mesma nacionalidade que a minha, embora nunca tenha falado coisa alguma com ela a não ser ‘obrigado’.
E sofre toda esta miséria em um país opulento, cheio de loiras bonitas que usam óculos de grife e pintam suas unhas de vermelho em caras manicures, para mais tarde irem trepar com qualquer um em banheiros unissex de boates gays, altamente ébrias de ecstasy.
Deve ter ninguém, ser revoltosa e vazia. Faz cara de mal para encarar a vida. Vive nos corredores subterrâneos do shopping, carregando grandes latas de lixo. Os gerentes bonitos engravatados devem ter ojeriza de vê-la. Deve ser evitada e ignorada. Preferem depositar seu salário em um número de conta bancária a entregar-lhe o cheque semanal.
A Cláudia é uma merda e nada mudará isso. Ela nunca será bonita, tampouco prestimosa. Sempre carregará lixos. Não terá marido, nem filhos, nem satisfação, nem felicidade, nem orgasmos loucos com pessoas lindas, charmosas e cheirosas após festas luxuriosas. Bebe apenas aqueles vinhos que se tornam pó quando secam no fundo do copo. E nada mudará isso. E bebe centenas dessas garrafas todas as noites para se aturar e tolerar seu fracasso original; sua vida natimorta sem-sentido senão sofrer, penar, e pagar por pecados alheios. Talvez têm surtos de lucidez e se entende como A Redentora, uma nova forma de ser Jesus Cristo. Carregando os dejetos de pessoas tão fúteis que “não sabem o que fazem”.
Ninguém se importa com ela. E sempre será uma miserável maldita. Não suporto a idéia de dizer ‘pobre coitada da Cláudia’, porque ela é muito mais. Ela é uma miserável. E não tenho pena dela porque nada mudará sua condição lastimável.
A Cláudia está fodida, claro que todos Nós estamos fodidos, mas a Cláudia está muito mais. E essa é a mais pura verdade.
E ela recolhia o lixo, que depositávamos ao fundo do café. Eu trabalhava em um café que se situava em um shopping center anexado a estação de metrô. Eventualmente tinha de trocar os sacos de lixo cheios de tudo, como copos descartáveis de café, guardanapos, mexedores de pau e colheres de plástico. Sacava o saco cheio, atava-lhe um nó, repunha o cesto com um outro saco plástico, e me dirigia até o corredor externo aos fundos onde os grandes conteineres ficavam.
E assim cruzei com ela, o terror. Ela fazia a troca dos grandes conteineres. Havia puxado um até o elevador e voltava para pegar o outro, quando cruzei o fito com ela. Não reagi devido ao susto que tomara. Ela me olhou indiferente, e senti nojo, pena, repulsa, ódio por tudo e por nada.
Enquanto eu trabalhava no café, como barista, ela era uma mulher imensa que trocava os grandes conteineres de lixo. Era maior e mais forte do que eu, muito mais capaz de trabalhos físicos, como se isso fosse tudo. Deixava até de ser mulher, talvez.
Após o primeiro encontro casual, começamos a nos ver com certa regularidade. Coincidentemente ou não, trocávamos nossos lixos que variavam nas dimensões em ocasionais mesmos horários. E ela me assustava cada vez mais.
Aos poucos pude notar penugens intrépidas que nasciam em sua face desfigurada e cicatrizada por espinhas espremidas. Um piercing se protuberava em seu queixo. Seu corpo era obesamente disforme. Sentia repulsa, ódio, e compaixão por essa mulher. Tão castigada.
Em uma das vezes que cruzei com ela, arrisquei dizer oi. Ela não respondeu, mascava algo, um pedaço de bolo, um chiclete, qualquer coisa que não sei ao certo.
Em outra vez, estava para arremessar o saco de lixo em um conteiner, quando ela me interrompeu, com um grunhido gutural, gesticulando para que não o fizesse e entregasse o saco a ela, pois havia acabado de esvaziar o conteiner e não queria que fodesse seu trabalho. Entreguei-lhe complacente, pensando em pedir desculpas, porém ponderei que talvez fosse surda, considerando a vez que a disse ‘oi’ e que nem me respondeu, e também o som gutural expressando seu desespero desnecessário, involuntário.
Desde então a apelidei de a ‘tiazona do lixo’, ou de ‘o ogro da meia-noite’. E escutamos seus passos, assustados.
Ela vem, grunhe, arrasta os conteineres com desdém e vai embora, todos os dias.
Consigo até imaginá-la em sua vida privada de merda. Acorda cedo em um muquifo de três por três. Mora sozinha porque ninguém jamais suportaria seu fedor. Cozinha restos de comida putrefatos em uma panelinha de metal que não limpa há semanas. E vai trabalhar, recolher os grandes conteineres de lixo que acumulam os dejetos de um dia inteiro nos fundos do shopping center.
Suspeito que se chame Cláudia, que seja da mesma nacionalidade que a minha, embora nunca tenha falado coisa alguma com ela a não ser ‘obrigado’.
E sofre toda esta miséria em um país opulento, cheio de loiras bonitas que usam óculos de grife e pintam suas unhas de vermelho em caras manicures, para mais tarde irem trepar com qualquer um em banheiros unissex de boates gays, altamente ébrias de ecstasy.
Deve ter ninguém, ser revoltosa e vazia. Faz cara de mal para encarar a vida. Vive nos corredores subterrâneos do shopping, carregando grandes latas de lixo. Os gerentes bonitos engravatados devem ter ojeriza de vê-la. Deve ser evitada e ignorada. Preferem depositar seu salário em um número de conta bancária a entregar-lhe o cheque semanal.
A Cláudia é uma merda e nada mudará isso. Ela nunca será bonita, tampouco prestimosa. Sempre carregará lixos. Não terá marido, nem filhos, nem satisfação, nem felicidade, nem orgasmos loucos com pessoas lindas, charmosas e cheirosas após festas luxuriosas. Bebe apenas aqueles vinhos que se tornam pó quando secam no fundo do copo. E nada mudará isso. E bebe centenas dessas garrafas todas as noites para se aturar e tolerar seu fracasso original; sua vida natimorta sem-sentido senão sofrer, penar, e pagar por pecados alheios. Talvez têm surtos de lucidez e se entende como A Redentora, uma nova forma de ser Jesus Cristo. Carregando os dejetos de pessoas tão fúteis que “não sabem o que fazem”.
Ninguém se importa com ela. E sempre será uma miserável maldita. Não suporto a idéia de dizer ‘pobre coitada da Cláudia’, porque ela é muito mais. Ela é uma miserável. E não tenho pena dela porque nada mudará sua condição lastimável.
A Cláudia está fodida, claro que todos Nós estamos fodidos, mas a Cláudia está muito mais. E essa é a mais pura verdade.

2 Comments:
puta que pariu. na minha rua tinha uma cláudia. ela tinha bigode, falava grosso e jogava futebol melhor que eu. Mas cara, ela tinha umas coixas...
Gostei quando ela se torna Cláudia, mas pra mim ela tem cara de Linda! Porque o acaso é muito mais cruel do que aprece... hohoho
Puta merda, Claudia é o nome da minha namorada. Porra Tiago, você sabe disso! Mas existem tantas outras e por isso não devo me irritar à toa...
Foi legal.
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